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Leyna Bloom: de sem-abrigo à primeira mulher trans na capa da “Sports Illustrated”

Desistiu da academia de dança por não a aceitarem como mulher, mudou-se para Nova Iorque aos 17 anos e hoje é dançarina, modelo e ativista.
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Chegou a Nova Iorque há uma década, apenas com uma mala e um par de dólares. Tinha, como muitos que chegam à grande cidade, um sonho: ser bem-sucedida. O caminho foi difícil, sobretudo pela falta de dinheiro.

“Lembro-me que todos os dias, às cinco da tarde, comia uma fatia de pizza e uma cola. Era assim que sobrevivia: com sonhos e pizzas de um dólar”, recorda à revista “Mic” a modelo e atriz que mudou de vida com apenas 17 anos. “Cheguei lá sem qualquer plano. Por vezes não tinha onde dormir. Dormia no metro, andava para cima e para baixo, com uma mala, de carruagem em carruagem.”

O sofrimento compensou. Hoje Leyna Bloom é uma pioneira: tornou-se na primeira modelo transgénero a ser capa da “Sports Illustrated”, desvendada esta segunda-feira, 19 de julho, — ao lado de Naomi Osaka e Megan Thee Stallion —, feito que junta à primeira aparição de uma mulher de cor trans na “Vogue India”. É também modelo, atriz, dançarina e ativista.

“A minha bisavô era dançarina e professora de dança. A minha tia também dançava, chegou a fazê-lo com Sammy Davis Jr.. O meu primo era um famoso dançarino de sapateado. O meu pai foi modelo, DJ e artista. Era inevitável que acabasse por cumprir a tradição da família”, confessou

Começou a dançar apenas com seis anos, nos corredores de casa, e a bisavô decidiu acolhê-la com sua aluna. Decidiu continuar os estudos numa academia local, em Chicago, chegou a aventurar-se no ballet e eventualmente foi aceite na prestigiada Academia das Artes de Chicago com direito a uma bolsa.

Filha de uma mãe filipina e pai afro-americano, rapidamente percebeu que não era igual aos outros miúdos. Primeiro porque foi criada sozinha pelo pai, depois da mãe ter sido deportada para o país de origem. Mais tarde, porque não se sentia bem no seu corpo.

“Ao crescer, era magra como um palito. Queria ser igual às mulheres que via na televisão e nos filmes. Vi o meu corpo crescer, mudar, moldar-se. Vi-o ficar mais pequeno, maior, mais gordo, mais magro. Adoro tudo isso”, revelou. Durante vários anos escondeu a sua verdadeira identidade.

A transição de sexo foi dura mas teve sempre o apoio do pai. “É o meu super herói. Durante todo o meu período de transição, era ele quem estava sempre lá, quem pagou pelo seguro. Quando viajámos até à Tailândia para as cirurgias, foi ele quem cuidou de mim. Quando acordei, era ele que estava lá a segurar-me na mão.”

A capa

Não só a apoia na profissão e na sua identidade sexual, mas também no papel de ativista. “O meu pai também era um ativista, cresci a ouvir as histórias sobre Malcolm X e os Black Panthers”, conta. “Sou uma sortuda por ter encontrado a minha voz, sendo que durante muitos anos não tive direito a ela.”

O corte radical e a mudança para Nova Iorque aconteceu depois da desistência da Academia das Artes, quando lhe foi negado o pedido para se inscrever como dançarina feminina. “Estava sob pressão, sentia que não era eu própria. Vivia a minha vida para as pessoas que diziam ‘Mas tu és um rapaz.’ E eu pensava que aquilo não era para mim. Sou mulher, sou a princesa, a vida é demasiado curta para ser a pessoa que outros querem que eu seja. Não quero viver escondida.”

Desistiu, pegou no dinheiro, na mala e mudou-se para Nova Iorque. A carreira como modelo arrancou primeiro, embora Bloom só se tenha assumido publicamente depois da transição, em 2014, numa sessão fotográfica conjunta para a capa da “Candy Magazine” que destacava as faces do movimento transgénero. Bloom surgia entre nomes como Laverne Cox ou Geena Rocero.

Apesar de ser ainda uma desconhecida na moda, Bloom era uma estrela na cena dos bailes LGBTQ, eventos onde pessoas trans desfilavam em passereles com roupas coloridas. Tornou-se na figura central da casa Miyake-Mugler e ganhou a alcunha de Princesa Polinésia.

Começou a desfilar nos bailes com apenas 15 anos. “Acolheram-me com todo o coração, deram-me um sítio e uma plataforma para eu desfilar, para eu enfrentar.”

Em 2019, outro marco: tornou-se na primeira mulher transgénero a brilhar como protagonista de um filme no Festival de Cannes. Bloom foi escolhida para contracenar com Fionn Whitehead no novo filme de Danielle Lessovitz, “Port Authority”. Aos 26 anos, estreava-se no cinema num papel que parecia desenhado para si: a história de uma mulher trans, estrela dos bailes, que acolhe um jovem que se apaixona por si.

Bloom foi descoberta pelos responsáveis pelo casting, durante um baile em Filadélfia. “As mulheres trans eram completamente invisíveis na cultura pop, à exceção de programas como ‘Maury’ ou ‘Jerry Springer’. Não quero ser uma ferramenta ou um produto de entretenimento, quero ser respeitada. E quando esta oportunidade surgiu, sabia que tinha que a agarrar.”

Entretanto, já como estrela mundial e porta-voz de muitas outras mulheres transgénero, participou em mais dois filmes e uma série televisiva, além de ser cada vez mais requisitada na passerele. A passagem pela capa da “Sports Illustrated” é só mais um passo rumo à normalização.

“Merecemos este momento: esperámos milhões de anos para surgirmos como sobreviventes e sermos vistos como seres humanos maravilhosos. Sonhei milhões de belos sonhos, mas, para raparigas como eu, a maioria deles são apenas esperanças ambiciosas num mundo que não raras vezes nos apaga e omite da história, da existência”, escreveu na publicação onde partilhou pela primeira vez a sua foto de capa.

Um feito que dedicou a todas as que, como ela, sofreram e ainda sofrem com o estigma. “Deixem-me que seja a mensageira que nos guia até um futuro de respeito e reconhecimento por todas as mulheres de todas as formas e de todas as origens.”

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