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Nuno Gama fecha loja do Chiado: “Não há clientes nem negócio que suporte as rendas”

O criador português diz que este era o desfecho inevitável após as medidas impostas pelo governo.
Nuno Gama em frente à loja.

“No início da pandemia percebemos o que estava a acontecer”, começa por recordar Nuno Gama em entrevista à NiT. As medidas impostas pelo governo para travar a propagação do novo coronavírus começaram a prejudicar o negócio durante a primeira vaga da pandemia, que chegou a Portugal em março deste ano, mas o regresso das restrições mais apertadas foi “a confirmação de que, infelizmente, o desfecho iria ser este”.

O desfecho soturno a que se refere foi o encerramento forçado da icónica loja do criador português no Chiado, inaugurada em dezembro de 2018. A Maison Nuno Gama ocupa cerca de 175 metros quadrados no número 1 da Rua Nova da Trindade. Por não ser das mais movimentadas do bairro histórico de Lisboa, a solução criativa para atrair clientes passou pela colocação de uma girafa gigante que se prolonga desde o interior da montra para o exterior, onde segura sobre a rua o logotipo da loja, iluminado pela boca.

A 24 de dezembro de 2020, pelas 17 horas, vão fechar permanentemente as portas ao público e retirar a girafa, as roupas, os perfumes, as joias e os acessórios, a decoração vintage e o mobiliário de barbearia — por lá, os clientes também podiam “cuidar da imagem sem pressa, num momento de bem-estar e relaxamento”, como nos explica Nuno Gama. Vão empacotar tudo e “seguir com a vida”.

Até ao encerramento, as coleções apresentadas na ModaLisboa e a secção de roupas feitas à mão em Portugal por medida na alfaiataria estarão em promoção, bem como tudo o que está à venda na Maison Nuno Gama. O conceito que idealizou há dois anos queria oferecer ao “homem contemporâneo” um espaço onde pudesse encontrar as propostas do seu universo para cuidar da imagem, desde vestuário a calçado, passando também por acessórios, cuidados de cabelo, barba e perfumaria.

Os motivos principais para o encerramento são, diz o criador, “única e exclusivamente o facto de, neste momento, não haver clientes nem negócio que comporte este nível de rendas. O pouco que existe está na net. Não há turismo, não há eventos e as pessoas estão recolhidas, com medo da pandemia e com o arrastar da crise económica.”

A sensação de encerrar este capítulo é uma “tristeza sem terra à vista”. A esta junta-se outra, na forma de um otimismo eletrizante. Para o criador, este também é um momento de “ver o copo meio cheio” e a equipa quer fazer da situação uma “oportunidade de aprendizagem, mudança, crescimento e amadurecimento da marca”.

“É onde estamos neste momento, cheios de ideias para fazer uma coisa nova, especial. É pena estarmos a contar os tostões, mas a imaginação não tem preço, por isso vamos fazer dela a nossa grande vantagem”, continua.

Já na ModaLisboa Nuno Gama havia retirado inspiração dos tempos atípicos para apresentar a 10 de outubro um desfile sem coleção, em que vários manequins vestidos apenas com boxers (e nada mais) partilharam entre eles um único casaco, que passou de mão em mão como se se tratasse de um tesouro. “Tudo tem influência sobre nós, na forma como sentimos, dirigimos e ‘embrulhamos’ para o dar de volta ao mundo, com os nossos olhos”.

A próxima aventura ainda é um mistério, mas Nuno Gama confessa-se “ansioso” por iniciar um novo ciclo, “por incrível que pareça”, adianta. Para o futuro, mantém a vontade de abrir uma nova loja, “com um conceito muito diferente” e novas fórmulas que ainda estão a ser desenvolvidas para “reagir com a melhor oferta” aos tempos estranhos que vivemos.

nuno gama
Algumas propostas do criador.

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