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Crítica: Um final sem misericórdia

SPOILER ALERT: Quinta temporada de "A Guerra dos Tronos" terminou esta segunda-feira em Portugal.
Foto de "A Guerra dos Tronos"

Apesar do título esperançoso — “Mother’s Mercy” — o último episódio de “A Guerra dos Tronos” veio mais uma vez comprovar que “all men must die” (todos os homens têm de morrer). Foi uma hora tão cruel para as personagens como para os espectadores, que terão de esperar um ano para saber mais sobre este final tão ambíguo. O episódio dedicou-se, essencialmente, à preparação da próxima temporada, uma vez que todas as personagens (as que sobrevivem) terminam num clímax gigantesco.

Seguem-se spoilers sobre o final da quinta temporada.

Nesta série não há certos e errados, há apenas escolhas e consequências. Esta temporada reforçou aquilo a que estamos cada vez mais habituados: o lado mais humano e moralmente correto nunca fica por cima, ao passo que os Bolton continuam com aquele sorriso desdenhoso estampado no rosto.

Vamos por partes. Stannis Baratheon (Stephen Dillane) estava a tornar-se numa personagem mais calorosa, até sacrificar a filha ao Red God no nono episódio. No entanto, essa escolha não teve o resultado esperado. Apesar da tempestade invernal acalmar, os seus homens, compreensivelmente, abandonam-no, tal como Melisandre (Carice van Houten), assim que percebe o que está prestes a acontecer. Ou seja, a batalha de Winterfell, entre Baratheons e Boltons, tem um desfecho tão lógico que é desnecessário filmá-lo. Vemos apenas os destroços e um Stannis quebrado, e é aí que percebemos finalmente a função de Brienne (Gwendoline Christie) nesta temporada: vingar a morte de Renly Baratheon (Gethin Anthony).

À semelhança do que acontece em Dorne, que parece um pedaço de terra completamente desconexo dos eventos principais, Brienne é uma personagem que nem sempre encaixa na adaptação dos criadores. Muito daquilo que fez baseia-se em coincidências, o que torna as suas ações pouco credíveis.

Ainda em Westeros, Cersei Lannister (Lena Headey) confessa parte dos seus pecados, o que a leva à medievalista “caminhada da vergonha” – uma forma de penitência religiosa. A cena está brilhantemente captada pelo realizador David Nutter e é um momento glorioso na carreia da atriz (ainda que tenha recorrido a um corpo duplo).Esta situação foi filmada na Igreja Católica de São Nicolau, em Dubrovnik, na Croácia, o que inicialmente desencadeou algum constrangimento devido à nudez num local sagrado.

Noutras zonas do mapa,Arya Stark (Maisie Williams) não consegue tornar-se “ninguém” e risca o primeiro nome da sua lista de vingança — o guarda real Meryn Trant. Mas a sua desobediência às regras da House of Black and White custa-lhe a visão. Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) teve uma dura jornada onde aprendeu as dificuldades de gerir um reino, um tema que obrigou a um ritmo mais lento, mas nunca menos rico. A rainha Targaryen acaba presa num descampado com Drogon e umas centenas de Dothraki. O que é que vai sair daqui?

O novo Lord Commander morre, ao estilo de Júlio César, de uma forma que tem tanto de trágico quanto de injusto

Por outro lado, em Mereen, Tyrion Lannister (Peter Dinklage), depois de um longo e perigoso caminho percorrido, fica encarregue de reinar,com a ajuda do eunuco Varys (Conleth Hill). O que é uma ótima promessa. Sansa Stark (Shophy Turner) teve uma progressão bastante cinzenta. Não se tornou a manipuladora que todos esperavam, nem se manteve a princesa dos anos anteriores. O seu futuro é uma grave incerteza, tendo em conta que escapa de Winterfell com aajuda de Reek — ou será que já lhe podemos chamar Theon (Alfie Allen)? E por último, Jon Snow (Kit Harrington) acaba traído e esfaqueado pelos seus irmãos da Night’s Watch. Depois de ter engendrado um plano pacifista para unir Wildlings e “Corvos” na “única batalha que interessa” – contra os White Walkers –, o novo Lord Commander morre, ao estilo de Júlio César, de uma forma que tem tanto de trágico quanto de injusto.

Embora os fãs estejam confiantes no regresso de Snow, o ator adiantou o seguinte ao site “Entertainment Weekly”: “Para já, o facto é que estou morto. Não vou entrar na próxima temporada. Se alguma coisa no futuro não corresponde a esta realidade, isso é nas cabeças de David, Dan e Martin. Eu não faço ideia.”

Os criadores David Benioff e Dan Weiss têm feito um trabalho assinalável na adaptação dos livros da saga “A Song of Ice and Fire”. Nos dois últimos livros – aos quais esta temporada corresponde – George R. R. Martin aprofunda as consequências da guerra ao estilo de um romance histórico. São volumes muito densos e demasiado construtivos para o formato televisivo. Por esta razão, muitos questionavam o sucesso da adaptação nesta fase, mas, mais uma vez, a HBO não desiludiu.

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