Moda

Modelo foi detida num aeroporto em Itália por ser negra: “Estou traumatizada”

Kukua Williams relatou a experiência numa carta comovente dirigida à indústria da moda.
Tem 24 anos.

“Todas as modelos negras têm o seu ponto de rutura.” As palavras fortes são da britânica Kukua Williams, de 24 anos, que ao longo da carreira trabalhou com casas de luxo como a Celine, Versace, Erdem ou Jil Sander. A 7 de março deste ano, foi detida num aeroporto italiano durante a Semana da Moda de Milão por causa da cor da sua pele.

Durante as 24 horas angustiantes que passou em detenção, a modelo negra partilhou um post no Instagram que se tornou viral. Nele, pode ver-se a sua cara exausta, o cabelo desalinhado e as olheiras profundas da falta de sono. “À medida que a indústria se torna mais inclusiva, temos de ter mais apoio para quando, como modelos negras, nos encontramos nestas situações traumáticas”, escreveu na descrição.

A caixa de comentários encheu-se de apoio vindo de desconhecidos, mas também de colegas de profissão que viveram episódios semelhantes — foram as evidências inquestionáveis de que este não se tratou de um caso isolado. Williams, de 24 anos, chamou a atenção de muita gente e pôs os media a falar do assunto. No final de abril, escreveu a convite da “Vogue” britânica uma carta aberta comovente à indústria da moda que está a ser partilhada em todo o mundo.

Nela, relata em primeira mão o que se passou naquele dia e reforça as mudanças que são necessárias na indústria da moda — e fora dela — para acabar de vez com o racismo.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Kukua (@kukuawilliams)

“Experienciei o racismo pela primeira vez na indústria da moda pouco depois de começar a trabalhar como modelo. Estava num trabalho com outra modelo que não era negra. Enquanto a equipa se referia a ela pelo nome, eu era a ‘miúda preta’. Naquele momento, comecei a questionar o meu valor: seria o meu único propósito preencher a quota de diversidade?”, começa o texto.

Para ela, todas as modelos negras têm um ponto de rutura, quer seja pelos seus cabelos serem constantemente tratados de forma incorreta, a polícia pará-las a caminho dos castings ou ouvirem os seus nomes a ser mal pronunciados vezes sem conta. No seu caso, foi mesmo durante a Semana da Moda de Milão, quando a detiveram no aeroporto “sem motivo aparente”.

“Enquanto isto pode parecer chocante para alguns, estas situações podem ser uma normalidade para as modelos negras”, continua. Chegou ao aeroporto preparada para os seus documentos serem examinados com atenção e também para que a questionassem sobre o motivo por que estava a viajar durante a pandemia, mas não estava à espera que a sua entrada em Itália fosse negada por causa da cor da sua pele. “Os meus documentos estavam em ordem e as modelos não-negras da minha agência tinham feito o mesmo percurso nos dias anteriores sem qualquer problema.”

Durante as 24 horas em que esteve detida, disseram-lhe que ninguém do Reino Unido poderia entrar em Itália a menos que fosse um cidadão italiano. As autoridades daquele país recusaram-se mesmo a ler a carta que fora escrita pela sua agência, a mesma que todas as modelos tinham levado, e disseram-lhe que os castings não eram um motivo bom o suficiente para entrar em Itália.

“Restringiram o uso do meu telemóvel e confiscaram-me o passaporte. No dia seguinte, levaram-me num carro de polícia a um avião que me traria de volta a Inglaterra, como se fosse uma criminosa. A experiência deixou-me traumatizada”, relata. “Nenhum orgulho se perde em abordar o racismo de frente. Tanto mais pode ser alcançado nos bastidores para aprender sobre a descriminação que as modelos negras enfrentam se simplesmente nos perguntarem — mas encontrar a solução não é uma responsabilidade nossa”, continua.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Kukua (@kukuawilliams)

Num momento em que a indústria da moda se começa a tornar mais inclusiva (pelo menos à frente das lentes), esta progressão tem as suas limitações. A descriminação racial está por em todo o lado, segundo Williams, e isso significa que o mundo não é um lugar seguro para as pessoas de cor. “Não sou a única que, ao percorrer um aeroporto, tem um medo inerente de ser parada, revistada ou detida.”

No seu relato, a modelo britânica diz que é necessário haver uma maior transparência à volta dos problemas do racismo. Quando ele é abordado por pessoas de cor, estas são muitas vezes acusadas de tornar todos os assuntos raciais ou de usar a “carta da raça”, uma expressão que se refere à tentativa de usar o preconceito dos outros como uma arma para se vitimizar,  influenciando as decisões. Como se fosse um trunfo num baralho de cartas.

Para ela, este termo é uma ferramenta usada por pessoas ignorantes para revirarem os olhos e desvalorizarem as situações. “Eu não acordo de manhã com o objetivo de ser sujeitada ao racismo — é o que acontece naturalmente quando a indústria em que trabalho requere que entre no mundo real, e no mundo real não tenho proteção”, explica.

O que aconteceu naquele dia não foi “má sorte” e Kukua Williams não deveria ter de se tornar viral nas redes sociais para que o mundo o reconheça. “As modelos negras não deviam ter medo de falar sobre estas experiências por recearem que isso prejudique as suas oportunidades de trabalho futuras. Temos de poder dizer: ‘Eu fui tratada desta maneira por causa da minha etnia e da cor da minha pele.’ Pode ser desconfortável, mas permite o progresso”, reforça.

“A minha raça é algo que amo, acolho e de que tenho orgulho; não é algo que deveria ter de justificar. Há uma grande necessidade de solidariedade a nível global. Pessoas que não são de cor, dentro e fora da indústria da moda, — chegou a vossa vez de lutarem por nós.”

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Kukua (@kukuawilliams)

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT