Moda

Rosa Diniz: a artesã que cria carteiras de sonho exclusivas e feitas à mão

Decidiu mudar de vida aos 45 anos, dedicando-se a um novo ofício. Cria artigos especiais e únicos para cada cliente.
Não há duas carteiras iguais.

Num pequeno atelier, no número 44 da rua Poais de São Bento, acolhe o empenho de um espírito criativo e o seu apreço pelas matérias-primas. Rosa Diniz, de 50 anos, cria peças de excelência que primam pela qualidade do seu trabalho manual e pela exclusividade. A beleza das criações deve-se ao resgate e à mestria de técnicas que fogem da industrialização.

Filha de atriz, a artista confessa ter crescido com uma educação liberta de condicionamentos. Uma vez por ano, a sua casa transformava-se num estaleiro de construção de guarda-roupas. Nestes momentos via “coisas bidimensionais a transformarem-se em tridimensionais” e ficava encantada com a mudança.

“Fiz todas as escolhas que quis”, revela. A sua vida académica e profissional sempre se pautou pela ligação à arte e à cultura. Passou pelo Conservatório de Dança, com 10 anos, e enveredou pelo caminho das artes, na António Arroio. Mais tarde, chegou à Escola Superior de Teatro e Cinema.

Optou por começar a criar integralmente à mão há cerca de dois anos, fazendo das carteiras o seu produto estrela. No entanto, deixou o seu trabalho como produtora há mais tempo, convicta de que não queria trabalhar para mais ninguém: “Decidi mudar de vida há cinco anos atrás, mas não cheguei aqui imediatamente. Cada passo parecia ser o passo certo nesta direção.”

O seu trabalho combina formas de arte, fruto das paixões que foi alimentando ao longo dos anos. Descreve-se como criativa, independentemente da área, e não precisa de ir a lugares rebuscados para conseguir ter inspiração: “Quero exercer num sem fim de áreas. Se eu tivesse sido bailarina a vida toda, só conhecia o mundo da dança. Seria uma limitação”.

Uma nova casa criativa

No primeiro confinamento, quando tudo estava a fechar, seguiu o caminho contrário. Abriu o seu atelier sem fazer publicidade nenhuma. Apenas afixou um cartaz A5 no lado de fora. “Durante um ano, fechei-me num atelier para aprender sozinha e não me preocupei com vendas. Estive apenas a trabalhar”, sublinha.

Antes de dar este passo, enfrentou dificuldades. Tentou obter formação em Portugal, mas afirma que, das pessoas com quem tentava falar, não obtinha resposta: “Como é um ofício originalmente masculino, a desconsideração foi total. Ninguém me levava a sério. Ficavam a falar com o meu marido e ignoravam-me”. Hoje em dia tem fornecedores, usa 98 por cento de matéria-primas portuguesas e vai buscá-las pessoalmente às fábricas.

Na rua Poais de São Bento, desenvolve o seu labor manual de forma exímia. É algo que tem de ser feito passo a passo, “porque não há atalhos quando se trabalha com couro”. Pretende criar artigos que primem pela longevidade e que impliquem que o cliente não compre um maior número de carteiras feitas de forma industrializada. O trabalho depende apenas da artesã, que dispensa o uso de qualquer máquina. Até os fechos são feitos completamente à mão, valendo-se de materiais com base aquosa para evitar matérias sintéticas.

Da visão do cliente à mestria da artesã

Os clientes que se dirigem ao atelier representam uma parte crucial das obras de Rosa. Entre matérias-primas e ferramentas, conversa com cada um, pegando em várias peças — que funcionam apenas como amostras — e aplicando as técnicas. Da pele às especificidades como bolsos e tamanhos, é o cliente que vai definindo o que quer para, mais tarde, obter uma proposta da artista.

“Quando [o consumidor] recebe a peça, é uma espécie de revelação. Viram tudo o que escolheram a tornar-se num objeto tangível”, continua. “Os clientes nunca me pedem para fazer algo muito concreto, porque eu verifico se a imagem que me apresenta corresponde a um produto de outra marca. Todas as carteiras são criações minhas.”

“Produzi uma carteira para uma cliente portuguesa que é uma patrona dos ofícios, a Margarida Vila-Nova. Disse que tinha uma tapeçaria que trouxe do Guatemala e guardei-a durante um ano”, conta. “Não me deixou desistir, foi produzida e, enquanto esteve no atelier, tive um artesão da Hermès que veio ver a peça”.

Para manter esta exclusividade, não está previsto o lançamento de uma loja online: “Eu sou só uma e tenho clientes que insistem para que tenha mais alguém a trabalhar aqui. Não vou ter mais ninguém, porque não quero crescer. O meu modelo de negócio é perfeito”.

Porém, ao contrário de marcas do segmento de luxo — com o qual Rosa não se identifica — não produz coleções. Faz as carteiras de forma exclusiva e, mesmo assim, é apenas uma pequena parte da variedade de criações que tem para oferecer. De artigos de decoração de interiores aos criados para animais de estimação, passando por cintos e pequena marroquinaria, a panóplia é vasta e vendida para vários países. É o caso dos Estados Unidos, Suíça, Israel, Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e até Tanzânia.

Quanto aos preços, cada peça tem o custo de ser produzida à mão. Toda a criatividade e exclusividade reflete-se num intervalo de preços que começa nos 600 euros e que, em alguns casos, já chegou aos 5 mil euros. Pode visitar o atelier de Rosa Diniz no número 44 da Rua Poiais de São Bento, em Lisboa. Encontramos outros trabalhos na sua página de Instagram e no site que funciona como portefólio. Carregue na galeria para descobrir algumas carteiras feitas pela artesã (e também outros artigos).

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