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Moda

Maria Carlos Baptista: a designer de moda que faz Carminho brilhar em todo o lado

Tudo nasceu numa reunião por Zoom que juntou as duas artistas. Seguiu-se uma parceria de sucesso, o Papa e o Coliseu.

Mais de um milhão de pessoas aguardava em silêncio. O primeiro olhar da multidão foi para a roupa de Carminho: as luvas escuras de couro contrastavam com um vestido branco, fluido e com um corte assimétrico. Depois, fez-se ouvir. A 5 de agosto, a cantora entoava uma versão inédita de “Estrela”, durante a Jornada Mundial da Juventude, que deixou o Papa Francisco emocionado.

Só no dia seguinte é que a designer responsável pela peça, Maria Carlos Baptista, viu imagens da atuação. Até então, não sabia sequer que o modelo ia ser usado. “Quando percebi o que estava a acontecer, começo a chorar a ver o vídeo. Não estava planeado, mas foi algo monumental”, conta à NiT.

Antes do evento, a fadista de 39 anos tinha outro look pensado para o momento. Quando percebeu que a cor não funcionava com o cenário envolvente, fez-se valer da segunda opção que tinha colocado na mala, na noite anterior. “Teve um sexto sentido, mas era arriscado porque ia todo de branco.”

A peça nasceu já “na fase final da criação da última coleção”, num momento em que a estilista de 32 anos “estava cansada” no seu ateliê no Porto. O processo, como se tornou habitual, foi de catarse: colocou alguns tecidos em cima da mesa e, com o mínimo possível de cortes, viu o modelo nascer de uma experiência.

Embora mediático, a atuação na JMJ não foi o único ponto alto da relação para a designer. De concertos a eventos sociais, Maria Carlos Baptista e Carminho tornaram-se musa e criadora, duas partes de uma sinergia que tem unido a moda à música. “Há doçura no trabalho das duas”, mas também “um lado severo”.

Carminho durante a atuação na JMJ. (Fotografia: João Lopes Cardoso)

De uma videochamada para o Coliseu

Antes de olhar para Carminho na televisão, a designer viu-a no ecrã do seu computador, através de uma chamada via Zoom. Em novembro de 2020, um mês após ter ganho o Bloom, o concurso para jovens criadores do Portugal Fashion, recebeu o convite para se reunirem.

“Achei que alguém me estava a querer enganar. De repente, vejo-a à minha frente e não acredito”, diz. Alguns dias depois, mostrava-lhe propostas na casa onde costumava ouvir as suas canções. “Já a ouvia na escola quando estava a trabalhar. [A banda sonora] tem a ver com o período pelo qual estou a passar.”

Apesar das restrições da pandemia, a dupla conseguia juntar-se presencialmente. Neste período, Maria mudou-se de Lisboa para o Porto, onde encontra “tempo para respirar e libertar” a criatividade, mas desloca-se a Lisboa para fittings e encontros pontuais. “Tem sido uma ginástica”, mas “é muito compensador”.

O resultado destas viagens culminou no regresso aos palcos, a maio de 2021, no Centro Comercial de Belém. Carminho usava um vestido pintado à mão da coleção “espaço negativo”. Há peças que são mesmo feitas para a artista, mas quando ela gosta de uma criação derivada da marca de Maria, “fazem-se alguns ajustes” e estilista empresta-a.

A designer veste Carminho em palco. (Fotografia: Marta Pelágio)

“Quando vê algo meu, identifica-se muito. Não sei se a intriga ou se gera curiosidade, mas há algo que desperta interesse”, diz. “Percebo na energia dela que se sente mesmo segura. Dou-he várias opções, mas quando sou fiel a mim mesma é quando fica mais confortável — e isso dá-me confiança no meu trabalho.”

Nos dias em que subiu ao Coliseu, a 2 e 3 de novembro, a estilista via-a, a partir da régie, “a mostrar a mulher forte que é”, com a ajuda do seu trabalho. Em palco, Carminho estava toda vestida de preto, com uma peça “muito contemporânea e conceptual, que lhe dá um look disruptivo.”

A nova linguagem da cantora, seja na sonoridade ou na cenografia, nasce também deste equilíbrio entre “o pesar do fado” e uma imagem ousada, marcada por silhuetas rígidas e fluidas, códigos masculinos e femininos, tons escuros e claros. Estas polaridades, que Maria tanto gosta de trabalhar, ganham vida nas transições em palco — e complementam o “jogo de emoções”.

“Com o passar do tempo, percebemos como cada uma trabalha e vou conhecendo-a do ponto de vista pessoal. Atualmente, é mais minha amiga do que outra coisa. Dá-me espaço para criar e, muitas vezes, confia mais em mim do que eu própria.”

Os passos de dança até à passarela

O que a designer não precisou de aprender foi a relação entre o vestuário e o movimento. Vinda do mundo da dança, começou a perceber desde cedo como é que a arte pode vestir um corpo em palco. E, com o apoio dos pais, partiu de Coimbra rumo a Lisboa para estudar na Escola Superior de Dança.

“A música está interligada ao meu trabalho, porque sempre foi a minha maneira de canalizar tudo. Em miúda, comecei a ter aulas de piano e senti muitas melhorias no ballet porque ganhei mais noção de musicalidade”, recorda Maria Carlos Baptista.

No entanto, o sonho que tinha desde miúda foi travado bruscamente por dores de costas intensas que chegaram sem aviso quando tinha 19 anos. Depois de uma visita ao médico, descobriu que tinha uma hérnia. Decorrido um ano, apareceu a segunda.

Prática e combativa, Maria percebeu que nunca poderia dedicar a sua vida a 100 por cento ao bailado e virou-se para outra paixão. Em 2017, começou a estudar design de Moda na Modatex, em Lisboa. Foi através deste curso que teve acesso à plataforma que dá visibilidade a jovens criativos.

Maria Carlos Baptista começou como bailarina.

Para a artista, criar vestuário sempre foi um “processo catártico” e um “extravasar de energias”, embora algo “infantil”. Descobriu cedo a sua fórmula: ou é muito experimental nos cortes, ou cria uma peça mais estruturada, onde uma silhueta feminina nasce de referências na tradicional alfaiataria masculina.

O salto correu tão bem que, além de ganhar o concurso, estreou-se nas passarelas da Semana da Moda de Paris, em fevereiro de 2021. A apresentação performativa foi transmitida gratuitamente através de um vídeo, gravado em Paris, que deu destaque às peças de roupa.

Apesar do sucesso, Maria Carlos Baptista ainda não consegue viver apenas da sua marca e trabalha para a Zeitreel, uma marca da Sonae. Afinal, quais são os obstáculos? “Primeiro, faço tudo sozinha e não tenho como contratar pessoas e formar uma equipa”, explica. “E falta mais acompanhamento. A minha preocupação tem de ser a parte criativa, mas não há apoio financeiro e incentivo a projetos. Quando não tens familiares empreendedores, não há esse know how.”

Em março, a criadora regressa ao Portugal Fashion, para apresentar uma nova coleção. No entanto, sente que precisa “de subir um degrau” e desafiar-se mais. “Faço as minhas vendas, tenho projetos que me aliciam, mas quero focar-me em deixar crescer a minha marca.”

E quer fazê-lo com a mesma intensidade que transporta para o guarda-roupa de Carminho. “Vivo muito os momentos e aprendo com isso, mas desde muito cedo que trabalho a minha identidade visual. Sei que daqui a 10 anos vou estar exatamente igual”, conclui.

A seguir, carregue na galeria para ver algumas imagens da coleção que Maria Carlos Baptista apresentou em Paris, em 2021.

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