Música

Clarice Falcão: “Neste momento nem sei se algum dia vou lançar outro disco”

A cantora brasileira está a preparar vários concertos em Portugal, embora não saiba se vai manter-se na música durante muito mais tempo. Já deixou o Porta dos Fundos mas, quando os colegas a chamam para fazer um sketch, nunca recusa.

Com apenas 18 anos fez uma curta-metragem na faculdade que venceu um prémio da Google e a levou ao Festival de Cinema de Sundance. “Laços” foi apenas o primeiro grande sucesso de Clarice Falcão, porque depois vieram o canal no YouTube, Porta dos Fundos, que ajudou a criar, e dois discos de originais.

É para apresentar “Problema Meu”, lançado este ano, que em outubro vai estar em Portugal para uma série de concertos — já há datas em Lisboa, Porto e Faro mas a agenda ainda não está fechada — mas entretanto está cá por uns dias e até adiou o regresso ao Brasil para não perder os festejos dos Santos Populares.

A mãe argumentista, Adriana Falcão, e o pai compositor e argumentista, João Falcão, não lhe deixaram muitas dúvidas sobre o que queria fazer na vida. Em miúda até escrevia livros que vendia aos familiares e agora continua a criar tudo aquilo que canta.

Leia a entrevista a Clarice Falcão e veja a versão de “Vagabunda”, que a cantora interpretou em exclusivo para a NiT.

Prefere que a tratem por cantora ou atriz?
Neste momento, acho que é por cantora, porque é o que eu estou a fazer mas tanto faz. Nunca sei o que escrever quando tenho de preencher papelada nos hotéis, por exemplo. Penso sempre: “Meu Deus, o que é menos piroso?”

Em outubro vai estar em Portugal para uma série de concertos. Já pensou em alguma coisa especial para esses espetáculos?
Eu tenho dois álbuns e nos concertos temos estado focados no mais recente mas eu não vim com a primeira tournée para cá, não tenho a menor ideia do que esperar. À partida vou trazer o espetáculo como ele está mas, dependendo da reação, posso sempre inventar umas coisas novas. Estou muito empolgada.

“Em miúda escrevia e vendia livros à minha própria família. Eles tinham de comprar”

Esteve cá há três anos com a equipa do Porta dos Fundos. Ficou com vontade de voltar a algum sítio ou de repetir alguma coisa?
Fiquei com muita vontade de comer de novo percebes. Quero muito.

Conhece alguma coisa de música portuguesa?
Gosto muito de António Zambujo mas no Brasil conhecemos pouco. No outro dia vi uma banda muito linda, não me lembro do nome, a música chamava-se “Um Contra o Outro”…

Deolinda?
Exatamente, achei tão bonito. Vi alguns vídeos deles e achei muito fofo. A vocalista é muito carismática.

Daqui até outubro pode combinar uma parceria com eles nos seus concertos.
Pois é, até tenho um dueto no concerto. Dá para termos umas ideias.

A sua mãe é argumentista, o pai é compositor. Cresceu nesse meio e era quase impossível sair dele mas alguma vez se imaginou a ter uma profissão muito diferente?
O que eu queria mesmo era trabalhar em cinema, ser argumentista. Na faculdade comecei a experimentar curtas-metragens e não tinha quem fizesse a música, quem atuasse, então eu fazia tudo. Por isso é que comecei a explorar todos esses lados. Eu cresci a ver o meu pai dirigir atores, já estava familiarizada. Mas, na realidade, quando era criança eu queria ser astronauta ou detetive.

É verdade que sempre inventou muitas histórias, desde cedo?
Inventava muitas histórias, fazia livros. A minha mãe, como escreve, contava histórias para nós adormecermos, inclusive inventou umas histórias sobre o detive Falcão (como nós nos chamamos Falcão). Não investigava homicídios mas era uma versão mais infantil, investigava coisas como o roubo das jóias.

E que livros é que a Clarice fazia?
Eram livros que eu escrevia e vendia para a minha própria família. Eles tinham de comprar, coitados, mas sempre era melhor do que me darem dinheiro de graça.

Ainda tem algum?
Não, toda a gente comprava e deitava fora.

Também participou numa novela “A Favorita”. Gostou desse tipo de trabalho ou não se enquadra naquilo que gosta de fazer?
Não gostei muito. A novela era ótima mas a personagem era pesada, muito dramática, não me encaixei. É muito corrido, não há tempo para inventar coisas, fazer novamente. Era muito diferente do que faço, por exemplo, no Porta dos Fundos, onde mesmo que o guião seja de outra pessoa, há abertura para inventar.

Afastou-se do Porta dos Fundos para se concentrar na música. É um adeus definitivo?
Eu saí mas já voltei para algumas participações especiais, sou muito amiga de todos. Quando me chamam, eu vou. Mas, em princípio, se saí, saí. Por um tempo quero mesmo concentrar-me na música.

Os seus dois discos são muito diferentes. O primeiro, “Monomania” (2013), parece mais pessoal e intimista porque é só a Clarice Falcão e uma guitarra. O segundo, “Problema Meu” (2016), tem banda e sonoridades diferentes. Qual é que tem mais de si?
É engraçado, acho que o primeiro tem mais personagens, aliás é como se fosse uma única personagem que conta várias histórias — uma pessoa que fala do exagero das pessoas apaixonadas. Ele é mais minimalista porque ainda estava a tentar encontrar-me como compositora e as pessoas nunca me tinham ouvido, queria valorizar as letras. Depois, como já tinha mostrado “é assim que eu faço”, deu para brincar, para passear por outros géneros e por isso o segundo disco tem mais lados de mim.

Não a incomoda o facto de, daqui a uns tempos, ter de continuar a cantar coisas que, por terem tantos elementos pessoais, podem já não fazer sentido uns anos depois de terem sido escritas?
É como quem faz tatuagens, podem até já não gostar delas mas quando as fizeram é porque gostavam. Faz parte da nossa história.

Ao colocar tantos elementos pessoais nos seus discos, é difícil depois fazer a separação entre o lado pessoal e o lado profissional?
Para a imprensa não há grande confusão porque tudo o que eu fiz foi bastante independente. Não apareço em revistas cor de rosa, ou aconteceu duas ou três vezes em todos estes anos. Já o público, às vezes sente que estamos tão próximos que acha que somos quase amigos. O Gregório [Duvivier, colega do Porta dos Fundos] e eu namorávamos, depois terminámos e mesmo assim as pessoas gritavam-me o nome dele na rua, quando já toda a gente sabia que eu não estava com ele nem ele estava ao meu lado na rua.

“Vi alguns vídeos dos Deolinda e achei muito fofo. A vocalista é muito carismática”

As pessoas também faziam muito essa confusão porque vocês contracenavam no Porta dos Fundos e ele entrava nos seus videoclipes?
Depois de nos separarmos publicamente as pessoas perguntavam: “Separou-se do Gregório? Porquê, conte-me.” Era constrangedor.

Continuam a abordá-la mais por causa do Porta dos Fundos, mesmo já tendo saído?
Há mais gente que conhece o Porta mas quem realmente vem falar comigo é por causa da música. A música toca em pontos bem mais pessoais, em sentimentos com os quais nos identificamos. Há gente que vem ter comigo para dizer que as minhas canções ajudaram a superar o fim de uma relação, a morte de um parente. Mesmo o cover que fiz de “Survivor”, da Beyoncé, houve gente que me disse que estava num relacionamento abusivo e que ganhou força para se separar.

É verdade que tem de se isolar para compor? Como é que faz, fecha-se em casa durante dois meses, por exemplo?
Na verdade, eu vou-me apaixonando pelos projetos. Neste momento nem sei se algum dia vou lançar outro disco, quando editei o primeiro também não sabia. Eu fui juntando os temas, achei que tinha cara de um projeto e lancei um álbum. Fiz uma tournée e depois comecei a dedicar-me mais a projetos como atriz. Um dia compus uma música, dois meses depois tive a ideia para outra. Chegou a um ponto em que vi que aquilo estava com cara de alguma coisa e juntei tudo.

O que é que quer fazer a seguir?
Tenho muita vontade de escrever um musical e em setembro estreia um filme, “Desculpe o Transtorno”, que eu protagonizo. Eu vou-me deixando levar, prefiro não fazer muitos planos, até porque nunca dão certo.

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