“O prêt-à-porter nunca poderá substituir um vestido feito à medida”, afirma Nuno Abrantes em conversa com a NiT. Após dois anos em Londres, ao voltar a Portugal, percebeu que a moda nupcial aqui precisava evoluir. O mercado estava saturado com marcas espanholas e, nos ateliers nacionais, faltava uma visão contemporânea.
Estávamos em plena pandemia quando o designer, de 37 anos, decidiu arriscar e lançar a sua marca para noivas. Apesar dos cancelamentos das cerimónias, sente que foi uma fase positiva. “Deu para me organizar, montar o atelier com calma e ver com que pessoas queria trabalhar”, recorda à NiT.
Das passadeiras vermelhas ao altar, Nuno defende o regresso da criação de moda por medida — adaptada aos tempos que vivemos. Graças à sua estética clean e minimalista, “que ainda faltava em Portugal”, tornou-se procurado por várias figuras públicas para grandes eventos e, claro, para o dia mais especial das suas vidas.
Em julho, foi responsável pelo modelo usado pela atriz Isabela Valadeiro no enlace com Carlos Ferra, em Arraiolos. A peça destacou-se pela parte superior em corpete, que expunha as clavículas e valorizava a silhueta da noiva, enquanto a parte inferior contava com uma cauda volumosa e extravagante.
Inspirou-se nas silhuetas dos anos 50, nomeadamente de Christian Dior, e nas mantas alentejanas transformadas em bordados discretos. Ao mesmo tempo, tentou que estas inspirações refletissem o seu gosto contemporâneo e minimalista, sem grandes excessos.
O seu processo criativo começa sempre com uma conversa inicial, onde discute o tipo de casamento e o estilo da noiva: “Nessa reunião, procuro ambientar-me na festa e imaginar a mulher já no seu casamento. Faço uma leitura de como tudo funcionará no espaço.”
Nesta fase, também abordam referências que Nuno, mais tarde, adapta à sua estética. “Embora tenha uma perspetiva moderna, a confeção está muito ligada à tradição. Valorizo o uso de técnicas mais antigas, especificamente as que eram utilizadas antes dos anos 50”, explica.
Uma etapa fundamental do processo é a prova inicial, feita com um tecido diferente, um método que caiu em desuso. “É um momento chato para a noiva, pois não vê o resultado, mas é aqui que se definem muitas questões importantes, como a estrutura, assegurando assim a qualidade do trabalho”, ressalta.

Nuno, que cresceu com uma mãe costureira, sempre gostou de olhar para o passado. Licenciou-se em história da arte, mas rapidamente percebeu que o seu verdadeiro desejo era seguir design de moda. Não hesitou em mudar o rumo da sua carreira.
Após a formação, rumou até Londres, onde viveu dois anos a trabalhar para uma marca de origem taiwanesa. “Na altura, os meus colegas diziam que era uma cidade muito diferente. Queria aprender mais e voltar”, explica.
Regressado a Portugal, integrou uma marca angolana onde, durante cinco anos, trabalhou para várias passadeiras vermelhas, um pouco por todo o mundo, desde Cannes ao Festival de Cinema de Veneza. Os clientes eram sobretudo nomes internacionais, mas chegou a vestir portuguesas como Pimpinha Jardim.
“Neste período, a minha paixão pela moda nupcial começou a crescer, pois quase todas as marcas que criavam para as passadeiras vermelhas também tinham coleções para noivas”, lembra. Ao notar que a etiqueta para a qual trabalhava não tinha interesse neste segmento, decidiu abrir o seu próprio atelier.
No espaço em Lisboa, começou a receber vários dos clientes que conquistou nestes anos. “Queria trazer uma nova experiência às noivas nacionais e mostrar um lado mais atual e português. Não havia propriamente uma grande qualidade nas peças que via e também quis apostar nisso.”
O mais importante, explica, é que se os modelos “criem uma história única” por se tratar de um segmento tão emotivo. “Acabas por criar laços fortes porque é um processo que, em muitos casos, dura quase um ano. Recebo noivas, decorridos vários anos, que aparecem para mostrar os filhos que tiveram entretanto. Algumas tornam-se amigas.”

Apesar de seguir linhas mais simples, Nuno continua a inspirar-se nos clássicos. Aconteceu, por exemplo, no vestido que criou para o casamento da apresentadora Yolanda Tati, que aconteceu em maio de 2023, uma peça assimétrica com folhos nos ombros e uma pequena cauda.
Embora a maioria das suas clientes sejam noivas, Nuno continua a marcar presença em eventos. Dos Globos de Ouro ao Festival da Canção, já vestiu nomes como Dânia Neto, Maria Cerqueira Gomes, Ana Guiomar, Débora Monteiro, Tânia Ribas de Oliveira e Bárbara Branco.
“Começaram a procurar-me quando lancei a minha marca de noivas e tem sido muito gratificante, porque estou a mostrar coisas novas no mercado”, comenta, acrescentando que ainda mantém colaborações com clientes de Angola, Moçambique, Índia e Rússia, entre outros países, que também trazem as suas filhas ao atelier.
Atualmente, o foco de Nuno é a internacionalização. “Em Portugal, foi desafiante, mas gostaria de alcançar um patamar mais internacional”, conclui. Se tudo correr bem, os primeiros passos serão dados em Espanha e no Reino Unido.
O atelier de Nuno Abrantes localiza-se em São Domingos de Benfica, onde atende clientes mediante marcação. O preço médio dos vestidos ronda os três mil euros.
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