A avaliar pela amostra dos álbuns já lançados durante este primeiro mês e meio, 2026 vai ser um ano vibrante para a música, marcado por regressos nostálgicos e uma forte afirmação da produção nacional.
Entre 1 janeiro e 15 fevereiro, o mercado foi inundado por sonoridades que vão do pop eletrónico ao rock progressivo, confirmando que a indústria está em plena fase de reinvenção, sendo que representam apenas uma parte dos 40 álbuns previstos apenas para o primeiro trimestre.
O ano abriu simbolicamente a 1 de janeiro com Miguel Araújo e o seu “Por fora ninguém diria”, um trabalho íntimo escrito e produzido inteiramente pelo artista durante os últimos três anos.
A meio de janeiro, Pedro Abrunhosa quebrou um silêncio de cinco anos com “Inverbo“. Este nono disco de estúdio do artista foca-se na “plenitude poética da palavra”, explorando o lado mais cru das suas composições.
Dengaz também pôs fim a um hiato criativo de quase 10 anos e lançou “O Que Não Se Vê É Eterno”, um disco onde procurou libertar-se “do peso do seu próprio passado musical.
Coletivos como os Cara de Espelho ou os Mães Solteiras, também estão representados entre as novidades, ambos com “álbuns de manifesto” que aprofundam a crítica social com letras irónicas.
As sonoridades de fusão são outra das grandes apostas de 2026, com nomes tão distintos como os Bandidos do Cante ou Bruno Pernadas, que lançaram discos que extravasam as categorias de um só estilo musical.
Descubra os 12 álbuns lançados em Portugal desde o início do ano que vamos ouvir em loop nos próximos meses.
Miguel Araújo
“Por Fora Ninguém Diria“ foi, literalmente, o primeiro grande lançamento do ano, a 1 de janeiro. Gravado de forma quase secreta, entre 2023 e 2025, o álbum reúne 11 canções inéditas totalmente escritas e produzidas por Araújo. É o seu trabalho mais pessoal e artesanal, mantendo a sua marca registada: “melodias orelhudas“ com histórias do quotidiano.
Mães Solteiras
Um dos lançamentos mais interessantes e refrescantes da música portuguesa neste início de 2026 chegou a 6 de janeiro. Mães Solteiras, o nome do coletivo formado por Quim Albergaria (PAUS, The Vicious Five), André Henriques (Linda Martini), Ricardo Martins (Lobster) e Pedro Cobrado (Men Eater, If Lucy Fell) já carrega uma carga de ironia e realismo social.
Fugindo às convenções do pop comercial, o álbum “Vamos Ser Breves“ surge como uma obra de intervenção moderna, que mistura o quotidiano urbano com uma sonoridade crua e direta.
As 13 canções, “gravadas num dia e meio”, funcionam como um manifesto para “um tempo de pressa, mas que não abdica da profundidade”. As letras abordam temas como a exaustão emocional, a precariedade e a beleza das pequenas vitórias do dia a dia, muitas vezes através de uma perspectiva feminina e urbana.
Bandidos do Cante
Após conquistarem o público com temas como “Amigos Coloridos”, “Já Não Há Pardais no Céu” e “Um Dia Hei de Voltar”, este último em colaboração com Buba Espinho, os alentejanos Bandidos do Cante lançam o seu trabalho de estreia, “Bairro das Flores”, a 9 de janeiro.
Mais do que uma coleção de canções; funciona como uma viagem sonora entre o campo e a cidade. Ao longo das oito faixas, o grupo explora a herança do Alentejo sob uma lente urbana, quase “noir”.
A sonoridade do álbum destaca-se pelo uso de samples orgânicos (sons de passos, vento, ferramentas agrícolas) misturados com sintetizadores analógicos e batidas de trip-hop. O coro polifónico mantém-se fiel à técnica do Cante, mas as letras afastam-se dos temas rurais clássicos (o trigo, a ceifa) para abordar a solidão urbana, a gentrificação e a saudade moderna. “Não podemos dizer que é um álbum de cante alentejano, mas as suas raízes estão lá”, explicou o grupo.
Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago
O resultado do encontro deste trio de artistas é uma verdadeira celebração da lusofonia e da música negra contemporânea. O disco CRIOLO, AMARO E DINO, lançado a 15 de janeiro, viaja entre o fado, o samba, o jazz e o afro-beat. Do rap e da poesia de São Paulo (Criolo), ao piano jazzístico revolucionário de Pernambuco (Amaro Freitas) e às raízes cabo-verdianas com a pop eletrónica de Portugal (Dino D’Santiago), o álbum constrói “uma ponte sonora única sobre o Atlântico”.
Pedro Abrunhosa
O lançamento de “Inverbo”, a 16 de janeiro marca o fim de um hiato de cerca de sete anos desde o seu último álbum de originais (“Espiritual”, 2018). Este nono disco de estúdio de Pedro Abrunhosa, gravado com os Comité Caviar, reúne 11 faixas atravessadas por “um tom introspectivo”.
Criado em torno do conceito “o avesso das canções“, o artista descreve “Inverbo” como um disco focado na “plenitude poética da palavra”. É um trabalho que “chega sem pressa”, onde a música serve como “uma nuvem que envolve letras profundas e meditativas”. O próprio título sugere uma imersão “no verbo“ (na escrita/poesia), reforçando a ideia de que a canção se enraíza e perdura através da palavra.
Luca Argel
“O Homem Triste”, o novo trabalho do músico brasileiro radicado em Portugal, foi editado a 23 de janeiro. Produzido por Moreno Veloso, este álbum-conceito mergulha na “saúde mental masculina e na política das emoções”.
Argel consegue fundir o samba com a sensibilidade da canção portuguesa, um feito que resulta num disco “tão denso quanto belo”. Fiel aos seus temas habituais, o músico volta a abordar o seu descontentamento com o estado do mundo, as heranças coloniais e o peso de ser homem no século XXI, questionando masculinidades e a solidão das grandes cidades.
Musicalmente, “O Homem Triste” afasta-se do samba tradicional de roda e da MPB para abraçar “uma estética mais indie-pop e art-rock”.
MARO
Em 2025, MARO foi uma das 10 artistas mais ouvidas por outros músicos no Spotify, globalmente. Esse respeito da comunidade artística nota-se na produção “extremamente cuidada” do seu novo álbum, embora sem perder aquela “presença vocal quase sussurrada” que é a sua marca registada.
“SO MUCH HAS CHANGED”, lançado a 27 de janeiro de 2026, marca um ponto de viragem luminoso e maduro na carreira da vencedora do Festival da Canção em 2022. Escrito no período em que a artista completou 30 anos, é “uma celebração da mudança; não daquela que assusta, mas da que traz clareza, gratidão e auto-aceitação”, nas palavras da própria.
Ao contrário de “Hortelã” (2023), que apresenta um registo cru e despido (apenas voz e guitarras), este novo trabalho traz uma “sonoridade mais solar, rítmica e de banda completa”. O disco é quase inteiramente cantado em inglês, e reúne 10 faixas que fundem o indie-pop atmosférico com texturas orgânicas de percussão e guitarras, criando um som que MARO diz ser “perfeito para conduzir ou para nos prepararmos para sair”.
Carolina de Deus
“FELIZ(MENTE) TRISTE“, o segundo álbum de originais da artista, lançado a 29 de janeiro, nasceu da “consciência de que se pode ser tudo ao mesmo tempo”.
É descrito como um disco honesto, feito de despedidas, recomeços e descobertas pessoais. As canções transformam emoções contraditórias e complexas, e a vulnerabilidade torna-se força, a fragilidade revela identidade. “Quando esta complexidade é aceite, talvez se encontre uma forma mais completa de felicidade”, defende a artista. “Este álbum nasce do lugar onde a tristeza já não me pára, faz-me avançar, onde a mente sente tudo — e eu deixei”, acrescenta Carolina.
Cara de Espelho
O segundo álbum deste supergrupo (que reúne membros dos Ornatos Violeta, Deolinda e Gaiteiros de Lisboa), editado a 30 de janeiro de 2026, é uma crítica social afiada disfarçada de música popular. Este lado “B” do coletivo aprofunda a experimentação musical e a identidade lírica incisiva que os tornou um dos projetos mais interessantes dos últimos anos.
Dengaz
“O Que Não Se Vê É Eterno”, lançado a 6 de fevereiro, marca um momento decisivo na carreira do artista. Ao chegar à fase final do álbum, percebeu que o projeto vive de dualidades: representa, por um lado, o encerramento de um ciclo (quase 10 anos desde o último trabalho, com poucos lançamentos nesse intervalo) e, por outro, o primeiro passo de uma nova fase.
De forma orgânica e pouco planeada, o disco foi ganhando dois universos visuais e sonoros distintos, que se cruzam ao longo das 19 faixas, com inspirações que passam pelo Brasil e pelo Japão, criando um equilíbrio entre contraste e coerência. Durante o processo criativo, Dengaz procurou libertar-se “do peso do seu próprio passado musical, evitando influenciar-se, positiva ou negativamente, pela obra que construiu até aqui”.
Mike El Nite
O artista lançou “Existencisensual” a 6 de fevereiro, trabalho que marca os seus 10 anos de carreira. O conceito deste disco conceptual gira em torno de um alter ego, — Simplesmente Miguel, — inspirado nos cantores românticos e artistas de variedades que animavam os bares de música ao vivo em Lisboa nos anos 80 e 90.
A narrativa do álbum acompanha “uma noite de trabalho de um artista num bar, explorando a dualidade entre o espetáculo em palco e os pensamentos existenciais (e solitários) de quem entretém o público”. Com uma sonoridade totalmente inesperada, o disco é uma mistura audaz de italo-disco, city pop japonês, jazz-fusão e até música romântica portuguesa (que o próprio cantor descreve como “algo produzido pelo compositor Ricardo Landum, se ele vivesse em Tóquio”).
Bruno Pernadas
O próprio músico descreve o seu quinto álbum de originais, “unlikeky, maybe”, lançado a 13 de fevereiro, como um “disco de transição”. Conta com as vozes de Margarida Campelo, Leonor Arnaut, Lívia Nestrovski e Maya Blandy (no single “Juro que vi túlipas”).
As nove canções apresentam uma sonoridade que combina influências dos anos 80, Indie, Pop, Dancehall; traços da “cultura sound system jamaicana” das décadas de 50 e 60 e “a espiritualidade dos mestres do Jazz” da década de 60. Parte do álbum foi gravada no próprio apartamento de Bruno, em pleno dia, e sem isolamento acústico, o que lhe confere, segundo a crítica, “uma textura muito orgânica”.
“unlikeky, maybe” reafirma Bruno Pernadas como um dos compositores mais inventivos da sua geração. Ao contrário da trilogia que encerrou com “Private Reasons”, este disco foca-se mais num processo colaborativo com a sua banda, resultando num som “mais livre”. O músico vai apresentar o disco na Culturgest nos dias 19 e 20 de fevereiro (bilhetes a 18€), embora a primeira data já esteja esgotada. Também vai estar em Espinho no dia 21.

LET'S ROCK







