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Moda

O tecelão minhoto que ajuda Christian Louboutin a criar peças de luxo

Aos 48 anos, Fernando Rei dedica-se a uma arte que já poucos dominam. As suas criações podem ser vistas em peças únicas.

Quando o mundialmente famoso designer francês Christian Louboutin decidiu homenagear Portugal — ele que passa grande parte do tempo na sua casa em Melides —, socorreu-se de alguns dos melhores tecelões e tecedeiras portuguesas. A carteira que é vendida por valores acima dos 1600€ começou a ser feita na pequena localidade de Aboim da Nóbrega, onde vivem não mais de mil pessoas.

Foi ali que nasceu e ainda vive Fernando Rei, um dos tecelões que ajudou a criar a peça lançada em 2019. É, hoje, um dos guardiões da arte que poucos optam por manter viva. E se, durante a grande parte do seu dia, se dedica criar peças ligadas ao folclore tradicional, ocasionalmente vê os seus tecidos em peças de moda contemporâneas.

Pela forma como recorda a tradição de quem fazia em casa toda a roupa, poderia pensar-se que manuseia o tear há décadas. Nem por isso. Tudo começou em 2015, quando decidiu criar a sua própria empresa, depois de ter perdido o emprego na Universidade do Minho.

“Formei-me e trabalhei sempre na área da educação. Enquanto animador cultural, estava também ligado ao artesanato, fazia certificação em feiras e exposições dos lenços dos namorados de Vila Verde”, conta à NiT.

“Na minha infância, quase todas as mulheres sabiam trabalhar nos teares. A minha avó, a minha mãe. Essa era a realidade nas décadas de 30, 40, 50. Mas nunca as vi produzir. Tinha algum conhecimento sobre o tema, mas não era profundo.”

Percebia pouco de como se faziam os tecidos, mas dominava a máquina. Desde adolescente que vivia fascinado com o lado mecânico da arte. “Tinha um fascínio pelo tear, pela máquina, pela simetria e equilíbrio.” Passava as aulas a desenhar teares e chegou mesmo a pedir a um carpinteiro para criar um tear em miniatura. “Fascinava-me mais a máquina, os tecidos nem tanto.”

A mala que custa mais de 1600€

Em casa, tinha outro tear, um modelo inglês vintage que alguém encontrou no lixo e lhe entregou. Agarrou-se à máquina e colocou-a a funcionar, sem ajuda. Até que um dia, um acaso levou-o ao encontro de uma nova paixão. Estava a terminar o mestrado quando alguém o convidou a preencher os muitos lugares vazios de uma formação em tecelagem. Interessado pelo tema, aceitou e apaixonou-se na hora. Acabaria por fazer nova formação, mais especializada, e quando se viu sem emprego, optou por criar a sua própria empresa, a Tearte, que hoje é o seu ganha-pão.

“Achei que podia ser rentável e comecei a fazer reproduções de peças do século XIX e XX. As encomendas começaram a chegar”, recorda, antes de fazer um reparo. “Na verdade, comecei foi mesmo a fazer tecido de linho para ser usado em sapatilhas.”

Grande parte do dia de Fernando Rei é passado a criar tecidos e peças de folclore, saias, aventais, vestidos. “A maioria das encomendas vem de grupos federados, da Federação de Folclore, até do estrangeiro. Quase sempre de gente ligada à etnologia”.

Não há muita gente que ainda faça o que ele faz. Apesar de dar para “viver confortavelmente só com este negócio”, Rei confessa que o trabalho é cansativo. “Às vezes faço dez horas de trabalho, noutras ocasiões 15”, conta.

Uma das maiores dificuldades, explica, está na compra da matéria-prima, não porque ela não exista em boa qualidade, mas porque só é vendida em quantidades incomportáveis para pequenos negócios. “Não podemos fazer grandes encomendas. Por vezes temos que nos juntar, quatro e cinco pessoas, para fazermos uma encomenda”.

A linha das Josefinas que Fernando Rei ajudou a criar

Ocasionalmente, surgem propostas irrecusáveis e, naturalmente, as que mais o entusiasmam. “Aprecio muito isso porque são ótimos desafios”, explica o tecelão que tem já um longo historial de trabalho para o designer Christian Louboutin. Colaborou nas carteiras Portugaba, já criou tecidos para outras peças e está também envolvido no novo hotel do francês, que deveria abrir durante este verão, em Melides.

“Já fiz os protótipos para os fundos de cama e almofadas. São uma interpretação dos mosaicos portugueses”, revela. Fernando Rei ainda não sabe se as suas criações irão fazer parte da decoração final da unidade, mas aguarda ansioso.

O encontro com Louboutin aconteceu em 2018 numa feira de artesanato, em Lisboa, através de um mediador. Chegou mesmo a conhecer o designer, que visitou o seu tear e o elogiou pelo trabalho. Pelo caminho, foram chegando mais propostas.

Fechou uma parceria com as portuguesas Josefinas, para criar uma linha de cinco sabrinas em tecido, as Weaving Couture, e esta semana viu ser lançada uma mala da Ownever com lã saída do seu tear — e vendida a mais de 800€ a peça.

“É uma peça bruta, quase natural. Foi toda feita nessa linha, na cor natural da lã de ovelha”, descreve.

Mas o momento de maior orgulho aconteceu mesmo em 2017, com uma peça única que lhe valeu um prémio no XIV Concurso Internacional de Moda, em Vila Verde, onde conquistou o primeiro lugar da competição. “São peças únicas que não volto a fazer e essa teve muito impacto”.

A peça premiada que mais o orgulha

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