Música

Thati Lopes: “Gastava mais nos transportes para os ensaios do que ganhava numa peça”

Começou a fazer teatro depois da morte da mãe, aos dez anos, mas teve de parar para ganhar dinheiro. Trabalhou em lojas e escritórios. Agora faz parte do Porta dos Fundos e é a protagonista do musical que conta a história do Rock in Rio.
Foto de Inês Costa Monteiro

À porta de uma loja na Saara, zona de comércio no centro do Rio de Janeiro (Brasil), uma miúda de 17 anos tinha um microfone a passava horas a chamar clientes, com trocadilhos, promessas de descontos e sempre muita animação.

Na verdade, o que Thati Lopes queria mesmo era ser atriz — paixão que descobriu quando a inscreveram no teatro, uma forma de terapia para ultrapassar a morte da mãe, que perdeu quando tinha apenas dez anos — mas não eram as peças de teatro que pagavam as contas. Desde os 15 anos acumulou trabalhos em lojas e escritórios, passou anos a poupar tudo o que conseguia, até porque chegava a gastar mais dinheiro nos transportes públicos para chegar aos ensaios de qualquer projeto do que o que depois recebia pelo trabalho nas peças.

Hoje faz parte do elenco fixo do coletivo Porta dos Fundos e é uma das atrizes principais de “Rock in Rio — The Musical”, o espetáculo que conta a história dos 30 anos do evento e que abre todos os dias, às 19 horas, o Palco Mundo.

A atriz chegou a Lisboa na terça-feira, 17 de maio, menos de 48 horas antes do início do festival. Quando fez o ensaio geral no palco ainda nem tinha dormido mas falou com a NiT sobre este novo desafio, do impulso do Porta dos Fundos e do doce que quer mesmo provar em Portugal.

Como é que surgiu a oportunidade de participar no “Rock in Rio — The Musical”?
Na edição do Rock in Rio no ano passado, no Rio de Janeiro, eu fiz um musical mas era um pouco diferente: não tinha uma hora nem era no palco principal. Era num palco secundário e eu era eu mesma, a Thati. Apresentava, cantava, dançava. Agora é num palco quatro vezes maior, 40 bailarinos e cinco atores.

É uma atuação para milhares de pessoas. Há um nervosismo extra por ser num espaço tão avassalador?
Estou mais nervosa pelo desafio de cantar novas músicas e ter de dançar ao mesmo tempo. O facto de ser para mais gente não me intimida.

Tem alguma superstição antes de pisar o palco?
Eu rezo. Há aquela rodinha na qual se juntam os atores e toda a gente deseja merda mas quando isso acaba, eu preciso de um momento meu, faço a minha oração e bebo água.

Esta é a sua primeira visita a Portugal?
É a primeira vez. Vamos ter alguns dias entre as atuações do Rock in Rio, por isso já estamos a combinar passeios e pesquisei coisas na Internet para fazer. Já tenho um roteiro preparado.

Em miúda já sonhava trabalhar neste meio?
Sempre quis. A minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e, como forma de terapia, inscreveram-me no teatro. Eu fiquei e amei, comecei a dizer logo a toda a gente que era atriz e que queria ser atriz. Houve um momento em que tive de parar de fazer atuações para trabalhar, ganhar dinheiro. Trabalhei em lojas, escritórios, mas sempre com o sonho de voltar a atuar. Sempre que podia, fazia cursos.

Essas dificuldades nunca lhe deram vontade de desistir e fazer uma coisa completamente diferente?
Gastava mais nos transportes para os ensaios do que ganhava realmente numa peça. É difícil, é intenso, porque num dia temos trabalho, no outro não temos. Temos de economizar mais do que toda a gente, sempre pensei nisso. Em cada trabalho eu guardava tudo o que podia. Quando estava alguns meses parada, à procura de trabalho, usava esse dinheiro.

Houve um sketch do Porta dos Fundos, “Quem Manda”, que a tornou muito conhecida. Ainda lhe chamam a menina do gorilão da bola azul?

Esse vídeo teve mesmo muito sucesso. Em todo o lado diziam: “Olha a filha do gorilão da bola azul.” Recentemente foi também publicado um vídeo com a Xuxa e agora a toda a hora chamam-me Jessica, a personagem.

O Porta dos Fundos foi o ponto de viragem na sua carreira?
Muito mesmo. Eu antes fazia muitos musicais. O Porta deu-me mais visibilidade na rua, mas também em termos de trabalho. Eu faço parte do Porta desde o início, pequenas participações. No ano passado estava a fazer uma novela e, assim que acabei, o Fabio Porchat ligou-me para me convidar para entrar para o grupo fixo.

Fora das gravações são um grupo muito unido também?
Somos muito amigos. Não nos encontramos tanto quanto queríamos porque estamos sempre ocupados a fazer coisas diferentes. Mas todos os dias conversamos no grupo do WhatsApp.

Ainda se vai cruzar com um dos seus colegas em Portugal, o Gregório Duvivier, que está cá a fazer o monólogo “Uma Noite na Lua”.
Já combinei coisas com ele, gostava que também fosse ver o musical. Vamos ver.

Ele já lhe falou de alguma coisa tipicamente portuguesa que tem de provar?
Eu quero pastel de Belém. Quero muito.

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