Cinema

Frente a frente: O velhinho e o novo Pátio das Cantigas

Chega hoje aos cinemas a reinterpretação do filme de 1942, agora dirigido por Leonel Vieira. A NiT foi rever a versão antiga, viu a nova e fala-lhe dos pontos comuns e divergentes dos dois filmes.

O novo filme começa com a descrição das personagens, uma voz forte, que parece ter sido trazida da versão orginal. A frase de abertura — “Já não tarda o Santo António, e eis o caso nunca visto das tentações do demónio do pátio do Evaristo” — é, no entanto, comum aos dois filmes. Faz sentido: em ambas as histórias, o ponto de partida é o mesmo, o Santo António, ainda que com enredos e comportamentos adaptados a cada década.

Em ambos os filmes encontra-se um mesmo ambiente, algumas relações idênticas entre as personagens, mas que não são copiadas do filme antigo.

Leonel Vieira quis “manter a estrutura da história, aquilo que dá corpo a todo o enredo”, procurando “um contraponto com tudo o que vemos nos dias de hoje”, como explicou à NiT. Por aí, a ideia funcionou. Vendo um e o outro filme encontra-se um mesmo ambiente, algumas relações idênticas entre as personagens, mas que não são copiadas do filme antigo. O cenário, nas ruas estreitas com pedra de calçada de um típico bairro lisboeta, com enfeites a sugerir festas populares, são idênticos.

As personagens

Evaristo, uma das personagens mais conhecidas do filme, mantém a mesma essência. Algo que Miguel Guilherme pretendia, e que Leonel Vieira esperava que acontecesse, não tivesse a escolha deste autor sido uma homenagem a António Silva, que interpretou o papel nos anos 40. A menina Celeste, filha de Evaristo, é aspirante a atriz, não a pianista como em 1942.

Narciso, interpretado por César Mourão, não foge muito à interpretação de Vasco Santana. Num campo talvez menos “ridículo”, já que no primeiro filme o ponto fraco da personagem é o álcool, que bebia por desgosto de amor, e evidenciava-o de um modo exagerado. No novo filme, são as “horas extra de trabalho” a que Narciso se sujeita (com as clientes turistas com quem trabalha) que dificultam a sua relação com Rosa.


Dona Rosa
é mãe de Maria da Graça, que emigra para o Brasil — isto na versão original. No novo filme, a menina Rosa e Maria da Graça são irmãs.

Também o russo que vive no bairro, na versão de 1942, é agora substituído por um casal de indianos. A filha deste casal é a Filha Shanta, muito menos conservadora que os pais, que desenvolve uma relação comJoca, o pintas do bairro, que passa som nas festas e substitui a personagem Engenhocas, que nos anos 40 também passava as músicas populares nas festas.

As tramas

A menina Celeste é, nos dois filmes, a menina do papá aos olhos de Evaristo, e uma jovem provocante para todos os outros. No novo filme, namora com João Magrinho, um dos funcionários da mercearia gourmet de Evaristo. Já no filme original, João Magrinho tem mais protagonismo e apenas se junta a Celeste no final do filme. O namoro de Celeste é talvez uma das cenas que mais contrastam as épocas: no primeiro, Evaristo procura um homem para casar a sua filha, no segundo, nem desconfia que João Magrinho passa noites lá em casa.

Além de encantar todos com a sua voz, Amália tem a mesma atitude dominante sobre a irmã Susana em ambos os filmes. Já Susana, é mais recatada no segundo filme, mostrando um contraste maior para com Amália. No filme original, Susana é mais conservadora, mas em termos de beleza, não há tanto contraste.

O enredo mais central do “Patio das Cantigas”, o triângulo amoroso entre Narciso, Evaristo e Rosa, tem a mesma essência, embora as realidades sejam distintas. No primeiro filme, todos são pais e têm aproximadamente a mesma idade. Já no novo “Pátio das Cantigas”, Evaristo é mais velho que Rosa e Narciso, além disso, é mais acarinhado por Rosa, que por sua vez parece mais conservadora.

Ao contrário da versão original, no novo filme há tramas secundárias que não são muito exploradas, com histórias fechadas um pouco à pressa.

Ao “Pátio das Cantigas”, seguem-se mais duas adaptações de clássicos portugueses. O próximo será “O Leão da Estrela”, terá grande parte do elenco do “Pátio das Cantigas”, e tem estreia prevista para o Natal. O terceiro a ser filmado sairá cinco meses depois e completa o ciclo de reinterpretações dos clássicos portugueses deste projeto “Novos Clássicos”.

Haverá ainda uma mini-série do “Pátio das Cantigas”, a passar na RTP. Também os filmes serão transmitidos no canal público, mas apenas um ano após a sua estreia.

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