Cinema

Crítica: “Capitão Fantástico” guia-nos numa jornada emotiva e cheia de humor

Viggo Mortensen vive com a família no meio de uma floresta idílica mas é forçado a regressar à realidade.

No meio de uma floresta vive uma família com seis filhos. Longe da civilização por opção, foi assim que Ben (Viggo Mortensen) e Leslie (Trin Miller) criaram esta comunidade que se resume a eles e aos miúdos, onde todos são tratados como mini adultos, as verdades são ditas de forma crua, e caçar é um ritual de iniciação. Este foi o mundo com que sempre sonharam, repleto de ideais, mas quando Leslie se suicida, os ideais caem todos por terra, por mais que Ben tente continuar como se nada tivesse mudado.

É aqui que entra o realizador Matt Ross — neste que é apenas o seu segundo filme, depois de “28 Hotel Rooms”, de 2012 — , com um corte que vai fazer estas personagens entrarem no mundo real, aquela sociedade que todos os outros conhecem e que eles abominam, o que produz uma história cheia de drama, ternura, gargalhadas e muito choro. “Capitão Fantástico” está nos cinemas portugueses desde quinta-feira, 15 de setembro.

Viggo Mortensen é o patriarca, um homem que faz os filhos escalarem com chuva, treinar como se fossem militares mas simplesmente porque acha, de facto, que tem de os preparar para tudo, para sobreviverem, para saberem desenrascar-se sozinhos. Acredita em tudo aquilo que defendeu até agora e está empenhado em continuar. Ao mesmo tempo não sabe lidar com o facto do filho mais velho, Bodevan (George MacKay), se ter candidatado e entrado nas melhores universidades do país — acha que é uma traição — e muito menos com a rebeldia de Rellian (Nicholas Hamilton), que quer ir à escola, festejar o Natal e ter uma vida como todos os miúdos da sua idade.

Se Mortensen não nasceu para este papel, este papel nasceu sem dúvida para ele — tinha o seu nome escarrapachado, mesmo que ao olharmos para a ficha técnica, a nossa primeira reação seja questionar esta escolha. Barbudo, com atitudes por vezes rudes, começa por ser um homem seguro da sua missão para depois se debater com uma série de conflitos interiores e isso é transparente na sua interpretação. Quando ele toma uma decisão pelo bem dos filhos, não abandonando os seus princípios, nós choramos com ele. Podemos não entender a escolha mas temos compaixão pela sua luta. O ator mostra tantas camadas diferentes de uma só personagem que parece que andou toda a vida a treinar para isto.

Os miúdos são todos incrivelmente bons, desde os adolescentes aos mais pequenos, que têm reações tão genuínas que nos esquecemos de que naquele momento tinham câmaras, cabos e uma equipa técnica em cima deles e que provavelmente repetiram aquilo dezenas de vezes. Tal como dentro do clã, o realizador deu a cada um tempo de antena para brilhar e mostrar a sua personalidade única.

As paisagens são saídas de um postal, com montanhas a perder de vista, cascatas infinitas e ruídos da natureza e dos animais. A isto junta-se o guarda-roupa hippie, despreocupado e com cores vivas, responsabilidade de Courtney Hoffman, que costuma trabalhar nos filmes de Quentin Tarantino.

“Capitão Fantástico” é uma verdadeira montanha-russa de emoções que liga dois mundos extremamente diferentes, um despojado de bens materiais mas que transmite paz, o outro com a correria de um dia a dia caótico, com miúdos à mesa a mexerem nos smartphones. O final pode ser a única desilusão do filme. Não compromete e, ao mesmo tempo, compromete-se com um meio-termo para o bem de todos.

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