A resposta à pergunta que dá nome à nova coleção de Nuno Baltazar — “I do! Do You?” — só veio no final da apresentação. Uma a uma, todas as modelos que até então desfilaram na passarela, com coordenados nupciais, juntam-se à frente de quatro microfones para dizer apenas quatro palavras: não posso e não quero.
“Algumas disseram que sim”, corrige-nos o criador português após a mais recente apresentação na ModaLisboa, que aconteceu este domingo, 15 de março, no Pátio da Galé. Uma parte da sua primeira coleção “Bridal” é uma extensão da marca que lançou no início do ano passado, em rutura com os cânones tradicionais da moda associada às noivas.
Tal como as modelos, esta coleção também começou com uma dúvida. “Estava praticamente feita, mas não sabia se a queria apresentar. Não achava que fosse para ser introduzida num desfile”, conta à NiT. “Acho que tinha a ver com o facto de não ter um cunho tão pessoal, uma história. Porque o universo bridal é sempre feliz e nem sempre tem de ser.”
Através das sua marca, Nuno Baltazar lida todos os dias com noivas que têm “muitos momentos de dúvida, de angústia e de insegurança”.
Como o próprio diz: “Isso faz parte do processo, só que normalmente não se mostra. Gosto de trazer essas camadas que não estão tão visíveis para o meu trabalho”.
A passarela estava decorada com oito anéis de luz. Com precisão cirúrgica, todas as modelos (ou noivas, se preferir) seguiram a mesma coreografia: desfilavam lentamente, parando apenas nestes pontos focais um de cada vez. Um ritual que se manteve até ao momento da revelação no final do desfile.
Não se trata de uma noiva-tipo, mas de várias personagens, muitas delas inspiradas em coleções anteriores. De Mrs. Dalloway ao filme “The Hours”, todas as referências que Baltazar usou ao longo dos últimos 20 anos nas passarelas.
“Pensei em emoções não palpáveis. O que é o amor? Como é que se materializa o amor ou a angústia?”, questiona. “Tudo faz parte de um processo sensorial muito importante: o toque, o tecido e o comportamento do tecido não são coisas evidentes.”
As últimas peças, embora mais transparentes, contavam com rendas mais abertas. Eram também mais estruturadas do que as que vimos inicialmente. “Advém de um certo momento empoderamento. Primeiro, começa a ter uma certa suavidade e vai ganhando mais densidade e poder.”

Também não é a primeira vez que vemos modelos com os rostos cobertos e isso não é por acaso. “Por muito bonito que seja, um casamento pode anular completamente a personalidade da pessoa que o veste”, explica-nos o designer, esclarecendo que estas máscaras surgiam precisamente nas peças mais consensuais, tornando-as mais disruptivas.
Apesar desta aposta, Nuno confessa que o desenvolvimento da marca nupcial tem sido lento. “Atravessamos um momento difícil em Portugal em que não há mão de obra especializada. Proponho-me a fazer aquilo que tenho capacidade de fazer efetivamente, porque a grande vaga de pessoas que sabiam construir bem estas peças são pessoas que estão com uma certa idade e a reformarem-se”.
De facto, são criações que levam horas e horas de trabalho. Mesmo as que fazem parte de uma coleção e, por não incluírem fittings, são mais rápidas. Algumas demoraram cerca de 15 dias a ficarem concluídas, entre moldes e protótipos.
Quando questionado se vai voltar a trazer as noivas para o formato de desfile, o criador hesita. “Acho que não. Sentiria que isso ia ser um pouco repetitivo, acima de tudo”, conclui, após revelar que esta ideia foi, na verdade, um desafio lançado pela ModaLisboa. “Se fizer sentido, não vou fechar a porta.”
Uma carreira meteórica
Formado em Design de Moda pelo Citex, em 1998, Nuno Baltazar venceu vários prémios ao longo do seu percurso académico, como o de Jovens Criadores da Revista Máxima, em 1995 e 1996 e Porto Moda, em 1997. Estreou-se no Portugal Fashion em 1997, numa dupla com Paulo Cravo. Foi também com ele que, em 1999, iniciou apresentações regulares de coleções na ModaLisboa.
A partir de 2004, Nuno Baltazar passou a assinar apenas com o seu nome e, nesse mesmo ano, fez a sua estreia individual no Portugal Fashion, numa edição realizada no Funchal. Em maio de 2005, inaugurou a sua primeira loja no Porto, como extensão do seu trabalho de atelier, onde estão disponíveis as suas coleções de pronto-a-vestir.
Colaborou com personalidades como Carminho, a maestrina Joana Carneiro, Catarina Furtado, Dalila Carmo, Custódia Gallego, Maria João Luís, Raquel Strada e Victória Guerra. Ao mesmo tempo, o seu gabinete criativo desenvolveu vários projetos de fardamentos, como para a EDP, Casino da Póvoa do Varzim e Hotéis IBIS.
Foi nomeado para os Globos de Ouro como Melhor Designer em 2008, 2010 e 2013, ano em que venceu nesta categoria. Em 2015, aos 39 anos recebeu a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2020, regressou às apresentações de coleções de moda de autor.
A seguir, carregue na galeria para ver imagens do desfile de Nuno Baltazar na ModaLisboa

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