Moda

Tulipas douradas e saia anos 50. O vestido da princesa havaiana que casou em Portugal

Idony Punahele e Alfredo Côrte-Real, descendente de D. Afonso Henriques, subiram ao altar. A noiva desenhou o modelo.
Um modelo original.

Estandartes com as armas reais portuguesas da segunda dinastia decoravam o castelo de Santa Maria da Feira. A 30 de setembro, realizava-se o primeiro enlace monárquico no monumento nacional do século X, assim como o primeiro casamento da Casa Real havaiana em mais de um século. E toda a população foi convidada a participar.

Depois da cerimónia, na Igreja dos Lóios, foi em torno de velas brilhantes e rosas brancas que se comemorou a troca de votos entre Idony Punahele, a princesa do Havai, e Alfredo Côrte-Real, alegado descendente de D. Afonso Henriques.

Curiosamente, o casal subiu ao altar uma semana antes do casamento da infanta Maria Francisca, com o advogado Duarte de Sousa Araújo Martins. As expetativas para o visual da princesa estavam elevadas, mas as escolhas não podiam ter sido mais diferentes — apesar do “confronto” real.

Para a cerimónia, a legítima herdeira e atual chefe da Casa Real do Havai usou um vestido com uma enorme cauda de 2,5 metros. O modelo de crepe branco, contava uma camada em brocado com túlipas douradas bordadas. Contava com uma saia ampla, rodada e de cintura subida, bem ao estilo “New Look”, introduzido pela Dior nos anos 50 e que se tornou um clássico no mundo da moda. A parte de baixo dividia-se em camadas com dois tons contrastantes, em branco e champagne. Completou o design elegante com o longo véu anexado a uma tiara.

Sobre o motivo escolhido, trata-se de “uma flor histórica”, explica à NiT o noivo, Alfredo Côrte-Real. Quando começou a aparecer nos Países Baixos, no século XVI, era muitas vezes trocada por palácios. “As pessoas endoideceram e gastavam fortunas, mas é uma planta efémera. O bolbo por vezes floresce, outras vezes não. É uma mensagem para que as pessoas não percam a cabeça”, acrescenta.

O modelo foi desenhado pela noiva e também os tecidos “foram escolhidos a dedo por ela”, que os encomendou de Paris porque “não arranjou cá o que pretendia. No entanto, a tarefa de concretizar o modelo coube a uma costureira aveirense “que pediu o anonimato”, mas que já é conhecida pela família de Alfredo.

Sobre a joia que levou na cabeça, trata-se de uma peça de diamantes, personalizada para a ocasião. No centro, tinha uma “pérola de água salgada do Pacífico, considerada das maiores e mais raras do mundo”. A mãe de Idony levava na cabeça um modelo mais antigo que herdou da casa real do Havai.

O bouquet era composto por rosas brancas e folhas de camélias retiradas dos jardins da casa do noivo, em Aveiro, e foi desenhado pelo primo, Douglas Tolentino. É um artista, músico e genealogista conceituado no Havai, mas não estava previsto que fosse ele a assinar o arranjo.

“Na semana anterior, não arranjávamos as plantas que queríamos. Encomendaram-se flores, mas nenhum dos ramos nos agradou”, explica. “Para condizer com o vestido, que era algo diferente, ele ofereceu-se para fazer e teve mais significado. Mas não sei como aquilo não caiu tudo.”

Sobre a escolha, as rosas brancas, que também foram colocadas no bolo da pastelaria Flor de Aveiro, foram uma preferência da noiva. “No Havai, eles têm muitas opções exóticas, mas adoram as que são cultivadas na Europa. Para eles, são estas plantas que são realmente exóticas.”

Além de criar o arranjo floral, o artista também atuou durante o cocktail de receção aos noivos, no Castelo de Santa Maria da Feira, onde interpretou o mele, um cântico tradicional havaiano, assim como o Canto Real. “É um elogio aos antepassados, mas já não era entoado há mais de um século. É a primeira vez desde a invasão norte-americana.”

Entre os convidados, que estão inumerados numa publicação no Facebook, estavam presentes vários familiares dos noivos, como e a filha do Barão de Palme, Senhora Dona Joana Eczody; S.A.R. o Príncipe Dom Pedro de Bragança e Bourbon de Mendoça, o Duque de Loulé, o Príncipe Dom Filipe de Bragança e Bourbon, Conde do Rio Grande e Dona Ana Botte Bramão de Mello, Viscondessa de Messines.

Fora da lista, entre os nomes que “lamentaram sinceramente não poder estar presentes”, estão o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dos Duques da Calábria, do primeiro-ministro suíço, Guy Parmelin e do famoso realizador português, assim como uma “uma série de outros amigos nos Estados Unidos, Espanha, Itália, Grécia e Portugal”.

Afinal, quem é a princesa havaiana?

São raras as fotografias em que não surge com um chapéu, tem sempre um fato à sua medida e não dispensa acessórios, das carteiras aos sapatos. Um estilo que a pode tornar num ícone de moda entre as várias rainhas europeias. Num dos seus retratos oficiais, Punahele aparece com uma grinalda de penas, símbolo antigo e natural da realeza do arquipélago.

A princesa, representante das 5 Ordens Dinásticas do Havai, fala ainda várias línguas e a sua vida profissional está ligada ao mundo das artes. Formada em escultura, começou uma carreira no mundo do cinema e é membro de um Júri Internacional de Cinema, no Finisterra Film, Art & Tourism Festival, deste outubro de 2022.

Atualmente, é também diretora-executiva de Relações Internacionais da Fundação Hoapili Baker. O seu papel é apoiar a população do Havai, nomeadamente por meio de um programa educacional para a juventude, iniciado pelos seus antepassados, o Rei Kalakaua e o Príncipe Robert.

A relação entre o casal começou em 2018, quando o aristocrata foi abordado para colaborar com a Casa Real do Havai. “O povo ficou esmagado pelos norte-americanos, sem acesso ao ensino e começaram a fazer alguma pressão para que os soberanos tomassem uma posição”, diz. Foi nessa altura que, graças a amigos em comum, se aliaram “por laços de sangue e amizade”.

“Precisavam de apoio institucional na Europa e começámos a pôr em ação o plano relativamente à fundação [Hoapili Baker]. Falávamos por telefone ou videochamada, mas a amizade fortaleceu-se com a vida dela para cá”, acrescenta, destacando a ligação portuguesa ao arquipélago, seja pelos apelidos, gastronomia ou instrumentos musicais.

Durante a migração dos portugueses para as ilhas, durante o século XIX, Manuel Nunes foi considerado o inventor oficial do ukelele. O português (natural da Madeira) apresentou um dos instrumentos mais populares do estado norte-americano, criação que prova a ligação profunda entre as duas populações.

A princesa com a típica grinalda.

A verdadeira realeza

O anúncio tem levado a vários debates sobre a herança monárquica. Alfredo Côrte-Real Souto Neves, noivo de Punahele, é apontado como o descendente legítimo do primeiro rei de Portugal, D, Afonso Henriques, entre outras figuras da história, como o navegador Nicolau Coelho.

No seu livro “A verdadeira Casa Real de Portugal”, lançado em 2022, fez uma investigação sobre a verdade da legitimidade ao trono nacional. Um tema que, segundo o ator, “tem sido envolto em estratagemas por forma a ocultar a verdade dos factos”, que afirma serem manipulados desde o Estado Novo.

Sabe-se ainda que “Suas Altezas Reais irão viver entre o Havai e Portugal”, avança a Fundação Hoapili Baker, citada pelo “Público”. “É o primeiro casamento real que ocorre em Terras de Santa Maria” e vem reforçar a ligação histórica entre as ilhas do estado norte-americano, descobertas pelos europeus, e a nação lusa.

O reino do Havai foi instituído em 1795, pelo Rei Kamehameha I. Seguiram-se duas dinastias: a primeira elegeu o Rei Eleito Lunalilo e a segunda elegeu o Rei Kalakaua. Depois da morte do segundo monarca, sucedeu-lhe a irmã, a Rainha Liliuokalani, visto que a lei apontava que os herdeiros seriam os familiares mais próximos de sangue.

Porém, como nenhum dos dois deixou descendência, o direito ao trono passou para o primo, Robert Hoapili Baker I. Entretanto, “o atual ramo detentor do Direito de Jure [da realeza havaiana] é o do príncipe George I’i, que transmitiu a responsabilidade de assumir essa representação histórica à sua neta, a princesa Idony Punahele, sendo ela a atual chefe da Casa Real do Havai, no ramo legal e constitucional”, lê-se ainda no anúncio do enlace.

Aproveite e carregue na galeria para ver mais imagens da cerimónia, assim como outros exemplos do estilo de Idony Punahele.

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