Moda

Israel Cassol: o influencer de 40 anos para quem a moda não tem género

Descobriu-se na linha que separa o feminino e o masculino. Acabou por se tornar uma referência na defesa da fluidez de género.
Sente-se mais confortável quando esbate as linhas de género.

Nos dias que correm, as normas sociais são cada vez mais discutidas. Velhas questões conhecem agora novas respostas, mais inclusivas e representativas da diversidade. Um dos temas que mais tem sido questionado tem a ver com a autodescoberta ligada à identidade de género e sexualidade.

Apesar de ainda ser sobretudo associado a pessoas mais jovens, o processo de conhecimento da essência de cada é um processo que não tem data de validade. Um destes exemplos é o crescente interesse pela androginia e pela moda sem género que se verifica em pessoas de todas as idades.

Aos 40 anos, o brasileiro Israel Cassol tornou-se um dos principais apologistas da moda feminina para homens. Conquistou o seu espaço no mundo online, alcançando uma forte audiência não só no Brasil, mas um pouco por todo o mundo. Usa saias, blusas, lenços e carteiras — peças e acessórios que não costumavam ser associados ao corpo masculino — mas que são uma fonte de inspiração para os mais de 600 mil seguidores que o acompanham no Instagram.

Porém, este desejo de usar roupa que foge às normas de género não começou em tenra idade. Até aos 18 anos, continuava a seguir um padrão heteronormativo e não se assumia enquanto homem gay. “Quando virei modelo, aos 19 anos, comecei a soltar-me. Só comecei a usar moda de forma mais livre aos 21 anos quando cheguei a Milão”, conta à NiT. No entanto, deu estes passos de forma subtil porque, “naquela época, há 20 anos, nenhum homem usava saias ou roupas andróginas”.

A roupa é uma forma de expressão individual.

Só nos últimos três ou quatro anos, de acordo com o atual apresentador do programa “Empire Magazine” nao canal brasileiro SBT é que se começou a assistir a este fenómeno. Nessa mesma altura lançou-se como criador de conteúdos digitais e só a partir daí se começou a sentir confortável com looks tipicamente considerados femininos. Deixou de questionar porque é que um homem não podia usar saia, assim como uma mulher pode usar fato e gravata, e percebeu que tinha a resposta dentro de si. Nada o impedia de o fazer.

“Comecei quase com 40 anos de idade. Estava à procura de roupa para ir a um evento em Londres, não encontrava nada que me atraísse. Quando vi uma saia em couro do Alexander McQueen disse que ia com aquela saia”, explica. “As pessoas tinham ainda mais preconceito porque era um homem mais velho e diziam que não ia durar um mês como influencer”.

Birkin Boy

A verdade é que o sucesso se têm prolongado no tempo, em parte porque o jornal britânico “Daily Mail” o descreveu como “Birkin Boy”, num artigo publicado em 2019. Israel é um dos maiores colecionadores do Reino Unido de carteiras Birkin, da Hermès, avaliadas em aproximadamente 120 mil euros.

O icónico modelo da marca francesa foi um dos primeiros objetos normalmente associados às mulheres que o cativaram — e o inspiraram a adotar o conceito de moda sem género. “Em 2015, comprei a minha primeira Birkin, uma carteira feminina. Comprei um modelo preto e muitas pessoas riram-se de mim. Foi o meu primeiro item feminino. Depois é que vieram as saias e as camisas bufantes, por exemplo”.

Quando procurava uma carteira para viajar, conclui que eram todas muito grandes e masculinas. Cruzou-se com o modelo na revista “Vogue” e, de forma ingénua, dirigiu-se à loja. “Não sabia que era difícil comprá-la, que tinha lista de espera e que tínhamos de ser clientes da Hermès”, diz. Viajou pela Europa inteira e comprou a sua primeira Birkin em Milão, transferindo a frustração de estar infeliz com trabalho no consumo.

A única peça que se recusa a usar são sapatos de salto alto.

“Não voltei a comprar mais carteiras Birkin, porque estou feliz no que estou a fazer. A coleção está no guarda-roupa, mas não sinto necessidade de ter mais. E estamos a atravessar um momento tão difícil em termos ambientais devido ao consumismo acelerado, que perdi o hábito de as comprar. Ser influencer também é  nas redes sociais as coisas pelas quais o mundo está a passar”.

A primeira vez que Israel viu um homem com uma saia foi o designer Marc Jacobs, em Nova Iorque, em 2016: “se o Marc Jacobs consegue, porque é que eu não posso vestir uma saia?”. “. Recentemente, vi um cantor com um vestido preto muito colado ao corpo e disse: na meu próxima photoshoot vou usar um vestido assim”. No entanto, sublinha que, num contexto machista, andar na rua com roupas femininas significa que vão ser associadas a uma figura vista como submissa — algo contrário às expetativas da sociedade em relação aos homens.

O cruzamento entre o feminino e o masculino

“Tenho um pouco da alma feminina, vejo-me como um homem e uma mulher ao mesmo tempo”, confessa, mostrando que se trata mais do que uma mera afirmação visual. “Eu acho que durante toda a minha vida, também me senti os dois géneros. Quem me conhece, sabe que tenho ambos muito próximos”.

O equilíbrio é alcançado quando se olha ao espelho e percebe que falta algum elemento, seja para conferir mais feminilidade ou retirá-la. “Posso fazer uma maquilhagem diferente, colocar mais brilho ou adicionar um cinto”, acrescenta. Não usa sapatos de salto alto, porque não combinam com a sua identidade, mas sente-se mais confiante quando se vê, em simultâneo, com peças que conjuguem os dois universos.

Israel na capa de março da “Playboy” sueca.

Foi desta forma que surgiu na capa da edição sueca da “Playboy”, com um macacão preto que reflete a sua personalidade e voltou a trazer o tema para os media. Muitos artistas continuam a descobrir-se, os artistas heterossexuais começam a usar roupas femininas e a moda genderfluid está cada vez mais presente nos meios de comunicação social.

Apesar disto tudo, Israel confessa que, “com 40 anos, as pessoas ainda me reviram os olhos, mas coloco-me numa posição muito confortável e os mais jovens não têm essa experiência de vida”.

A oportunidade de aparecer na revista de entretenimento erótico surgiu quando o apresentador abordou outro tema pouco falado. Numa fase em que enfrentava problemas num relacionamento, engordou e teve picos de depressão muito fortes. Descobriu que estava na andropausa: “perguntei ‘O que é isso? O homem também tem isso?’. Decidi que ia expor-me, porque ninguém tinha falado sobre o tema nos media. É um tabu. Recebi mensagens de pessoas que não sabiam que existia e perceberam que estavam na andropausa”.

Foi o único muso do Carnaval brasileiro.

Mais recentemente, e graças à sua autenticidade, tornou-se o único muso de todo o Carnaval brasileiro. Inicialmente, pensou em recusar o convite, mas ao perceber que não existia um único homem com essa função nas escolas de samba, decidiu aceitar. A repercussão foi positiva, a experiência foi única e surgiu em vários veículos de comunicação: “não existe idade para fazer sucesso”.

Sobre o futuro, Israel acredita que vamos continuar a ver a sociedade tornar-se mais heterogénea e com as normas de género ainda mais esbatidas. “A moda do século XXI é a moda sem género e, até ao final dessa década, vamos ter uma mistura a acontecer”, afirma, ao recordar as perucas e os saltos altos que os homens usavam no século XVIII.

“Tenho a certeza que estamos a seguir estes passos, que a comunidade LGBTQIA+ vai ser respeitada e que as pessoas vão usar roupas femininas e masculinas sem problema. Já não vejo tantos insultos na rua como via há uns anos. Estamos a ir por um caminho melhor”.

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