Música

BTS: a boy band de laboratório que está a conquistar o mundo

Conseguiram o que nenhuma banda da K-Pop ousou fazer. Mas o género musical sul-coreano esconde uma indústria cruel e cheia de segredos obscuros.
Não precisa de aprender coreano, eles já cantam em inglês.

Assim que ficou disponível no YouTube, o contador disparou. Ao fim de 24 horas, o videoclipe de “Dynamite” ultrapassava as 100 milhões de visualizações, um recorde absoluto. Em quatro dias, a contar desde quinta-feira, 20 de agosto, o tema está próximo de quebrar a barreira dos 200 milhões. Para os que não ligam muito aos efémeros recordes da Internet, os BTS respondem com registos indiscutíveis.

Os sul-coreanos tornaram-se no primeiro grupo pop desde os Beatles a conquistar por três vezes no mesmo ano o número um na tabela da Billboard. Na mesma tabela, o seu disco “Love Yourself: Tear” tornou-se no primeiro disco em língua estrangeira a conquistar o lugar de topo nos últimos 12 anos. Mais: foram o grupo que mais dinheiro fez em digressão em 2019. Nesse mesmo ano, os BTS venderam mais álbuns do que as mega-estrelas Taylor Swift, Billie Eilish ou Ariana Grande.

Regressando a “Dynamite”, o tema que já bate recordes, é o primeiro single da banda totalmente cantado em inglês. No resto, a fórmula é a mesma de sempre: coreografias desenhadas ao milímetro; cabelos coloridos e impecavelmente estilizados; luzes, cores garridas e batidas familiares. A K-Pop vai finalmente à conquista do mundo.

Uma espécie de fusão entre a pop ocidental e a pop coreana, o género ganhou vida própria desde os anos 90, altura em que começou a ganhar fãs. No centro de todo este género estão os artistas que formam estas boy e girl bands. Chamam-lhes ídolos: adolescentes e jovens adultos que parecem feitos em laboratório para cativar a atenção de milhões de fãs.

Os fãs são, quase sempre, sul-coreanos. A maioria das bandas mais bem-sucedidas tem dificuldade em saltar para os mercados ocidentais. À exceção do fenómeno “Gangnam Style” de Psy, só os BTS parecem ter sido capazes de quebrar a barreira cultural e linguística. Apesar da mais recente tentativa de cativar o público ocidental com letras em inglês, o apelo já existia mesmo quando teimavam em lançar-se em refrões num indecifrável coreano. Seja como for, o fenómeno parece ter finalmente pegado fora da Ásia.

Uma fórmula complicada

A escalada nas tabelas refletiu-se na vida dos sete rapazes com idades entre os 22 e os 27 anos. De repente, tornaram-se figuras de destaque nos Grammy e receberam a honra de ser a primeira banda da K-Pop a entregar um troféu na gala. Este ano, atuaram pela primeira vez em palco.

Estará o segredo na música ou nas letras? O som dos BTS oscila entre as baladas românticas e os hits de pista de dança, o hip-hop e a música eletrónica; também procuram fugir aos temas amorosos tão típicos na pop, para se focarem mais em temas sociais como o bullying.

A verdade é que não só o sucesso no ocidente chegou de um dia para o outro, como foi lentamente acontecendo nos canais menos prováveis. O fenómeno infiltrou-se através das redes sociais e dos vídeos no YouTube. Já com milhares de fãs norte-americanos e europeus atentos à sua música, foi a vez dos sul-coreanos darem uma ajuda: as traduções feitas por voluntários tornaram os BTS mais acessíveis.

O grupo de fãs dá-se pelo nome de ARMY

A legião de fãs é, talvez, a sua maior força. Apelidada de ARMY, vive do fervor habitual que os fãs de bandas de K-Pop emprestam aos seus ídolos. Já se sabe: não há fenómeno musical de nível global que sobreviva sem uma base de fãs obsessivos.

Nenhum pormenor é desprezado e as roupas são, também, um fator importante. A influência é indesmentível: qualquer peça usada por um dos sete membros tende a esgotar nas lojas, seja na Coreia do Sul ou a nível mundial.

A influência levou-os às Nações Unidas, onde discursaram em 2018 no contexto de uma campanha da UNICEF sobre amor-próprio. Mais recentemente, o grupo angariou mais de um milhão de dólares para apoiar a luta do movimento Black Lives Matter.

Os miúdos que mudaram a K-Pop

Bang Si-hyuk trabalhava numa das três grandes empresas que dominam o género — são elas que controlam os talentos e todos os meios para os tornar em estrelas. O sul-coreano decidiu tentar a sorte por conta própria e criou a Big Hit Entertainment. Ao fim de cinco anos, tinha descoberto a fórmula do sucesso.

Apesar de só terem lançado o primeiro tema em 2013, a banda começou a ser esculpida três anos antes. Resgatou um jovem promissor do rap sul-coreano e aos poucos foi escolhendo os companheiros certos.

O guia de estilo da K-Pop foi lentamente sendo reescrito. Novos sons e arranjos, mais fusão com diferentes géneros musicais, letras com mais simbolismo e significado. O primeiro tema, que falava sobre os problema dos adolescentes, não foi um grande sucesso. Foi preciso esperar até 2015 para que os primeiros recordes começassem a ser quebrados — e se tornasse percetível que não eram apenas mais uma boy band como as outras.

Começámos a contar histórias que as pessoas queriam ouvir, que estavam prontas para ouvir, histórias que outras pessoas não podiam ou não queriam contar. Dizemos o que as outras pessoas sentem, a dor, as ansiedades, as preocupações. Era esse o nosso objetivo: criar empatia, algo com que as pessoas se consigam relacionar”, revelou em 2018 um dos membros à “Time”.

O sucesso elevou a Big Hit Entertainment ao patamar de grande. De tal forma que a empresa está a planear a entrada em bolsa e foi alvo de avaliações que rondam os 4 mil milhões de euros. E tal como as colegas que detêm o monopólio da K-Pop, quase todo o seu valor e lucro está dependente de apenas uma ou duas bandas. É o caso.

As margens inacreditáveis — o “Financial Times” revela que chegam aos 32 por cento; e os lucros atuais são 700 vezes maiores do que eram em 2005 — prometem que a operação poderá ser volumosa. Se nada se alterar, a avaliação da Big Hit Entertainment poderá mesmo ultrapassar a das três grandes rivais combinadas. 

O lado negro

Kim Tae-hyung (V), Jung Ho-seok (J-Hope), Kim Nam-joon (RM), Kim Seok-jin (Jin), Park Ji-min, Jeon Jung-kook e Min Yoon-gi (Suga) juntaram-se em 2010. Não se conheceram na escola, não eram vizinhos e tão pouco formaram a banda a colocar anúncios nos jornais. O grupo que reuniu os sete foi meticulosamente desenhado numa espécie de laboratório. E por laboratório queremos dizer as salas da Big Hit Entertainment.

Tal como as outras três grandes criadoras de talento, a vida das grandes bandas da K-Pop começa num escrupuloso e por vezes cruel recrutamento, onde os sonhos de milhares de jovens que querem tornar-se na próxima estrela são esmagados. Noutros casos, os recrutadores atacam os talentos onde quer que os encontrem: seja nos castings de programas televisivos, como aconteceu com Jungkook, ou em audições online, caso de Suga.

Depois de recrutados, as potenciais estrelas são sujeitos a um período intensivo de preparação que chega a durar vários anos. Têm que aprender a cantar, dançar, a interpretar, a falar e a lidar com a imprensa. Há relatos de dietas intensivas, por vezes perigosas, com o peso a ser controlado várias vezes ao dia. Por vezes, muitos dos formandos não têm mais de 13 ou 14 anos — e acabam por estar sujeitos a uma pressão desmedida.

Os relatos na primeira pessoa não são habituais, mas os que chegam a público revelam uma indústria poderosa e sem escrúpulos. Euodias viajou de Inglaterra para a Coreia do Sul à procura da fama. Aceite como formando numa agência, revelou mais tarde que eram encorajados a passar fome para perder peso. Durante o treino, dormiam no chão e treinavam durante 18 horas por dia. Ocasionalmente, alguns desmaiavam devido à exaustão. “O peso era uma obsessão constante. Ninguém podia pesar mais do que 47 kg”, revelou à “BBC”

No caso dos BTS, Jungkook começou a ser formado com apenas 14 anos e fez a estreia antes de completar os 16. Formar a banda demorou cerca de três anos. E apesar do CEO da Big Hit Entertainment revelar que tudo se assemelha a uma espécie de “curso universitário”, a verdade é que alguns dos métodos são apontados como muito questionáveis.

Este é o resultado de muitos anos de treino.

Segundo um estudo da Universidade de Harvard, por cada talento que é aceite, mais de uma dúzia são rejeitados. E este processo de fabrico de bandas tende a esmagar qualquer liberdade criativa individual dos membros, algo com que o próprio Bang Si-hyuk concorda. 

Não é apenas a criatividade que é limitada. A obsessão com a perfeição — muitos estudiosos apontam que este é um traço cultural e não apenas uma faceta da K-Pop — e as críticas ásperas a que costumam estar sujeitos cobram um preço no lado psicológico dos rapazes e raparigas que, na maioria dos casos, acabam de sair da adolescência.

Para se ser alguém na Coreia, é preciso passar por cima dos outros. É assim desde o jardim de infância, onde já se tem que ultrapassar os colegas. Durante toda a sua vida, os coreanos são colocados numa competição na qual são constantemente testados, avaliados e pontuados relativamente às suas ações e conquistas académicas. É super-competitivo”, explica ao “The Guardian” Justin Shin, fotógrafo sul-coreano que trabalha com muitos destes artistas. Na K-Pop, sublinha, essa obsessão é elevada a um outro patamar de exigência. 

O final de 2019 foi trágico para a K-Pop. Sulli, uma conhecida intérprete no país, foi encontrada enforcada na sua casa. Tinha 25 anos. Descobriu-se mais tarde que a artista tinha feito vários pedidos à agência para que a protegessem do bullying de que era alvo. Sulli ousou tornar o relacionamento público — contra a norma implícita dada pelas agências de que os seus “ídolos” devem mostrar-se sempre disponíveis para os fãs e esconder qualquer relação amorosa.

A morte lançou a discussão sobre o fanatismo dos fãs, cuja linha entre o amor e o ódio revelou ser demasiado ténue. Dois meses depois, outro suicídio abalava a Coreia do Sul: a artista de 28 anos Goo Hara suicidava-se, na sequência de notícias que revelavam existir um vídeo seu e do namorado a terem relações sexuais. Alvo de milhares de críticas dos fãs, também não resistiu à pressão.

Goo Hara suicidou-se com 28 anos.

Quando a carreira não termina em tragédia, ela também não costuma durar muito tempo. As agências querem ídolos perfeitos, jovens, e a idade é quase sempre um obstáculo. Ao aproximarem-se dos 30, os artistas passam a ser descartáveis — e são forçados a dar lugar a novas estrelas.

“Desde cedo que vivem uma vida mecanizada, ultrapassam regimes rigorosíssimos de treino. Raramente têm a possibilidade de ter uma vida escolar normal ou sequer relações sociais como os jovens da sua idade. A sua queda pode ser tão súbita e dramática como a sua ascensão”, explica Lee Hark-joon, jornalista e autor de um documentário sobre o género musical.” 

Apesar da fama sem precedentes, é improvável que os BTS tenham um destino diferente. O desafio, contudo, é um que poucos países enfrentam: num país onde se exige o cumprimento de um serviço militar obrigatório que pode durar até dois anos, a vida tem que ser calculada de uma forma diferente. E nem os ídolos das boy bands conseguem escapar.

Este serviço militar colocou fim a muitas bandas bem-sucedidas e os BTS para lá caminham. Entre o membro mais velho e o mais novo há pelo menos seis anos de distância. Com a maioria a rondar os 25 anos, é provável que sejam chamados pelo exército sul-coreano — o que irá obrigar a uma ausência prolongada. A solução será, sempre, continuar sem os elementos em falta, embora isso coloque em risco a estratégia da agência.

Os BTS aproveitaram também a reforma antecipada de outras bandas pelo mesmo motivo e é provável que algo de semelhante aconteça com o grupo. A verdade é que as grandes agências sabem bem como o jogo funciona: neste preciso momento, os sucessores já estão a ser treinados para tomarem o lugar dos sete rapazes.

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