Música

Os momentos mais loucos da vida de Iggy Pop

Já se mutilou em palco, insultou os próprios fãs (e os portugueses) e inventou o stagediving. O norte-americano atua esta sexta-feira no Super Bock Super Rock.

Foi numa tarde de sol, em 1981, que Iggy Pop resolveu relatar a sua passagem por Portugal. Entre elogios à “comida barata” que encontrou na cidade do Porto, soltou comentários pouco simpáticos sobre os portugueses: um “país retrógrado” onde “reina a consanguinidade” e as pessoas “têm olhos cruzados e pés tortos”. Ninguém ficou surpreendido. Iggy é mesmo assim, politicamente incorreto e pouco dado a delicadezas.

De calças justas, tronco nú, energia imparável e olhar esgazeado em palco – é assim que se costuma apresentar em cada um dos seus espetáculos, seja a solo ou com a sua antiga banda, os Stooges. Um verdadeiro animal de palco. Ao longo de 50 anos, James Osterberg cultivou esta imagem de artista descontrolado. Mas será que é mesmo assim?

Rui Reininho, vocalista dos GNR, privou com o norte-americano durante a sua passagem por Portugal, no início da década de 90, e descreve-o como um “tipo pacato”, “simpático e muito, muito cool”. O encontro aconteceu no Meia Cave, o mítico bar portuense na Ribeira, depois de um espetáculo atribulado.

“Lembro-me de ter sido um espetáculo turbulento, um bocado barulhento, até porque o som não estava grande coisa. Depois do concerto, disseram-me que ele estaria pelo Meia Cave e passei por lá.”

“São raparigas?”, perguntou delicadamente Iggy, enquanto observava as duas groupies que acompanhavam Reininho. “Elas eram criaturas muito misteriosas, num estilo gótico, ambíguo, um pouco à imagem do Marilyn Manson. Eram bastante notáveis aqui na cidade”, explica.

Sobre as polémicas afirmações sobre Portugal e os portugueses, Reininho não condena Iggy: “São desabafos. Os portugueses por vezes deslumbram-se um bocadinho com aqueles ‘Hello Portugal’ ditos em cima do palco. ‘Hey, ele é fantástico’. Na verdade, a maior parte deles nem sabe sequer onde está. Não é difícil imaginar que, para os artistas, isto seja parecido com a Turquia ou algo que o valha. Vê-se muito pouco para lá do palco e por vezes ficamos com a imagem da pessoa em meras duas ou três pinceladas. As pessoas acham que somos o centro do mundo e, na verdade, não somos.”

Não há muito tempo, José Cid esteve no centro de uma polémica criada pelo reaparecimento nas redes sociais de um vídeo onde descrevia os transmontanos como “pessoas medonhas, feias e desdentadas”. Será que é mesmo assim que os artistas encaram o público? “Os anos 80 eram muito diferentes. Por vezes, nós tínhamos reações parecidas com essas. Havia localidades em Portugal que nós apelidávamos de triângulo das Bermudas, onde se viam gajos com kispos e uma atitude agressiva com coisas que lhes eram desconhecidas.” Hoje em dia, “as coisas são diferentes” e Reininho confessa até gostar mais de tocar em “locais mais recônditos”, onde “existe mais sinceridade nas pessoas”.

É um fã absoluto da música de Iggy – os GNR chegaram até a tocar uma versão de Nightclubbing nos espetáculos – e por isso revela a sua tristeza em não poder estar presente para ver o ídolo ao vivo pela terceira vez, no Super Bock Super Rock.

Aos sortudos que já têm bilhete e vão passar pelo festival do Parque das Nações, Reininho aguça o apetite: “Ao contrário das figuras da pop atual, que são coisas muito construídas – por exemplo, quando olho para a Taylor Swift vejo ali um vazio inócuo –, o Iggy é uma daquelas personagens que ficam na memória. Vai ser, como diriam os Mtny Python, ‘something completely different’.”

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