Moda

O que levou Tony Miranda da aldeia à alta costura: “Vi um desfile da Dior no salão paroquial”

O criador de moda mudou-se de Torrados, em Felgueiras, para Paris aos 14 anos. Vestiu Jacques Brel, Brigitte Bardot e o rei do Irão.

Aos 74 anos, Tony Miranda é considerado como um dos mestres portugueses da alta costura. Filho de uma costureira e de um sapateiro, cresceu a observar os pais a trabalharem nos seus ofícios. Queria ajudar a dar ao pedal nas antigas máquinas de costura e sentir com os dedos cada modelo que nascia das mãos dos progenitores. A criatividade corria-lhe no sangue e não demorou muito até que optasse por seguir uma profissão que também envolvia a criação.

Ficou deslumbrado ao ver um desfile da Christian Dior na televisão e decidiu que o seu percurso profissional passaria por algo semelhante. Queria criar peças de alta costura. Não foi, porém, na aldeia de Torrados, em Felgueiras, no Porto, que tal aconteceu. Mudou-se para Paris com apenas 14 anos para trabalhar com nomes sonantes, onde se destacam Joseph Camps e, sobretudo, Ted Lapidus. Foi neste atelier que teve a oportunidade de vestir personalidades como Jacques Brel, Charles Aznavour ou Brigitte Bardot. A sua clientela também se estendeu a figuras políticas como o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi.

Apesar da sua carreira internacional invejável, lamenta nunca ter feito parte do circuito da moda nacional. Tony Miranda seguiu o seu próprio caminho, mas não deixa de apresentar as suas propostas no País sempre que possível. No próximo dia 19 de outubro apresenta em Lisboa a sua nova coleção de moda dedicada a “um tempo novo de liberdade e paz”. Com cerca de 80 peças femininas e masculinas, o desfile do criador português combina uma linha couture — pensada para ambientes de contacto social e de trabalho – com propostas da sua Coleção Privada 2023. Uma linha que transforma os momentos negativos que todos vivemos nos último anos num espetáculo de otimismo.

O que o motivou a apresentar um desfile que navega entre o desalento e a esperança?
A coleção foi concebida nos momentos mais graves da pandemia. Tinham de me mandar as fotos para casa, porque estive sozinho durante meses. Tenho um atelier, em Guimarães, à frente de um jardim onde há sempre muita gente nos bancos, miúdos a brincar e muito movimento. Quando estou a trabalhar, vejo tudo isso pelas janelas. Nessa altura, não via ninguém e era uma tristeza profunda. Com o passar do tempo, o pessoal começou a vir trabalhar, as coisas mudaram e decidi continuar a desenvolver nesta coleção. Mas desenvolveu-se de outra maneira, mais esperançosa e com sentimentos menos devastadores.

Onde se inspirou e como desenvolveu a coleção?
Comecei por só ter a ideia das cores, como o preto, o branco e o cinzento. Quando uma pessoa está a fazer um molde, costuma imaginar o tecido que vai colocar. E, a mim, não me saía da cabeça outra coisa senão estes tons. Com o tempo passado, acrescentei todas as cores alegres para transmitir a esperança. Haverá brancos, mas também verdes, rosas, azuis, vermelhos, dourados e prateados. O tempo não foi tão generoso connosco, porque a guerra começou, mas já fui capaz de ver a vida de outra maneira. Por isso é que chamo a paz e a esperança, para que a partir de agora as coisas possam mudar. Dividi assim o desfile.

Esta coleção representa uma mudança de ciclo na sua carreira?
Claro.Nós trabalhamos muito para fora, e como as viagens foram proibidas, começaram a faltar recursos. Representa um ciclo com mais esperança. Podemos ter alguns problemas na economia, mas vai recomeçar outra vez. Há sempre muitas histórias em que, depois dos problemas, vêm sempre bons tempos e vontade de viver. Acredito nisso.

A sua paixão pela moda nasceu com um desfile da Dior. De forma, exatamente?
Aconteceu quando vi televisão pela primeira vez. Não tínhamos nenhuma em casa. Vi um desfile da Dior na televisão do salão paroquial da aldeia [Torrados, no concelho de Felgueias], que o padre tinha comprado para as pessoas. Transmitiam os desfiles e as procissões à noite, todos os fins de semana, e foi aí que vi uma coleção da Dior. Fiquei tão apaixonado que cheguei a casa e disse à minha mãe que era para Paris que queria ir. Nasci no meio dos trapos e a minha ideia sempre foi trabalhar nos trapos.

Aos 14 anos, já trabalhava em na capital francesa. Como é que foi a mudança?
O meu pai não concordava comigo, mas nunca tive outra ideia senão continuar na direção da costura. Naquela altura, falava-se muito da vida em Paris. Conhecia uma pessoa na aldeia que se tinha mudado para França e, graças a ela, cumpri o meu sonho. Era outro tempo, trabalhava num atelier manual em que toda a gente se tratava como parte da família. E demorei muitos anos até perceber o que realmente é uma peça de alta costura.

E o que é a verdadeira alta costura?
Alta costura não são só pontinhos. Primeiro, na alta costura, tem que se estudar o corpo da pessoa, observá-la, e entender aquilo que se vai fazer. É muito importante ter atenção a todos os pormenores para fazer a diferença face a outros segmentos da indústria. Cria-se uma peça única, com muitos detalhes. É um processo muito longo e tão pormenorizado que é difícil de explicar. Não é dizer “vou meter aqui muitas pedras e muitas pérolas”. Na verdade, o resultado final é muito simples. Todo o trabalho se traduz num modelo simples, mas que leva horas e horas a trabalhar com os dedos, tudo à mão, com base na forma das pessoas.

Vestido em organza pintado à mão, com 6.500 pedras Swarovski.

Optou pela altura costura em vez de seguir uma direção mais comercial. Porquê?
Nunca pensei nisso do negócio. É necessário pagar às pessoas que tens a trabalhar contigo e tudo o que é necessário para uma casa funcionar. Mas, desde que comecei a pensar na costura, quis seguir este rumo. Não coloquei de lado o pronto a vestir. Até hoje nunca precisei de seguir esse segmento, nem outra coisa senão aquilo que faço. Temos que nos adaptar a outra clientela, os tempos mudam, claro, mas também tenho linhas mais acessíveis. Posso dizer que tenho peças a 400 contos (2 mil euros).

Quanto tempo demorar a criar uma peça de roupa?
Por vezes, um fato pode demorar mais de 150 horas. Gostava de mostrar às pessoas como se trabalha uma peça de alta costura, porque muita gente deve achar ridículo passarem-se tantas horas uma única peça. Mas a verdade é que não se consegue fazer de outra maneira.

Considera-se o criador do blazer de senhora?
Assumo-o com orgulho, mas não foi por minha conta. Foi no atelier de Ted Lapidus, onde tive a oportunidade e a liberdade de criar e assim o fiz. Comecei na formação a trabalhar em roupa masculina. E quis transportar isso para o guarda-roupa feminino.

O designer português na Confeitaria Nacional.

Tem clientes de alta costura em Portugal?
Não tenho nenhum no País, vendo tudo para fora. Tenho uma pessoa ou outra que, de vez em quando, quer uma coisa diferente, mas trabalho sobretudo com nomes estrangeiros.

Que pessoas mais se orgulha de ter vestido?
Orgulho-me de se vestir toda a gente que vem a minha casa. Alguns tornaram-se amigos, porque um cliente de alta costura torna-se sempre um amigo mais tarde. E há nomes mais mais sonantes, mas todos estrangeiros. O rei do Irão, por exemplo. Vesti Brigitte Bardot, Jacques Brel e Charles Aznavour. Acima de tudo, são pessoas que confiam, e praticamente não encomendam. Já sei quantas peças são necessárias e o seu gosto.

Ao longo dos anos, manteve-se afastado do circuito de moda nacional. Foi uma decisão pessoal?
A verdade é que nunca me convidaram [para as semanas da moda], mas também nunca fiz nada para que isso acontecesse. Se acham que devo ou não estar, não me importuna. Faço o meu percurso e, sobretudo, faço tudo o que gosto. Prefiro seguir o meu caminho pessoal do que estar à espera de propostas que me façam. Tenho conseguido porque eu próprio tenho crescido e vou recebendo convites do estrangeiro.

Carregue na galeria para ver algumas das criações do costureiro português e descobrir um pouco do seu percurso na moda.

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