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Fez voluntariado em Moçambique, criou uma marca e continua a ajudar aquele país

Francisca Ferreira pediu ajuda ao namorado, Luís Magalhães, e os dois fundaram a MOZ.
Durante o voluntariado.

São 5h30 da manhã e o sol já nasce em Maputo, em Moçambique. Está calor, muito calor. Por isso, Francisca Ferreira, 23 anos, levanta-se e começa a preparar o seu dia. Depois de se despachar, a portuense segue até à Escola Primária da Imaculada, onde está a dar aulas de Língua Portuguesa e Matemática a miúdos entre o terceiro e o quinto anos.

Durante três meses, de 30 de agosto a 3 de dezembro de 2018, foi esta a rotina da estudante de Arquitetura de Évora. Depois de fazer Erasmus em Granada (em Espanha) e Bialystok (na Polónia), a jovem decidiu inscrever-se no programa AIESEC e fazer voluntariado naquele país africano.

Durante o voluntariado.

“Inscrevi-me sem falar com ninguém. Quando fui aceite é que disse às pessoas. A minha mãe sempre foi daquelas que ‘deixa o passarinho voar’. O meu pai ficou reticente, fez muitas perguntas que, quando lá cheguei, percebi que faziam todo o sentido“, conta à NiT.

Desde miúda que Francisca sempre gostou de ajudar os outros. Recorda a vez em que, com cerca de dez anos, saiu do Externato das Escravas, no Porto, e foi dar o lanche a uma senhora que todos os dias se sentava lá perto. Por isso, quando chegou a Moçambique, aquela realidade mexeu muito com ela.

“É uma experiência intensa. Sem lá irmos não temos mesmo noção do que se passa, do nível de pobreza. Para o povo moçambicano tudo é uma alegria. Se lhes compramos fruta, eles fazem uma festa; se lhes damos rebuçados ficam todos contentes”, recorda.

Foi toda essa energia que motivou a portuense durante os três meses — e lhe deu força para encarar um cenário, muitas vezes, devastador.

No primeiro mês e meio, ensinei miúdos que nem sabiam o abecedário. A escola ficava perto de uma lixeira, por isso, em dias de queimada, não havia aulas. Qualquer coisa era motivo para encerrar. E as crianças ficavam ali, sem nada para fazer. Muitas delas vinham ter comigo e pediam para não me ir embora porque queriam aprender.”

Sempre que havia um dia normal de aulas, Francisca optava por almoçar dentro da sala, onde estava mais resguardada. “Levava uma salada e um iogurte. Ficava ali porque fazia-me muita confusão haver crianças que não tinham nada para comer. Infelizmente não conseguia partilhar com todos.”

Certo dia, viu uma dessas miúdas a espreitar entre as grades da janela. Perguntou timidamente o que é que a portuguesa estava a comer. “A seguir, disse-me que não comia há três dias e que estava com dores de barriga. Dei-lhe o meu almoço, claro”, conta.

Nessa noite, como em quase todas, a jovem foi para casa a chorar. Deitava-se cedo, por volta das 20h30, depois de planear as atividades para a manhã seguinte. “Não nos é aconselhado sair à noite, por isso aproveitava para organizar tudo.”

Francisca guarda boas recordações.

Depois de um mês e meio naquela escola, Francisca foi transferida para uma creche infantil privada, onde deu aulas de inglês a miúdos dos três aos cinco anos. “É uma realidade distinta da primeira, sem dúvida. Atenção, que o ensino privado em Moçambique não é igual ao de cá, mas é melhor do que o público, obviamente.”

Mas, afinal, por que se faz voluntariado numa escola privada? “Falta de pessoal”, explica a jovem.

Após três longos meses a saltar descalça com os miúdos, a portuense teve de se despedir daquela que foi a experiência mais significativa da sua vida. Contudo, queria ficar ligada ao país e decidiu criar uma marca de T-shirts, a MOZ, cujos lucros revertem em parte para ajudar as crianças que nunca esquecerá.

“Cheguei cá e falei com o meu namorado [Luís Magalhães]. Ele é da área de finanças e gestão, por isso podia ajudar-me com a parte do dinheiro, de que não percebo nada.”

Francisca tinha deixado em Moçambique vários livros e brinquedos. No seu lugar trouxe dezenas de capulanas. “A MOZ é uma marca de T-shirts básicas com os bolsos feitos do tradicional tecido africano. Há oito modelos, sendo que um está disponível em duas cores”, explica.

Na Casa do Gaiato.

Cada peça está à venda no site da marca por 15€ — 5 por cento do valor reverte para a Casa do Gaiato de Maputo. “Os miúdos são muito bem tratados e sei que o dinheiro é bem investido.”

Quem manda nisto tudo:

Nome: Francisca Ferreira 
Idade: 23 anos
Profissão: Estudante de arquitetura
Peça favorita: T-shirt Ni Kahlé
Guilty pleasure: dormir com um peluche
Convença-nos a conhecer a marca: “A MOZ é uma marca que nasce do voluntariado com valores e ingredientes humanistas: amor, solidariedade e comunidade.”

A seguir, carregue na galeria para conhecer melhor esta marca solidária.

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