O Porto ainda parecia preso ao calor tropical quando os convidados começaram a chegar à antiga Fábrica de Conservas Vasco da Gama, em Matosinhos. Lá fora, a noite continuava abafada, com cerca de 30 graus, e lá dentro os leques tornaram-se quase tão importantes como os convites. Os relógios já marcavam 25 minutos de atraso quando se abriram finalmente as portas da sala onde todos aguardavam uma das apresentações mais esperadas do segundo dia do Portugal Fashion Experience.
Depois de uma primeira jornada mais dedicada à reflexão, à indústria e ao futuro do setor, com o Portugal Fashion Summit na sede da ANJE, levou a moda para fora do formato tradicional. A programação passou por Ílhavo, com a visita à Vista Alegre e as apresentações de David Catalán e Maria Gambina, antes de seguir para Matosinhos, onde o BLOOM Contest, o desfile de E.PATELYE e o showcase da ESAD prepararam o terreno para o grande encerramento da noite: Marques’Almeida.
Às 22h30, cerca de trinta minutos depois da hora marcada, a fábrica deixou de ser apenas memória industrial e transformou-se numa passarela crua, quente e cinematográfica. Entre paredes marcadas pelo tempo, graffiti, luz vermelha e chão de betão, começaram a desfilar figuras femininas de presença quase teatral. O desfile durou menos de 15 minutos, mas passou a voar. A cada nova entrada, a sala parecia inclinar-se mais um pouco para a frente.
Marta Marques e Paulo Almeida trouxeram ao Portugal Fashion uma coleção que confirma a fase mais madura da marca, sem abdicar da irreverência que a tornou reconhecível desde o início. Havia elegância, sim, mas atravessada por rebeldia. Havia brilho, mas nunca domesticado. Havia transparências, plumas, franjas, brocados florais, ganga desbotada e desfiada, volumes exagerados, peças estruturadas, silhuetas com peplum, calças largas, botas pesadas e acessórios de cabeça que acrescentavam uma dimensão quase carnavalesca, mas sem perder sofisticação.

Uma das primeiras imagens a prender a atenção foi a de uma modelo vestida em tons claros, com casaco brilhante e uma peça de cabeça alta, coberta por plumas. Pouco depois, surgiram casacos curtos com golas volumosas, coordenados em verde com cortes utilitários, vestidos amplos que pareciam ganhar vida própria ao atravessar a sala e propostas em preto vinil, contrastadas com plumas azuladas. A coleção jogou constantemente com essa tensão entre dureza e delicadeza: o pesado e o leve, o grunge e o glamoroso, o corpo exposto e a peça-armadura.
A dupla assume esta coleção “ligeiramente mais madura, mais elegante”, uma transformação que também acompanha a evolução do mercado internacional. Ainda assim, há sempre “um pouco de grunge e rebeldia”, porque essa é a essência da marca. Essa dualidade esteve presente em quase todos os coordenados: nos vestidos de festa com transparências e aplicações, nas peças de ganga com acabamento cru, nos brocados florais que surgiam com atitude urbana e nas silhuetas dramáticas que pareciam feitas para ocupar espaço.
Marta Marques, natural do Porto, e Paulo Almeida, natural de Viseu, fundaram a marca em 2011. Depois da passagem pela Central Saint Martins, em Londres, a dupla de 39 anos construiu uma linguagem própria a partir da ganga desconstruída, das bainhas inacabadas e de uma ideia de luxo menos polida e mais instintiva. A marca venceu o LVMH Prize for Young Fashion Designers em 2015, recebeu distinções do British Fashion Council e ganhou projeção internacional, vestindo nomes como Beyoncé, Rihanna, Dua Lipa e Sarah Jessica Parker.
Apesar dessa dimensão global, a ligação a Portugal continua central. A produção mantém-se no País, sobretudo nas fábricas têxteis do Norte, e a relação com o Portugal Fashion tem-se tornado cada vez mais próxima. Para Marta e Paulo, o desfile não serve apenas para mostrar roupa: é também uma forma de criar uma experiência e contar o contexto da marca.
Foi precisamente isso que aconteceu em Matosinhos. Quando todas as propostas voltaram a atravessar a sala na apresentação final, a fábrica encheu-se de aplausos, gritos e uma ovação que cresceu até à entrada da dupla. Marta Marques e Paulo Almeida apareceram sorridentes, visivelmente satisfeitos, recebidos por um público que lhes devolveu em entusiasmo aquilo que o desfile tinha acabado de entregar em intensidade.
O Portugal Fashion Experience segue esta sexta-feira, 3 de julho, no M-ODU, no Porto, com apresentação da AHCOR e desfiles de Veehana, Pé de Chumbo, Ernest W. Baker, Hugo Costa, Nopin e Miguel Vieira.
Carregue na galeria para rever os melhores momentos da coleção de Marques’Almeida.








