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Sapatos só com calcanhar são a nova tendência bizarra da moda? A Chanel diz que sim

As modelos desfilaram com “pouco mais do que uma cobertura no calcanhar” e lançaram o mote. Os clientes fizeram fila.

Foi em 1957 que Gabrielle Coco Chanel lançou um dos modelos de calçado mais revolucionários da moda. Descrito por muitos como “o novo sapato de Cinderela”, o slingback bicolor com biqueira — com tiras na parte de trás, toda em bege, e uma gáspea preta em contraste —  tornou-se uma assinatura intemporal da marca.

Desde então, o modelo tem tido inúmeras variações. Porém, nenhuma foi tão extrema como a que Matthieu Blazy apresentou na passada terça-feira, 28 de abril, durante a apresentação da Coleção Cruise 2027 da marca francesa. O diretor criativo desconstruiu o código ao apresentar modelos intencionalmente incompletos.

Nós explicamos: a biqueira desapareceu e deixou os dedos à mostra, uma vez que o design se baseia no que a maison designou de “calcanhar descalço”. À primeira vista, poderia parecer que as modelos desfilavam com “pouco mais do que uma cobertura no calcanhar”, como descreveu a especialista Joelle Diderich, à revista “WWD”.

Enquanto a maioria apresentava um salto preso por delicadas fitas, ficando quase totalmente escondido sob saias maxi com franjas, outros surgiam sob a forma de modelos mais tradicionais, como Mary Janes a preto e branco até modelos com tons vivos e acabamentos texturados.

Na manhã seguinte, a super plataforma de compras online Lyst publicou o seu índice do primeiro trimestre de 2026, com a Chanel no topo das mais comentadas. Dividiu tanto as opções aquando do lançamento, em março, que clientes fizeram fila para conseguir um par.

Assim foi o desfile.

Ao longo dos anos, têm sido várias as marcas a questionar a necessidade do apoio ao arco do pé. Vimos isso acontecer com a The Row, que apresentou collants com sapatos-meia incorporados na Semana da Moda de Paris, ou com a Balenciaga, em particular na sua colaboração com a Vibram FiveFingers.

Se formos aos arquivos da Maison Margiela (onde Blazy trabalhou durante a década de 2010), um dos designs mais icónicos é a sandália tabi Le Topless, apresentada na coleção de primavera-verão de 1996 da marca: consistia numa simples sola com um salto fixado ao pé com fita adesiva. 

Mas a mais antiga das referências é, talvez, a Sandália Invisível (sim, é esse o nome oficial), criada por Salvatore Ferragamo em 1947. Inspirada nos pescadores do rio Arno, esta proposta era feita através de um fio de nylon transparente que prendia o pé descalço ao calcanhar — uma versão mais sofisticada do que Margiela faria.

Por detrás destes riscos, há também um fator social. Ao longo dos séculos, desde a antiguidade ao mundo moderno, nobres e aristocratas usavam roupas pouco funcionais para demonstrar indiretamente que não se dedicavam a trabalhos manuais, estabelecendo assim o seu estatuto.

A Margiela também popularizou.

Até ao momento, porém, a moda não viu nenhuma marca comprometer-se tão plenamente com a ideia de prescindir totalmente dos sapatos como a Chanel. O que nos leva a questionar se está prestes a instaurar-se uma nova tendência bizarra e se alcançará um improvável sucesso comercial.

Além disso, esta loucura surge no seguimento de fenómenos semelhantes com a febre do calçado barefoot — ou seja, respeitadores da anatomia do pé, recriando a sensação de andar descalço ao permitir movimentos livres — ou dos naked shoes, com sabrinas de rede ou sandálias de PVC que deixavam os pés visíveis.

A procura crescente deve-se, primeiro, ao facto de ajudarem a alongar a silhueta. Como não há uma linha visual que corte o tornozelo, criam essa ilusão de pernas infinitas. E combinam com absolutamente tudo, desde um vestido de gala até um par de jeans, já que são um “acessório neutro” que não destoa do resto do look.

Ainda que não as propostas da Chanel não tenham chegado ao circuito comercial, são várias as alternativas nas lojas mais conhecidas de estilos que procuram replicar a estética nude. 

Carregue na galeria para conhecer alguns pares de naked shoes de vários estilos que a NiT encontrou (a partir de 25,99€).

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