Moda

New Talent: Molly, a estilista que leva as suas criações irreverentes para os palcos

As peças são usadas por artistas durante os concertos. Conheça Maria Gomes, uma das finalistas do New Talent.
Maria mora e trabalha em Alcanena

Ao fim de um ano e meio de aulas no curso de Belas Artes, Maria Gomes percebeu que aquele não poderia ser o seu futuro. Mas no momento em que queria descobrir qual era o seu grande sonho e o seu verdadeiro talento, restavam apenas pontos de interrogação. “Na altura, fiz uma introspeção, analisei o que tinha feito até então e que fosse constante na minha vida”, recorda a jovem de 24 anos. “A moda foi a única coisa que me veio à cabeça.”

Deixou Lisboa, rumou à Covilhã e, hoje, a aposta parece ter sido mais acertada do que nunca. Conhecida como Molly 98, a jovem designer de moda integra o lote de dez finalistas da quarta edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que elege os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

O bilhete de identidade diz que nasceu nas Caldas da Rainha, mas as suas memórias vão quase todas dar a Alcanena, onde cresceu ao lado dos pais e onde ainda hoje mora e trabalha. “É uma aldeia daquelas com ovelhas e cabras. Cresci aqui, saí para estudar e voltei, porque é onde tenho mais condições para trabalhar”, confessa.

Foi por lá, nos primeiros anos de escola, que começou a desenhar roupa para as suas bonecas. Depois fez roupas para si e, eventualmente, para as amigas. “Era apenas curiosidade”, explica sobre o interesse que a motivou a seguir artes visuais já no escola secundária.

A costura não era arte ou ofício de família. A máquina de costura da mãe era usada apenas para casos de necessidade, o remendo ocasional. Curiosa, começou a observar como se manuseava a máquina e acabou por tentar pelas suas próprias mãos.

“Comecei a criar por necessidade de querer ter roupa muito específica e especial, mas que não encontrava. Via algo na escola, queria e em vez de ir comprar, via o que tinha em casa e fazia. A minha mãe também sempre foi uma pessoa de fazer as coisas pelas suas próprias mãos”, conta. “Sempre fiz roupa, mas nunca associei isso a uma potencial carreira profissional.”

Criava e personalizava saias, tops, sapatos. Aprendeu tudo sozinha, com a ajuda da Internet e de horas de tentativa e erro. A vida na aldeia, longe dos centros urbanos “limitou a visão maior em termos de moda”. “Nunca tive à minha volta pessoas muito fashion forward, mas também nunca liguei a marcas, não pedia aos meus pais isto e aquilo.”

Já entre colegas de artes, no secundário, sentiu-se em casa. “Houve um clique maior, elogiavam-me as malas, as calças personalizadas, queriam saber onde as comprava”, recorda. Foi a forma de, pela primeira vez, tirar rendimento do hobby que, sem querer, abarcava também o caro conceito da sustentabilidade.

“Já era uma realidade para mim, apesar de não ter essa noção”, conta. “O que eu fazia já era sustentável, já usava tecidos baratos, em segunda-mão, os restos de roupa. Eventualmente percebi que podia usar isso como veículo de trabalho.”

As ideias vinham de todo o lado, das “imensas” revistas de moda que tinha em casa até, por vezes, de um simples tecido. Um dia, agarrou num com bandeiras dos Estados Unidos “que estavam na moda” e fez um tote bag. Foi um sucesso.

Apesar de já ser evidente a queda para o design de moda, para Maria, tudo isso não passava de um mero passatempo Perante a inevitável escolha do curso, acabou por decidir mudar-se para Lisboa, para entrar em Belas Artes.

“O curso não era para mim, apesar de o adorar. Não era a minha vocação.” Parou, falou com pais, amigos e quis tentar perceber o que é que realmente a poderia fazer feliz. “Eu sabia que não estava bem, só não sabia para onde me mudar.”

Entreteve a ideia de mudar para arquitetura durante algum tempo, até que percebeu que teria que fazer mais um exame de admissão. Acabou por apontar à Covilhã, ao curso de Design de Moda. “Se resultasse, resultava…”, pensou.

O processo de transformação do hobby numa paixão total foi mais complicado do que julgava. Os primeiros anos foram feitos com pouco entusiasmo, apesar de ter investido em mais aulas de formação, que fazia durante as noites. Aos poucos, continuou a imaginar as suas criações, os elogios dos amigos foram motivando Maria a exibir as suas obras no Instagram.

Hoje, é através da rede social que chegam as grandes propostas de trabalho. A página de Molly98 está também a cargo da irmã mais nova. “Uma espécie de assistente pessoal (risos)”, confessa Maria, que conta também com o apoio da outra irmã, mais velha, que vai dando umas dicas da sua especialidade, o marketing.

Curiosamente, a primeira grande oportunidade de mostrar o seu trabalho aconteceu na sequência de um concerto em Lisboa. Foi até à capital em 2019 para ver os The Underachievers, um grupo de hip-hop norte-americano. Na mão, levava um dos seus curiosos anéis originais, feitos com cabeças de bonecas Barbie. “Decidi dar o anel ao cantor, atirei-o para o palco, ele gostou e no final veio falar comigo. Ele tem uma linha de joalharia, colocou fotografias no Instagram e identificou-me”, conta.

Quando deu por si, tinha aberto uma nova janela de negócio, a vestir artistas, nacionais e internacionais. “Consegui bons contactos e muitas vezes abordam-me para pedir se gostava de os vestir”, conta. “A roupa é sempre personalizada, conversamos sobre o conceito, o estilo pessoal e depois faço.”

Hoje, é uma das jovens criadoras no concurso Sangue Novo, da ModaLisboa, e sabe perfeitamente aquilo que quer para o futuro. Depois de Lisboa e Covilhã, regresso à sua aldeia, onde tem o seu estúdio.

“Felizmente, os meus pais têm um anexo e deram-me toda a liberdade para fazer ali o meu estúdio. Tenho noção do privilégio que tenho por viver aqui e ter este espaço, muito mais do que teria se estivesse na Covilhã ou em Lisboa”, conta. “Aqui posso ter as mesas grandes, as minhas máquinas. Estou a construir o estúdio aos bocadinhos.”

Consegue viver apenas do trabalho na moda, que tem sido também destacado em várias revistas nacionais e internacionais, sobretudo graças a outros estilistas, que alugam e pedem emprestadas várias peças suas para usar em editoriais.

Isso não significa, contudo, que o prémio de dez mil euros não venha mesmo a calhar. Enquanto está a trabalhar no seu site oficial para exibir o seu trabalho, Maria, ou Molly, afirma que gostaria de usar o prémio para “comprar uma máquina de costura industrial”. “Preciso dessa alta qualidade, iria melhorar em muito a qualidade do meu trabalho. Depois, claro, teria que pensar se deveria investir na minha educação, indo para o estrangeiro e trazer uma boa carga de conhecimento.”

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