Moda

ModaLisboa: Nuno Gama apresentou um desfile sem coleção — e foi um sucesso

Numa edição peculiar devido à conjetura atual, o desfile de um dos maiores estilistas portugueses foi igualmente original.
O aplauso final.

“Dado o momento, esta edição, não se justifica apresentarmos coleção”, lia-se na introdução do desfile de Nuno Gama. O estilista que chegou este sábado, 10 de outubro, à ModaLisboa abraçou a conjetura atual e trouxe a esta edição peculiar, um espetáculo original, e sobretudo incrível.

Eram 18h05 quando todos os seus modelos entraram no Miradouro do Parque Eduardo VII em fila. Se a frase de apresentação do desfile já nos tinha deixado curiosos, esta entrada em jeito de final aumentava mais a expetativa.

Os modelos estavam despidos, trazendo apenas boxers pretos. Porém, um elemento destacava-se. Uma figura masculina, mas quase não humana e toda de branco, entrou na água da fonte que se encontra naquele espaço que alberga a melhor vista da cidade.

O homem branco, de boxers e pintado do peito até toda a cabeça, dançava ao som da música que tocava. Uma batida forte, um som quase transcendente. Mas apesar dos seus movimentos, muitas vezes lembrando as tão aclamadas danças de Joaquin Phoenix em “Joker”, o foco não era ele.

O manequim que liderava a fila levava um casaco, segurando-o como se de um tesouro se tratasse. Vestiu-o, ajeitou-o, até o modelo atrás de si o tirar e vestir ele próprio. O processo repetiu-se até ao final da fila.

O último tirou o tesouro a si próprio e segurou-o com as mãos. Todos entraram dentro de água e circularam, hirtos, olhos fixos no horizonte. Por fim, a figura quase divina vestiu finalmente esta que foi a única peça de todo o desfile.

“Na nobreza da herança que nos distingue, reencontramos fronteiras da essência da nossa alma, que ponto por ponto, bordámos a fio de ouro, entrelaçados numa introspeção, rezada, num casaco único, que não repetiremos, numa carta de amor a Portugal”, é assim que o estilista descreve a peça. Medalhas no colarinho, entrançados e a palavra Portugal, tudo dourado numa tela azul — cor a que Nuno Gama já tanto nos habituou.

Foi, aliás, no azul — o da Arrábida — que o estilista se inspirou na última edição da ModaLisboa, em março deste ano. A coleção era um grito contra às dragagens do Sado. “Dragarem o Sado é como se estivessem a dragar-me a mim. O que está a acontecer em Setúbal leva-me de volta à minha infância. Lembro-me da primeira vez que vi fazerem aquilo, levaram a areia da praia, os cavalos marinhos, vários peixes”, contava à NiT nos bastidores.

Como começou a carreira de Nuno Gama?

Nuno Gama nasceu a 22 de abril de 1966 e viveu até à adolescência em Azeitão. Nessa altura, mudou-se para o Porto com o objetivo de fazer o curso de moda no Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, mais conhecido por CITEX. Concluiu os estudos em 1991, data em que criou a sua primeira empresa: Nuno Gama Têxtil.

Ainda nesse ano, o criador apresentou a sua primeira coleção na ModaLisboa. Dois anos mais tarde, em 1993, ganhou o concurso para a criação das fardas dos funcionários dos museus portugueses — prémio que lhe deu algum nome. Seguiram-se as presenças em mais eventos nacionais (inclusive o Portugal Fashion) e em feiras pelo mundo, como a Nouvel Espace, em Paris, ou Gaudí, em Barcelona.

Em 1996, abriu em Lisboa a primeira de nove lojas. Hoje, vende para todo o mundo: Estados Unidos, Japão, China e Angola, por exemplo. No mesmo ano ganhou um Globo de Ouro, na categoria de Personalidade do Ano, e a 9 de junho de 2015 foi reconhecido como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2016, completou 50 anos e assinalou a data com a 50.ª coleção. A NiT aproveitou a celebração para entrevistar o sobrinho do escritor Sebastião da Gama, que até nos confidenciou que, se não fosse estilista, teria sido cozinheiro.

Recorde a entrevista e carregue na imagem para ver o desfile surpreendente de Nuno Gama, com dança interpretada por Bruno Pardo e coreografada por Olga Roriz.

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