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As histórias de bastidores de “Squid Game: The Challenge”: o bom, o mau e o horrível

Comida intragável, traições e decisões difíceis. O reality show é um sucesso — mas está a ser alvo de muitas críticas.
O final da primeira temporada estreou a 6 de dezembro.

“Isto foi a coisa mais difícil que tive que fazer em toda a minha vida”, afirma perentoriamente Mikie Bowe. O irlandês de 36 anos foi um dos mais de 400 concorrentes a ser chamado para participar na versão real de “Squid Game”, produzido pela Netflix, e pinta um cenário doloroso e difícil do concurso.

O jogador 254 foi uma das estrelas do reality-shoe que estreou a 22 de novembro e caminha para o grande final, que será divulgado a 6 de dezembro. Num texto publicado no “The Daily Mail”, o irlandês conta tudo: o bom, o mau e o horrível dos bastidores do programa, que tem sido alvo de inúmeras críticas.

Bowe fala de comida “intragável”, de sangue e de concorrentes levados à loucura no gigante dormitório. Não é o único a queixar-se. Na última semana, dois concorrentes anónimos ameaçaram a Netflix com um processo em tribunal, embora ainda não concretizado. Queixam-se de terem sofrido lesões e de terem enfrentado hipotermia durante as duras provas. Os produtores negam tudo.

“Sou o único cuidador da minha filha de seis anos com necessidades especiais, e concorri para tentar ganhar os quatro milhões. Queria poder ajudar a minha família, mas não tinha ideia do quão difícil iria ser”, escreve. “Não conseguíamos ver o exterior, saber o tempo, o dia ou a noite eram irrelevantes. Comíamos, dormíamos e jogávamos sempre sob as ordens dos guardas. Tínhamos apenas oito horas de descanso entre cada dia.”

Bowe acreditava que o concurso seria “uma brincadeira de crianças”, mas encontrou algo muito diferente. “Era tudo muito sério e intenso.”

A estratégia estava montada: ser amigável, simpático, fazer os colegas rir e tentar estabelecer algumas ligações, “antes de dar cabo deles, um por um”. Bowe admite que acabaria por criar amizades verdadeiras com alguns dos concorrentes, o que “arruinou o plano”.

Bowe foi o concorrente número 254.

Levados para um enorme armazém, receberam os fatos de treino verdes, meias quentes e roupa térmica. “Havia aquecedores para nos mantermos quentes, café, comida, cadeiras, mesas. Havia muita gente a tomar conta de nós”, explica sobre os momentos que antecederam o primeiro desafio, o “Luz Vermelha, Luz Verde” ou o nosso Macaquinho do Chinês.

Segundo o concorrente, a gravação durou “imenso tempo” e foi uma das mais duras. “Tínhamos que manter as poses durante o tempo que levava a verificação de quem se tinha mexido ou não”, explica. “Foi longo, mas não durou nove horas, como muitos dizem por aí. E decididamente, não houve batota.”

Bowe conseguiu completar o desafio a três segundos do fim do tempo. “Foi a prova mais difícil que fiz durante a série — eu e todos os outros”, nota. “Muitos dizem que estava combinada. Quem me dera que assim fosse.”

O irlandês participou também no trepidante desafio Dalgona, onde cada concorrente tem que recortar, com a ajuda de uma agulha, uma forma num biscoito. Quanto mais elaborada, mais difícil a tarefa. Bowe conseguiu ficar com o triângulo, uma dificuldade intermédia, mas que ainda assim provocou no concorrente um ataque de nervos.

“Tinha a certeza que tinha acabado, mas o guarda acenou com a cabeça, ainda faltava um bocado. Tive que acalmar as minhas mãos, que tremiam. Nesse ponto, estava um caco, mas queria passar.”

E quando todos esperavam o jogo das cordas, a produção trouxe uma novidade: uma Batalha Naval, um “jogo intenso”, mas ao qual sobreviveu. Não se livrou, contudo, de uma dor de garganta “provocada possivelmente pelo ar seco do ar condicionado”. “Mas fui tratado por médicos. Tomaram muito bem conta de mim.”

Menos satisfatórias foram as refeições. “A comida era a nossa gasolina, mas para alguns tornou-se insustentável. Eu comi tudo. Recebíamos papas de aveia para o pequeno-almoço. Eu não me importava, mas os americanos odiavam. Depois davam-nos arroz insosso e uns ovos esquisitos.”

Embora nos dessem comida suficiente, não havia grandes recompensas. Exceto uma vez, num piquenique no quinto episódio, que descobrimos mais tarde ser preparação para o jogo dos berlindes.”

A produção tentou, então, juntar amigos e familiares. Naturalmente, concorrentes que se davam bem decidiram manter-se próximos para aproveitarem o piquenique. Quando abriram o fundo falso do cesto, perceberam que estavam lá os ditos berlindes. “Começámos a entrar em pânico”, conta. Ainda tentaram trocar de par, sem sucesso.

Isso significaria que um deles teria que abandonar o programa no final da prova. E foi isso que aconteceu ao amigo Kyle. Bowe não fez mais revelações sobre o seu percurso.

“Depois das gravações, tomaram conta de nós. Perguntaram-nos se gostámos, se ficámos felizes. Ofereciam-nos sempre ajuda. Recebi chamadas de psicólogos, de responsáveis para saberem se estava tudo bem. É certo que não foi um passeio no parque, foi a coisa mais difícil que tive que fazer, mas fomos tratados com justiça. As provas foram justas.”

Certo é que as críticas se têm avolumado. A série original, lançada em 2021, tornou-se na mais vista de sempre na plataforma e conta a história de pessoas desesperadas por dinheiro que aceitam fazer parte do jogo secreto. Só que a eliminação significa a morte, para gáudio dos organizadores.

“Squid Game” foi descrita como uma sátira à sociedade capitalista e desigual da Coreia do Sul, semelhante à de tantos outros países. “Quis escrever uma história que fosse uma alegoria ou fábula sobre a moderna sociedade capitalista, algo que retrate a competição radical que existe, uma competição pela vida”, explicou o criador da série.

Mesmo com a letalidade retirada da equação, o espírito manteve-se no reality show, com muitos dos concorrentes a revelarem histórias trágicas de desespero, que alimentavam a luta pelo enorme prémio de quatro milhões. Naturalmente, perante este cenário, abriu-se as portas a um vale tudo, onde alianças foram repetidamente traídas. Nem familiares escaparam.

Segundo Pamela Rutledge, psicóloga que analisou o fenómeno, a criação de um reality show baseado na série é “eticamente questionável”. “Transforma a série, onde a violência era um alerta para a desigualdade” num “veículo que promove o oposto, um jogo entre pessoas reais onde a falta de escrúpulos e a empatia são essenciais para garantir o dinheiro”.

O crítico televisivo Phil Harrison, por sua vez, admitiu que “devorou” o programa que é “terrivelmente divertido”, mas que o fez “com uma boa dose de culpa”. “O problema é que é a série original é uma amarga e certeira sátira deste estágio avançado de um implacável capitalismo, que quando se salta para uma versão real, se perde toda a sátira — e transforma-se precisamente na coisa que o drama criticava.”

Compara-o inclusivamente a outros programas de reality television, onde o vencedor é, inevitavelmente, o último resistente. “A ideia de que esta competitividade tremenda é o único caminho para a realização pessoal. E é muito simbólico, na era em que vivemos, vermos que há muito mais pessoas que perdem em proporção àquelas que ganham.”

A produção, por outro lado, revela uma atitude defensiva. “Esperamos que os espectadores percebam que tomámos conta de todas aquelas pessoas. O que se vê ali é apenas a pressão do jogo. Tentámos fazer tudo para garantir que a pressão era mantida dentro dos limites do tolerável”, cita a BBC.

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