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As histórias mais incríveis do Opus Dei e da Maçonaria em Portugal

Catarina Guerreiro, autora de ”O Fim dos Segredos”, investigou as duas organizações durante mais de três anos.

Quando um novo membro entra no Opus Dei, é-lhe imediatamente atribuída uma função. Há menores que se comprometem a dedicar-se à organização, a não namorar e a “mortificar-se” diariamente — o que implica usar um cilício na perna ou bater com um chicote no corpo. Se alguém decide deixar esta instituição que pertence à igreja, a separação não é fácil. Muitos acabam por desistir porque se afastaram da família, por não terem amigos e depois de entregarem todo o seu dinheiro. Alguns ficam até com depressões graves.

“Está a chover”, dizem os membros da Maçonaria quando alguém que não pertence ao grupo está ou pode estar a ouvir uma conversa. Há rituais e lojas maçónicas que continuam a não aceitar mulheres.

Catarina Guerreiro reuniu em “O Fim dos Segredos” (editado pela Esfera dos Livros) a história e os pormenores mais surpreendentes destes dois mundos, o que têm em comum e o que os separa. Durante cerca de três anos, a jornalista juntou documentos e falou com mais de 50 pessoas.

“Havia quem achasse que eu nunca ia terminar”, conta à NiT.
No entanto, garante: “Acabei a investigação no momento em que senti que estava em condições de relatar às pessoas tudo o que se passava nestas duas organizações.”

Veja o vídeo da história mais surpreendente que Catarina Guerreiro descobriu e saiba mais, em baixo, sobre outros detalhes que impressionaram a autora.

O que têm em comum a Maçonaria e o Opus Dei
Não gostam de revelar as coisas cá para fora e têm uma linguagem própria. No Opus Dei, dizem “quando eu apitei” — apitar é entrar. Têm músicas exclusivas, que não gostam que se divulgue e orações próprias. Na Maçonaria também há códigos — o copo é o canhão, o champanhe é pólvora exclusiva. Têm códigos, cumprimentos e formas de viver muito próprias. Nas duas, para se integrarem, os membros têm de prestar provas ao longo dos anos. Na Maçonaria é mais rápido, cerca de três anos, e no Opus Dei seis anos e meio.

Quais são as maiores diferenças
No Opus Dei só os católicos é que são membros. Na Maçonaria também podem ser católicos hoje em dia, mas à partida não.

Qual é o papel das mulheres
Numa e na outra, as mulheres não têm nenhum poder em relação aos homens. No Opus Dei, há nove que mandam nas mulheres todas portuguesas mas são sempre supervisionadas por homens. Não se podem aproximar dos homens e as casas onde vivem parecem um único edifício por fora mas estão divididas por dentro. Chegam a ter portas ou fechaduras duplas, nunca podem entrar com uma só chave. Homens e mulheres comunicam essencialmente por telefone. Só os padres é que entram nas casas femininas, e mesmo assim com muitas regras, para que possam confessar-se e dar alguns conselhos espirituais. Até aos 40 anos, elas dormem em tábuas e as empregadas domésticas passam a vida a trabalhar, a mortificar-se e a rezar.

Na Maçonaria, as duas principais obediências não deixam entrar mulheres. Surgiu posteriormente uma só para mulheres, tem 400 neste momento. São muito mais discretas do que os homens, não gostam de ser mediáticas e também têm rituais.

Como é que os membros são formados
No Opus Dei os membros são sujeitos a uma intensa formação, mesmo não sendo padres. Eles promovem muito a boa formação, gostam que as pessoas tenham capacidade profissional grande. Quando são escolhidos para numerários, os mais importantes, têm de ter um curso superior cá fora e depois, lá dentro, têm de frequentar um centro de estudos, a que eu chamo mini-universidade no livro — têm aulas de Teologia, Filosofia, Castelhano, Latim. Muitos deles têm uma formação quase superior a muitos padres. É entre estes, na maioria das vezes, que decidem quem é que depois vai para padre. Os padres do Opus Dei (são 28) são muito conservadores, têm regras rígidas, não se deixam fotografar vestidos normalmente e é-lhes aconselhado terem um corte de cabelo austero.

Quais são as mortificações
No Opus Dei, para além do cilício e da disciplina, eles estão constantemente a mortificar-se. Tomam um duche de água fria em nome de alguém, privam-se de muitas coisas do dia a dia.

Como é feito o controlo
Os membros do Opus Dei não podem ir a espetáculos, não é aconselhável lerem certos livros, não podem ouvir o que quererem. Têm um controlo muito apertado da vida social e alguns também não podem ir ao médico sozinhos, ir às compras, comprar roupa. Há ainda reuniões com os superiores, onde têm de contar todos os sentimentos, dos mais íntimos aos mais banais.

Quais são os relatos de quem abandona o Opus Dei
Entre as pessoas que saem, há bastantes críticos sobre a forma como o Opus Dei os tratou. Uns gostaram de lá estar e têm boas recordações mas muitos dizem que viveram uma ambiguidade, porque os obrigavam a seguir uma série de regras, como prometer que não tinham namoradas, que não casavam, quando eles não tinham nenhuma vocação para isso. Enquanto estão lá dentro sentem que há um controlo muito grande sobre o dia a dia, acabam por ter esta família nova que os afasta da família de sangue. Muitos ficam com depressões grandes, nem conseguem sair porque viveram ali anos e anos um mundo à parte, não têm nada. Como todos os meses dão o dinheiro à obra, acabam por não ter nada deles. Quando querem sair, sentem-se impotentes. Os que conseguiram sair, deram a volta e hoje têm dias normais. No entanto nunca é uma coisa pacífica. É violento para ambas as partes. Muitos deles nem têm emprego, trabalham para a obra.

Qual é o património do Opus Dei
Eu achava que tinham algum dinheiro mas têm um património milionário, apesar de não terem nada em nome da organização. No fundo, controlam, através dos membros, uma série de instituições, imóveis espalhados pelo País, mas nada está em nome do Opus Dei. Apenas dois jazigos — alguns numerários, como não têm família, ficam ali. É impossível saber o valor exato porque só a fundação tem um valor no registo de 50 milhões mas toda a gente me diz que é impossível saber qual é o valor do património.

Como funcionam as lojas maçónicas
Para além da Maçonaria que nós conhecemos — as chamadas lojas onde se reúnem para fazer rituais —, há uns grupos muito mais secretos que fazem rituais até ao grau 33, onde usam chapéus, capas de cavaleiros e espadas e fazem uns rituais muito mais esotéricos. Nem toda a gente participa nessas reuniões, são só para os mais importantes. É um mundo paralelo que existe dentro da própria Maçonaria, é muito prestigiante fazer parte dele mas é difícil lá entrar.

Os segredos da comunicação
Os apertos de mão, os sinais, as pequenas palavras que usam para se reconhecerem. Por exemplo, se estiverem a falar e virem alguém a aproximar-se que não querem que oiça a conversa, dizem “Está a chover”. Significa que alguém de fora da Maçonaria está a ouvir ou ode vir a ouvir a conversa.

O regresso de Isaltino Morais
Recentemente o Isaltino Morais voltou a ser maçom. Esteve preso e teve de sair e agora em setembro foi escolhido para liderar uma importante loja de uma das obediências, a Mercúrio, e quando foi instalado agradeceu a solidariedade no período em que esteve preso. Criou imensa polémica não só por ser reintegrado, mas por ser eleito líder.

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