Cinema

Paula Hawkins: como a autora falida escreveu o livro mais vendido de 2015

Aos 41 anos precisava do dinheiro do pai para sobreviver. Depois, "A Rapariga no Comboio” fez dela milionária e chega ao cinema esta quarta-feira, 5 de outubro.
Foto de Steve Zak/Getty Images

“The Reunion” chegou às lojas em 2013 e vendeu pouco mais de mil exemplares. Os lucros não chegavam, obviamente, para que Amy Silver conseguisse viver da escrita. Sim, leu bem, Amy Silver, o pseudónimo que Paula Hawkins usava nessa altura para escrever ficção. Antes já tinham sido editados “Confessions of a Reluctant Recessionista”, “One Minute to Midnight” e “All I Want for Christmas”. Todos tinham tido o mesmo sucesso. Ou seja, nenhum.

A autora britânica tinha 41 anos, estava falida e vivia já com a ajuda financeira do pai. Escrever “A Rapariga no Comboio” (editado em Portugal pela Topseller), já com o seu verdadeiro nome, foi, como a própria admitiu em entrevista ao “The Telegraph”, “a última cartada como escritora de ficção”. Fechou-se em casa e terminou o thriller em seis meses.

Em pouco mais de um ano, a obra foi traduzida em mais de 40 línguas e publicada em 50 países. Resultado: 15 milhões de cópias vendidas. Em Portugal foi também o livro mais comprado de 2015.

Mas houve quem não precisasse de ver o sucesso nas livrarias para perceber o potencial da história. A DreamWorks, produtora fundada por Steven Spielberg, comprou os direitos para o cinema ainda antes da publicação, em 2014. O resultado chega esta quinta-feira, 5 de outubro, às salas portuguesas, num filme realizado por Tate Taylor (“As Serviçais”) e protagonizado por Emily Blunt (“Sicário”).

Hawkins conheceu a atriz — que interpreta Rachel Watson, uma alcoólica que apanha todos os dias o comboio e observa as pessoas do lado de fora, até ao momento em que vê algo que vai mudar a vida dela e não só — numa visita às filmagens.

“Ela é obviamente mais bonita do que a forma como eu imaginava a Rachel, que tem excesso de peso, mas está tudo no modo como carregamos a personagem. É assim que ela [Emily Blunt] transmite os danos”, explicou ao “The Telegraph”. A escritora chegou a filmar uma participação no filme mas a cena acabou por ser cortada.

No entanto, ela não se importou minimamente. Aliás, nem sequer quis estar envolvida na adaptação (contrariamente ao que aconteceu com E.L. James e “As Cinquenta Sombras de Grey”, Gillian Flynn e “Em Parte Incerta” ou com J.K. Rowling e “Harry Potter”). O argumento ficou a cargo de Erin Cressida Wilson, que moveu a história de Londres para Nova Iorque. A escritora até considerou que ficou tudo “mais bonito”.

Os maiores luxos resumiram-se a viagens para os pais, férias com amigos nos alpes franceses e uma capa para a antestreia do filme

De acordo com a revista “Forbes”, em 2016, Paula Hawkins ficou em 11.º lugar dos escritores mais lucrativos no mundo, tendo conseguido 8,9 milhões de euros.


Contudo, não é por isso que agora esbanja dinheiro. Os maiores luxos resumiram-se a viagens para os pais a visitarem numa tournée para o livro na Austrália, férias com amigos nos alpes franceses e uma capa da Erdem que lhe custou 1900 euros e que usou na antestreia do filme em Londres, em setembro.

Vive numa casa em Clerkenwell, no centro de Londres, para onde se mudou recentemente mas antes tinha um pequeno apartamento em Brixton. Era nas viagens que fazia daí até aos outros pontos da cidade que observava casas e pessoas, imaginando as suas vidas e segredos. Nascia assim a ideia para “A Rapariga no Comboio”.

Paula Hawkins nasceu no Zimbabué, a 26 de agosto de 1972, e lá viveu até aos 17 anos. Só depois se mudou para Londres, em 1989. No Keble College, em Oxford, estudou Filosofia, Economia e Ciências Políticas, tendo mais tarde trabalhado como jornalista no “The Times”. Tornou-se freelancer e escreveu um livro com conselhos financeiros para mulheres, “The Money Goddess”, antes de inventar o pseudónimo Amy Silver, em 2009.

Não tem filhos e sempre soube que não queria ser mãe. Já revelou que namora com um advogado mas nada mais se sabe sobre a sua vida pessoal. Aos 44 anos, garante que não consegue adaptar-se à fama e o estrondosos e repentinos elogios ao seu primeiro thriller deixara-na dividida.

“Preocupei-me durante tanto tempo com a minha situação financeira, o que estava a fazer com a minha vida, que senti um alívio, e depois medo, com a realização de que quando algo começa a funcionar muito bem, muitas pessoas vão ler, e isso deixa-nos bastante vulneráveis”, admitiu ao jornal “The Guardian” em dezembro de 2015.

Atualmente a escrever uma nova obra, tem de lidar com a pressão mediática que não conhecia antes. “Dizem-me que melhora bastante depois do segundo livro.”

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