Moda

“Nunca fui cópia de ninguém.” Fátima Lopes, a irreverente, comemora 30 anos de carreira

A designer foi uma das pioneiras da moda em Portugal e consolidou o seu nome em Paris. Três décadas depois, continua a ser aclamada.
Foi a primeira portuguesa a apresentar-se em Paris.

Fátima Lopes é um dos nomes mais sonantes da moda nacional e internacional. Na fronteira temporal que divide um Portugal que carecia de uma cultura de moda e o desenvolvimento da indústria, começa o percurso da acarinhada estilista. Entre outros nomes, como Ana Salazar, foi capaz de levar o vestuário português mais além, não só a nível geográfico — já que passou por quatro continentes —, mas também pelos conceitos originais que apresentava a cada estação.

Natural da ilha da Madeira, mudou-se para a capital com a missão de se dar a conhecer ao mundo. Em 1992, há trinta anos, abriu a primeira loja, a “Versus”. Mais tarde, lançou a marca homónima e os obstáculos que foi encontrando pelo caminho nunca a fizeram abrandar. Inaugurou o seu primeiro ponto de venda internacional em Paris, em 1993, e três anos depois tornou-se na primeira designer de moda portuguesa a apresentar na célebre Paris Fashion Week, onde se tornou uma presença habitual.

Da icónica apresentação no topo da Torre Eiffel ao dia em que desfilou com o biquíni de ouro e diamantes mais caro do mundo, avaliado num milhão de euros, Fátima Lopes foi somando conquistas e um reconhecimento que não desvanece. Além do vestuário, lançou coleções de joalharia, óculos e até instrumentos de escrita. A sua marca também se estende a propostas requintadas de porcelanas, cristais, têxteis-lar e azulejos. Em 2005, passou a criar os fatos oficiais para a seleção nacional de futebol.

Em conversa com a NiT, a designer recordou o seu percurso de três décadas na competitiva e exigente indústria da moda. No sábado, dia 23 de setembro, acontece um desfile comemorativo com parte do espólio museológico da marca no alinhamento. A nova coleção, que objetiva a teatralidade, a sensualidade e irreverência tão características da estilista dá o mote para o espetáculo.

Soma três décadas de carreira. Como é que recorda a sua entrada na indústria da moda?
Comecei em 1992, numa altura em que Portugal não tinha a mínima cultura de moda. Um criador de moda era quase uma ave rara. Na altura, o que era considerado bom era o que vinha de Paris, e o português era apenas indústria. Havia um nicho de mercado com uma grande sede de moda e foi para esse grupo que comecei a trabalhar. Começava a crescer em Portugal uma comunidade artística que procurava a diferença, e eu nasci nesse meio, a remar contra a maré. Na moda, foi mesmo uma revolução. Desde o meu primeiro desfile, no convento do Beato, em 1992, procurei sempre algo fora do normal. Estava cheio e, nesse dia, nasceu a marca Fátima Lopes.

Sentia-se incompreendida?
Quando comecei, as pessoas olhavam para mim e amavam ou odiavam. Muitas, diziam que não era roupa para vestir. A maior dificuldade tinha a ver com o facto de nenhuma indústria em Portugal entender o que era um criador de moda. E, no geral, continua assim. A indústria portuguesa quer trabalhar para as grandes marcas internacionais e fazer milhares de peças por modelo. Quando aparece uma miúda que quer fazer coisas completamente diferentes, e em pequenas séries, nem sequer davam resposta. Isso obrigou-me a abrir um atelier, uma pequena fábrica — algo que não devia ter feito, porque um designer de moda não cria de forma industrial. Nós temos uma indústria muito capaz, apenas não queriam confecionar. Além disso, vinha de fora [da Madeira] e até dizia que era estrangeira, porque não conhecia ninguém. Mas cada dificuldade deu-me mais garra.

Deu os primeiros passos em Portugal, mas fez-se notar em Paris. O que é que tornava a capital francesa tão atrativa?
Eu sonhava com a moda. Vim para a capital, abri uma concept store e ia buscar marcas de todo o tipo de produtos. Viajei durante dois anos entre Paris, Milão e Londres, para comprar coisas. Nessa altura, comecei a perceber que Lisboa podia ser maravilhosa, mas queria mais. Paris era a principal capital da moda e toda a gente me dizia que era impossível lá chegar. Em março de 1999, na véspera do calendário oficial, fiz o primeiro desfile e tive uma sala cheia de gente. O impossível tornou-se realidade e comecei a ser mais respeitada em Portugal, que valorizava mais o que vinha de fora.

Foi a primeira designer portuguesa a conseguir esse feito. Como é que preparou o desfile? O desfile teve, pela primeira vez na história, uma passarela de água com 15 centímetros de altura. As modelos desfilavam por lá e, desde então, muitos outros designers fizeram o mesmo. Ao longo do meu percurso, acumulo muitas coisas em que fui pioneira. Eu era a portuguesa que ninguém conhecia e era o meu primeiro desfile em Paris. Tinha de fazer algo único. Não tendo as mesmas armas que as grandes marcas de moda, precisava de ser mais criativa e original. Nem sabia se ia ter alguém a assistir e, do nada, tinha 500 pessoas na plateia.

Na altura, o objetivo era ser considerada visionária ou procurava apenas expressar a sua criatividade?
A minha ambição era ser feliz. Fazia aquilo que gostava, nunca fiz planos a longo prazo e nunca tentei ser a primeira. Precisei de arranjar outro tipo de armas, não financeiras, porque não as tinha. Felizmente, em Paris, a semana da moda tem muitos jornalistas especializados e respeitam a diferença e originalidade. É esse o significado da palavra criador. E, desde o primeiro dia, fui reconhecida como tal. Nunca fui cópia de ninguém. Uma vez, fiz um desfile em que o tema era o Pólo Norte. Meti neve artificial no chão, luzes led na parede e um cenário muito bonito. Passados dois dias, foi o desfile da Chanel e tinha icebergs vindos da Islândia. Não tinha medo de competir. Também fui a primeira criadora de moda no mundo a desfilar no cimo da Torre Eiffel. Tinha de ter sempre grandes ideias para estar ao nível dos milionários.

Como é que olha para a moda dos anos 90 em comparação com os dias de hoje?
Digo que há uma Fátima Lopes antes de Paris, e outra depois de Paris. A minha forma de ver a moda mudou, a época também mudou. Quando comecei em Paris, a imagem que havia em Portugal era da emigrante em França. Lá, achavam que era uma exceção e chegaram até a perguntar-me se havia outras portuguesas como eu. Não acreditavam que era portuguesa. Acompanhei o antes e depois, e a transição com a súbita descoberta de Portugal e o deslumbre que desenvolveram pelo nosso País. Agora, todos os franceses querem vir para cá.

Considera-se saudosista? Revisita o passado com frequência?
Nada. Sou aquela pessoa que está sempre a olhar para a frente. Acabo uma coleção e passo logo para a próxima. Gosto de recordar o passado e divirto-me quando me lembro de histórias que davam para escrever vários livros. Já desfilei em quatro continentes. São aventuras que guardo, não com saudosismo, mas com divertimento. Há muita gente que faz parte da minha história, aliás, ainda trabalho com uma costureira que está comigo desde o primeiro dia, há trinta anos. A maquilhadora Antónia Rosa também faz parte da equipa desde o início. É positivo lembrar as coisas boas.

Uma das criações mais icónicas da sua carreira foi o biquíni de diamantes. Como surgiu a ideia?
Foi muito importante [para mim]. Era o terceiro desfile em Paris e foi um desafio, porque tinha de ser completamente diferente dos anteriores. A minha equipa na altura, disse-me para desfilar como manequim. Nunca nenhum criador o tinha feito. Respondi, a brincar, que só o fazia se fosse vestida de diamantes. Tínhamos um grande amigo que tinha uma empresa de diamantes. Como era verão, decidimos fazer um biquíni. Quando lhe liguei, ele respondeu: “consider it done”. E foi aí que percebi que aquilo tinha ficado sério. Naquela altura, há 22 anos, não existiam redes sociais, mas foi uma bomba. Desenhei o biquíni um pouco maior e, quando vi a peça minúscula, já não tinha como voltar atrás. Foi notícia no mundo inteiro, e nem toda a gente entendeu. E, a partir disso, criei uma coleção de joias e aproveitei a publicidade.

A sensualidade e a elegância são traços que sempre a distinguiram, mas a identidade da marca foi variando ao longo dos anos.
Tive umas fases em que as peças se pautaram mais pela sofisticação. No início, fui muito irreverente, típico da idade, e a sensualidade também tem a ver com o facto de ser natural de uma ilha com muito sol. Além disso, nunca olhei para o corpo como um tabu. Não tem que ser escondido. As minhas linhas são sempre muito geométricas e gráficas. É o meu estilo. E muito feminino, com os decotes, as transparências, as rachas. Os desfiles são mais espetáculo, mas fiz alguns mais virados para o lado comercial. Nos últimos anos, apresentei coleções sempre sofisticadas, mas mais comerciais. O desfile deste ano vai primar mais pelo espetáculo.

Que retrospetiva faz destas três décadas?
Só tenho a agradecer. Ao longo destes anos, tive momentos muito importantes. Todas as pessoas que passaram pela minha vida, todos os prémios que me foram atribuídos. Os momentos mais importantes da minha carreira estão na minha parede.

Carregue na galeria para ver mais imagens marcantes na carreira da estilista, incluindo o célebre biquíni de diamantes.

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