Moda

O look da Miss Portugal inspirado na República Portuguesa criado por uma drag queen

Marina Machete vai usar uma armadura com as cores da bandeira nacional na final. A artista Miss Velvet é a autora do visual.
Marina é a primeira mulher transgénero a vencer o concurso.

Volvidos 113 anos desde a implementação da República Portuguesa, em 1910, Marina Machete tornou-se a primeira mulher transgénero coroada Miss Portugal. A data da vitória pode ser apenas uma coincidência, mas para a jovem de 28 anos também simbolizou “a libertação de uma nação para uma nova era”, escreveu numa publicação no Instagram.

A modelo, natural de Palmela, em Setúbal, vai representar o nosso País no concurso Miss Universo, que decorrerá a 18 de novembro, em El Salvador, com concorrentes de 86 nacionalidades. Se a escolha é aplaudida por imensos portugueses, muitos outros — como Miguel Sousa Tavares, por exemplo — também mostraram o desagrado com a sua participação no concurso.

Longe das controvérsias, Marina já chegou ao destino onde vai decorrer a 72.ª edição da competição e prepara as rondas preliminares que determinam os resultados no palco. Entre as categorias avaliadas pelos jurados, estão vestidos de noite, fatos de banho ou fantasias, por exemplo.

Outro dos segmentos é o dos trajes nacionais, onde cada mulher pode mostrar a sua cultura através da moda, sendo que a melhor interpretação recebe uma distinção especial. O visual da candidata portuguesa, inspirado num cartaz da implementação da república portuguesa, já foi revelado e tem assinatura da drag queen nacional Miss Velvet.

O look contrasta uma armadura branca na parte de cima, adornado com vários apontamentos dourados, com as cores da bandeira portuguesa. A saia verde e fluida, com uma racha vertiginosa até à coxa, inclui uma representação da esfera armilar na lateral e uma capa vermelha que se prolonga numa cauda.

A representação do “povo resiliente e forte”

“[A Marina] entrou em contacto comigo, porque já tenho alguma reputação por criar looks diferentes das restantes marcas de moda”, conta a artista à NiT. “Tinha pedido dicas de artistas queer ao Miguel Rita, que é produtor do concurso Miss Drag Lisboa, porque precisava de um couturier. Ele indicou-me imediatamente.”

Desde o início, a modelo sabia que, para “representar o povo resiliente e forte” do seu País, queria colaborar com artistas da comunidade LBGTQIA+. “Não era para ser só seu, mas colaborar com inúmeras pessoas e mandar essa mensagem para um palco internacional. Portugal tem mão de obra com capacidades dentro deste grupo”, acrescenta.

O coordenado foi concluído em menos de duas semanas, antes de viajar para Miami, nos EUA, a primeira paragem antes de El Salvador. “Encontrou-me dois dias depois [da vitória], mas mora mesmo ao meu lado. Falámos, percebemos o que queríamos transmitir e não tivemos dificuldade em encontrar os materiais.”

O cartaz que inspirou a criação.

Quando viu o primeiro protótipo, Marina deu logo luz verde a Miss Velvet para avançar. A criação é inspirada no simbolismo do cartaz, “nos valores da luta e da conquista por um futuro melhor”, mas obedece à linha estética da designer de figurinos, marcada pela cintura acentuada, silhueta gráfica e uma figura quase escultural.

“O corpete tem dois materiais diferentes. O tronco foi feito com um manequim de exposição de uma loja que encomendei e personalizei. Tive que jogar com o tempo que tínhamos”, explica. Um dos objetivos era explorar o contraste entre a rigidez da parte de cima com texturas mais leves e delicadas na parte de baixo.

A escolha da armadura não deixa de ser irónica, tendo em conta a onda de ataques que a jovem tem recebido desde a vitória. Ainda assim, “tem uma maneira excelente de lidar com tudo isto, já que passou por muito pior na vida”, assegura a Miss Velvet. “Tem uma maneira muito pacífica de levar tudo o que é dito na comédia. É como se estivessem a fazer um roast dela.”

E, embora tenha uma vivência diferente, a drag queen tem um ponto de vista semelhante. “O que faço é artístico e, quem estiver para me prejudicar, não irá fazer parte do meu círculo. O que ajuda é que, apesar de toda a difamação e bullying público, o amor e o apoio que ela tem é muito amor. Há sempre uma parte política num concurso de beleza.”

Marina Machete
O processo de criação do look.

Quem é Miss Velvet?

Por trás da figura majestosa e da maquilhagem gráfica de Miss Velvet, está André Rodrigues. Nascido em Setúbal, cresceu e estudou design de moda, em Guimarães. O objetivo sempre foi trabalhar com figurinos, porém, quando regressou à cidade onde nasceu, “não conseguia trabalho que me permitisse sobreviver” dentro da área.

Em vez disso, começou a trabalhar como comissário de bordo. Quando os pais — que tinham trabalhado na aviação militar — sugeriram que parasse durante uns tempos após a graduação, o artista acabou por viajar e fazer uma entrevista para uma companhia aérea. Trabalhou durante três anos na Ryanair.

Em 2020, conseguiu uma oportunidade na British Airways, porém, com a pandemia e o Brexit, sentiu-se obrigado a voltar para Portugal. “Comecei a fazer uma lista de trabalhos. Quais é que me garantiam o estilo de vida que eu queria?”

Assim, começou a trabalhar num banco e, aos poucos, voltou para o mundo do styling e do design com trabalhos mais pontuais. “Basicamente não durmo”, frisa. Além da colaboração com Marina, cria vários visuais para nomes do ramo artístico, tendo criado figurinos para videoclipes da cantora Blaya.

A Miss Velvet surgiu “como uma extensão” da sua pessoa, e uma forma de exprimir, no meio destes dilemas. Começou em 2018, quando vivia na Irlanda, numa altura em que transformismo ainda não era um fenómeno global. Montou-se pela primeira vez num bar no centro da cidade, uma brincadeira de Halloween que se tornou mais séria.

“Quase desisti durante a pandemia, mas fui convidado para me juntar ao projeto Drag Taste. Contrataram-me para ser diretor do departamento de moda e, quando descobriram que fazia drag, foi um bónus. A oportunidade lançou-me de volta para este universo.”

Desde então, tem somado inúmeras oportunidades e, afirma, é um dos nomes mais requisitados em Lisboa. “Este último mês foi tão caótico que pedi férias no banco durante quatro semanas devido à quantidade de trabalho.”

Miss Velvet
Alguns looks de Miss Velvet.

Enquanto designer, André cria a grande maioria das roupas que usa ou, no caso de materiais mais complicados de trabalhar, como o látex, pede a especialistas que façam figurinos à sua medida. Todos os detalhes são pensados pelo próprio dos pés à cabeça.

E, quem olha para uma fotografia, nota logo os traços da estética distinta de Miss Velvet. Inspira-se no glamour da era dourada de Hollywood, nas divas do mundo do burlesco, como Dita Von Teese, e o fetiche underground. “A energia forte feminina sempre me interessou imenso”, conclui.

Agora, acrescenta uma nova experiência ao seu currículo. O visual criado para a Miss Portugal foi o primeiro look que desenhou para um concurso de beleza — e gostaria de fazer mais. “A parte da moda que me interessa não é o design comercial. É a alta costura e o espetáculo.”

Leia este artigo da NiT e conheça melhor a nova Miss Portugal. Carregue também na galeria para ver algumas fotografias de Marina Machete.

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