Cinema

Anselmo Ralph: “As pessoas que trabalham comigo são sempre mais stressadas do que eu”

A NiT falou com o cantor e com o realizador do documentário “Vontade de Vencer”, que estreou esta quinta feira.

Quase uma hora e meia depois da hora combinada, Anselmo Ralph tentou animar o ambiente assim que chegou à estreia do documentário no centro comercial Colombo, em Lisboa. “Depois de terem esperado tanto, espero que gostem do filme. Se não gostarem muito, que gostem pelo menos um bocadinho”. O músico ficou retido nas gravações do programa da RTP, “The Voice”, onde é jurado. “Vontade de Vencer” estreou esta quinta-feira em Portugal.

O realizador, André Banza, acompanhou o músico durante dez meses. O documentário revela os bastidores dos concertos e pormenores da vida íntima de Anselmo Ralph. Há revelações inéditas, como o facto de o angolano ter sido vítima de bullying.

A NiT falou, em exclusivo, com o músico e com o realizador. Leia as duas entrevistas completas e veja o vídeo com as melhores respostas de Anselmo Ralph na NiTtv.

Anselmo Ralph: “Considero Portugal a minha segunda casa”

O que é que este documentário representa para si?

Eu digo que este documentário é a espinha dorsal da minha vida profissional e pessoal. É claro que não deu para descortinar tudo – mostramos uma boa parte do que foi a minha infância, a minha vivência nos Estados Unidos, a minha relação com Portugal (que considero a minha segunda casa) e a minha vivência em Angola.

O filme é muito íntimo. Foi difícil para si ter esta exposição?

Sim. Foram necessários estes trinta e poucos anos para eu me sentir à vontade para revelar algumas coisas sobre mim. Muitas delas não são fáceis – eu acredito que muitas pessoas que passaram por bullying, ou por outras situações difíceis que as tenham marcado, percebam que, por vezes, preferimos não falar. Eu sou aquele tipo de pessoa que, pela forma como cresci, sempre preferi não falar do assunto, mas não encorajo essa prática. Encorajo, sim, que os miúdos que passem por bullying aprendam a falar.

O sucesso foi escalando e com ele os objetivos. A partir de agora, qual é o grande objetivo?

Acho que temos de dar um passo de cada vez. Tenho um novo contrato com a Soniberia – cinco anos para três discos em espanhol – e vamos ver se, em Espanha, a coisa corre tão bem como correu em Portugal, em Moçambique, em Cabo Verde e principalmente em Angola.

Esse otimismo, de que tanto fala, tem-no ajudado?

Ajuda sempre. Todas as pessoas que trabalham comigo acabam por ser sempre mais stressadas do que eu: “Ahi tudo tá a cair! Tudo abaixo!” – e eu digo: “Calma…” [risos]. O otimismo é isso. “O que não tem solução solucionado está”, eu penso sempre desta forma. Tenho também muita fé e muita crença em como as coisas hão de vir ao de cima. A vida tem de ser difícil. A arte tem de ser difícil. O que fizermos por paixão tem de ser difícil para nós crescermos.

O que é que o levou a largar a gestão para se dedicar à música?

Uf… Os números [risos]. Não me via confinado num escritório. Eu gosto, e sempre gostei, de coisas diferentes. Desde miúdo fui sempre muito ligado às artes. Primeiro foram os desenhos animados – queria ser cartoonista –, se não desse queria ser fashion designer – desenhava muitos ténis! Estava muito focado no desenho até vir para música. E sou também um fã, fã, fã da sétima arte. Um dos cursos que eu quero fazer é o de realização.

André Banza: “Ele passou por situações extremamente complicadas”

Como é que foi filmar a vida de Anselmo Ralph?

Foi um desafio enorme. Acabámos por passar mais ou menos dez meses com ele, não só no estúdio, mas também na tournée – andámos constantemente em viagens. E foi muito complicado no sentido logístico – não é fácil acompanhar alguém de uma forma tão pessoal, e nós queríamos captar tudo o que estava a acontecer com o Anselmo.

O documentário é muito íntimo.

Sim. A ideia foi sempre tentar revelar aquilo que o Anselmo estava a passar – as emoções das situações a que ele era exposto – e também tentar perceber o porquê do fenómeno. Queríamos perceber o que havia por detrás deste Anselmo que se tornou global, não só em Portugal e Angola, mas também na Europa.

O que é que descobriu sobre o Anselmo ao longo desses dez meses?

Que ele é muito humilde. Muito mais do que aquilo que eu achava para alguém que está constantemente exposto ao público e com o papel de host ou convidado – como acontece em “The Voice”. Está sempre em concertos, a dar autógrafos, e, mesmo assim, é muito tímido e recatado. Isso foi um bocadinho difícil de negociar – não foi fácil convencê-lo a partilhar um pouco dessa emoção, que, para ele, é só dele. Mas depois conseguimos encontrar um caminho que era dos dois: aquilo que eu queria fazer e que ele também queria revelar.

Sentiu que parte do otimismo dele ajudou?

Completamente. Costumo dizer que foi uma viagem que fizemos e que nos mudou a todos. Eu não o conhecia, mas encontrei alguém que tinha passado por situações extremamente complicadas – a maior parte das pessoas desistiria, se passasse por algumas dessas coisas, e ele não. Foi sempre muito positivo e foi encontrando cada vez mais barreiras para superar e conquistando ainda mais as pessoas. Nesse sentido, o Anselmo é uma pessoa única, com uma motivação que nos levou ao nome do filme – “Vontade de Vencer.

Esta é a sua estreia no mundo dos documentários.
É a minha primeira longa metragem. Já tinha feito algumas coisas documentais, mas em televisão, e isto também me interessou muito por ser algo ligado à música. Espero que as pessoas gostem do filme, que tem muito mais para ver do que apenas um performer. É um filme sobre a cultura de um país – é isso que o Anselmo representa.

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