Moda

Victor Mudhe: o alentejano que faz sucesso em Miami e já vestiu o cantor Maluma

O designer passou pela Marinha, mas esteve sempre de olhos postos na moda. Trabalha com músicos, atores e jogadores da NBA.
Victor sempre teve um estilo ousado.

Quando Vítor Frieza assistiu pela primeira vez a um jogo de NBA ao vivo e se cruzou (por acaso) com Omari Hardwick, da série “Power”, não imaginava que acabaria por vestir o famoso ator. Na altura, o alentejano de 39 anos tinha acabado de se mudar para Miami, nos EUA. Ainda estava a (tentar) lançar a sua marca no mercado norte-americano com o apoio de amigos que viviam por lá e o futuro era uma incógnita.

Umas semanas mais tarde, um fotógrafo de Los Angeles convidou-o para ser o stylist do seu próximo trabalho. Acaso do destino, o protagonista da sessão era precisamente a estrela de 50 anos. Resultado: acabou em casa de Hardwick, a conversar, beber vinho e a escolher um conjunto desenhado por si para o ator usar.

“Assim que cheguei comecei logo a ir a eventos, a contactar as equipas de produção. Apresento-me e dou a conhecer o meu trabalho. No final, quero ver os artistas com a minha roupa”, conta à NiT. “Faço questão que fixem o meu nome, que saibam quem sou, que venho de Portugal e tenho uma marca de moda.”

Do cantor Maluma a jogadores da NBA, Vítor — mais conhecido pelo nome artístico, Victor Mudhe — já faz parte do guarda-roupa de grandes estrelas. O criativo de 39 anos divide o seu tempo entre Lisboa e Miami, onde trabalha como designer de moda, stylist e relações-públicas.

No seu catálogo, destacam-se propostas urbanas marcadas por paletas monocromáticas, cortes arrojados e silhuetas oversized. De fora, ficam os logótipos e os slogans ou qualquer outro pormenor que não acrescente valor ao design. “Chamo-lhe streetwear de alfaiataria”, reforça.

Victor com Omari Hardwick.

Do Alentejo para Lisboa

As peças à venda na loja que abriu em 2023, na Wynwood Art District, são uma evolução do estilo que o criativo usava durante a adolescência, em Beja. Embora tenha crescido ligado ao desporto, o seu gosto irreverente chocava as pessoas mais conservadoras da região.

“A minha avó era costureira. Como gostava de alterar a roupa, por volta dos 14 anos comecei a comprar camisolas e pedia-lhe ajuda para mudar ou corrigir aquilo que não gostava. Às vezes, só queria abrir uma gola ou dar um toque nas mangas”, recorda.

Volvidos dois anos, começou a vender peças a amigos, influenciado por um colega que lhe pediu ajuda para revender alguns artigos. “Com o passar do tempo, passei a ir ao fornecedor e comecei a ter muitas pessoas interessadas em comprar modelos escolhidos por mim.”

Mesmo quando se alistou na Marinha, com 23 anos, continuou com o negócio e nunca desistiu do sonho de ter a marca. “Para alguém que vive no Alentejo, ir para a capital é um sonho. Não era um militar exemplar, reconheço, mas aproveitei a oportunidade como ponte para me mudar e estabilizar.”

Quando deixou as Forças Armadas, começou a trabalhar como relações públicas. A ideia de abrir a primeira loja partiu de um cliente norueguês. “Um dia, disse-me: ‘Toda a gente olha para ti e gosta das tuas peças. Devias ter o teu próprio espaço'”, recorda Vítor.

Assim surgiu a Swag & Stars, em 2013. “A primeira loja do estilo em Portugal” ficava no Seixal e, por lá, estavam as peças de marcas que Victor encontrava quando viajava até às grandes capitais europeias. A maioria chegava a território nacional pela primeira vez.

“Vesti todos os artistas portugueses”

“Tinha muitos stylists a visitar-me e era eu que fazia o trabalho todo”, destaca. Apesar do gosto pela área, considera-se um autodidata, visto que nunca teve formação na área: “Através da ligação com o público, comecei a identificar como vestir as pessoas pela forma como tocavam na roupa, como andavam ou olhavam para as coisas”.

Entretanto, surgiu a oportunidade de levar o conceito para o Centro Comercial Colombo, onde rapidamente se tornou uma referência para quem procurava peças exclusivas de streetwear. “Vesti todos os artistas portugueses”, frisa, de músicos como Diogo Piçarra a apresentadores como Pedro Teixeira.

Victor Mudhe
Teve duas lojas em Portugal.

No entanto, sentiu a necessidade de introduzir algo seu. Lá surgiu a marca MWay, que começou com bonés. Victor passou para as T-shirts, introduziu as calças e, aos poucos, as peças autorais começaram a substituir as de outras marcas. “No início houve alguma resistência, mas depois até começaram a pedir o que fazia, por serem diferentes.”

O sonho americano

Após quatro anos no shopping, o designer notou a saturação no mercado. “A nível de qualidade na produção, estamos a par de Itália. Produzimos muitas peças para insígnias de luxo nas nossas fábricas, mas não somos reconhecidos. Não consigo vender uma camisa de 500€ quando outras marcas vendem opções a 10€”.

Em março de 2022, a etiqueta sofreu um rebranding e Victor adotou o Mudhe (de mudança) para se lançar no mercado norte-americano. “Tinha amigos em Miami e foram um grande apoio e incentivo à mudança. Ajudaram-me a abrir uma loja num dos melhores bairros da cidade. Costumo dizer que é um projeto americano, mas made in Portugal.”

Aos poucos, começou a divulgar o que fazia e criava. “Gosto de fazer barulho sem falar”, diz. E, graças ao estilo pessoal ousado, começou a ter dezenas de pessoas a abordá-lo, seja por curiosidade ou com propostas. “Tornei-me freelancer em tudo. Essa mentalidade fomentou em mim o sonho americano, aquilo que via nos filmes.”

Após ter trabalhado com Omari, a lista de clientes passou a incluir outras estrelas de Hollywood, jogadores da NBA, cantores e rappers ao seu currículo. Eis que chega o momento em que o fenómeno colombiano Maluma usa uma peça sua para uma campanha da Rayban, que passou na televisão norte-americana.

“Digo que a camisa que usou é feita pela avozinha”, brinca. Trata-se de uma proposta criada totalmente à mão, em croché, com bordados de flores. Demorou duas semanas até ser feita por uma só costureira. É uma peça única que só vai estar à venda pela marca no verão de 2024.

Maluma com uma camisa de Victor Mudhe.

“Agradar ao Maluma significa agradar a 10 pessoas antes dele. Tive que falar com o stylist dele, que também veste a Naomi Campbell, e estou a competir com a Dior ou a Versace. Sei que tenho de mostrar algo que eles não podem oferecer.”

Entre 100 peças, Victor começa por estudar a imagem do artista e identifica apenas 10 propostas. É dessa forma que aborda a sua equipa. No caso de Maluma, Ugo Mozie — responsável por vestir Maluma — já tinha a peça há meio ano. “É escusado insistir, tens que esperar.”

Sobre regressar ao mercado português, garante: “Não tenho mercado. A minha T-shirt mais barata custa 120€”. Ainda assim, do corte à fotografia, toda a produção das suas coleções acontece no showroom em Lisboa. Trata-se de “um mundo à parte” com um campo de basquetebol e um estúdio “infinito”.

O designer ambiciona ainda tornar o negócio numa marca de lifestyle, através da criação de móveis, como cadeirões. E, pelo meio, quer marcar presença em vários pontos de venda nos Estados Unido da América. “Se for tudo online, as pessoas não sabem que vendo o melhor algodão do mundo.”

Todas as peças de Victor Mudhe estão disponíveis no site da marca. Carregue na galeria para ver algumas das propostas e personalidades que as vestiram.

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