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Mafalda Simões. A designer que brilhou no Sangue Novo mantém vivo o labor artesanal

A coleção da jovem no concurso da ModaLisboa mistura tricô e croché, inspirada nas mulheres da sua família. Venceu o prémio principal da noite.

Antes de terminar o primeiro dia de desfiles da 66.ª edição da ModaLisboa, “futuro” era a palavra de ordem na sala principal. Estava na hora do concurso Sangue Novo, através do qual é apresentado a próxima geração de designers nacionais, que brilhou no Pátio da Galé esta sexta-feira, 13 de março.

Apresentadas as coleções dos cinco finalistas, Mafalda Simões sagrou-se a vencedora ao conquistar o Prémio ModaLisboa x IED Istituto Europeo di Design, que inclui um programa de mestrado de um ano (em Fashion Design no IED Roma ou em Fashion Marketing no IED Milano), com início em novembro de 2026, e uma bolsa de quatro mil euros para desenvolver uma coleção.

Já Ariana Orrico foi distinguido com a segundo distinção, menos importante, Prémio ModaLisboa x Burel Factory, com uma residência criativa de um mês na Burel Factory, que inclui apresentação de uma coleção na plataforma Workstation e uma bolsa de mil euros. Selecionados em outubro, Mariana Garcia, Adja Baio, Mafalda e Usual Suspect também se apresentaram ao júri, composto por Miguel Flor, Joana Jorge, Anastasia Bilous, Federico Cina, Federico Poletti e Filipa Homem.

“Sinto-me feliz, mas surpreendida e muito cansada”, começa por afirmar Mafalda Simões, à NiT, explicando o que a levou a participar. “O Sangue Novo era uma forma de experimentar coisas novas e de poder criar. Os prémios são ótimos e dão oportunidades incríveis, mas não era necessariamente esse o objetivo.”

Tal como aconteceu na coleção que apresentou na semifinal, batizada “Daydream”, onde refletia sobre “a transição da infância para a adolescência”, a criadora de 24 anos voltou a usar técnicas artesanais, como o tricô ou o troché, para criar malhas que mostram “o crafting tradicional de maneira contemporânea”.

Agora, a linha “Soft Tissue – Bodies Under Pressure” surge “do reconhecimento de que o corpo humano é, simultaneamente, o material mais vulnerável e o mais resiliente que possuímos”, segundo a criadora. “Não é uma forma fixa, mas um arquivo vivo de pressão: magoa-se, estica-se, adapta-se e carrega à superfície as marcas do tempo.”

Mais do que uma continuação da narrativa que tinha começado em outubro, Mafalda explica-nos que esta é “uma história que nunca vai estar concluída”. “Porque é a minha história. Vai sempre ser continuada enquanto continuar a criar, porque é a história sobre a minha evolução enquanto designer e pessoa”.

Mostrou oito coordenados.

A paixão pelo labor manual

A jovem cresceu com várias mulheres que se dedicavam a trabalhos manuais, fossem os bordados ou a malharia. “Na altura da quarentena, comecei a interessar-me mais por este caminho quando a minha mãe me ofereceu um curso de croché. Como estávamos confinados, decidi começar e nunca mais parei.”

Sentiu logo “uma apreciação maior” por tudo o que é feito à mão, “por aquilo que nos conecta às nossas roupas e à maneira como nos expressamos”, acrescenta. “Senti logo isso pelas peças que fiz para mim. Foi assim que comecei a criar. Depois, lentamente, a fazer trabalhos para a faculdade e, eventualmente, coleções completas.”

Na altura, Mafalda já estava a estudar moda. Natural de Coimbra, licenciou-se em design de moda, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, onde atualmente frequenta o mestrado na mesma área. Pelo caminho, estagiou com a estilista Constança Entrudo e, em 2023, participou e venceu na Mostra Nacional de Jovens Criadores.

“Acho que estou sempre a pensar num próximo projeto”, conta. Assim que foi selecionada como finalista do Sangue Novo, o processo já estava em marcha: “Tenho sempre uma recolha de imagens, de temas e de conceitos que adquiro. Por vezes levam a coleções, por vezes não levam a nada.”

Neste caso, deu origem a algumas das peças que mais a desafiaram. Terminado o desfile, dá como exemplo uma saia feita a partir de um só fio de pele. “Trabalhar um material que é tão estruturado, mas que precisa de ser fluido, para ter movimento e resultar com os pontos, foi muito ambicioso.”

Em termos de tempo, porém, foi o casaco branco que vimos na passarela que “demorou horas e horas”. “Costumo medir [o tempo] por dias e foram precisos cerca de oito dias de trabalho seguidos, sempre a trabalhar entre oito a 11 horas”, confessa.

Orgulhosa com o resultado, Mafalda mantém-se fiel ao objetivo que a trouxe ao Pátio da Galé. “Quero continuar a chamar à atenção para o valor do trabalho manual nas comunidades e deste tipo de tradições”, conclui. “Têm de continuar a evoluir e ser reinterpretados para que possam continuar vivos. Não podemos deixar que caiam em desuso”.

Aproveite e carregue na galeria para ver algumas das imagens do desfile da nova vencedora do SangueNovo.

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