Televisão

Carta aberta de uma sobrevivente de cancro para Bruno Nogueira

O tema é o programa “Tabu”, que teve um episódio sobre doenças terminais. “Quem me dera ter visto este programa no meu tempo.”
O programa "Tabu" estreou a 5 de março.

Chamo-me Marine e não fazes ideia disto mas foste o meu crush na adolescência (depois percebi que eras demasiado alto e a minha onda é mais homens amorosamente pequenos) e um dos meus ídolos do humor. Também não sabes isto mas há muitos anos que anseio por um programa como o teu. Cancro com Humor — este é o nome do projeto que criei há quase 10 anos e que, durante muito tempo, foi quase proibido pronunciar.

Apaixonada pelo humor desde miúda só percebi que era um caso sério de amor para a vida toda quando, aos 13 anos, fui diagnosticada com cancro. Ali, no diagnóstico, tive a certeza de que não ultrapassaria isto sem ele. A cada piada enfiada num momento constrangedor, tanto por mim como pela minha família, as coisas tornavam-se melhores e o cancro incrivelmente perdia poder. Acredito que o programa “Tabu” provou isso mesmo — o humor dignifica.

Quem me dera ter visto este programa no meu tempo. Mas na altura o que eu via na televisão era os “Morangos com Açúcar”. E isso marcou-me profundamente. Nem imaginas como. Quero dizer-te que, hoje, ao ver-te ali com toda a coragem a falar em cancro com humor senti que estamos no melhor caminho. E que não estou sozinha num projeto que às vezes me é tão difícil. Sem saberes, alimentaste o projeto da minha vida e deste voz a um tema que ainda é falado a sussurrar. E não tenho como te agradecer por isso.

Ter cancro é demasiado difícil para não se tentar viver com leveza. Criei o Cancro com Humor com 22 anos, na esperança de ajudar mas também de exorcizar alguns demónios. É incrível o poder da partilha. Comecei com um blogue, palestras, depois com livros e centenas de ações de sensibilidade e tenho feito da minha missão desmistificar o cancro com risos. Tenho tantos sonhos e, em todos, defendo que é possível fazer Cancro com Humor. Hoje, vi que não foi uma neura que me deu. É possível, sim. Aconteceu na SIC em horário nobre.

Humanizar a saúde, tirar peso à doença e dar dignidade à pessoa diagnosticada foi o que fizeste. Obrigada. Sabes, tem graça: ainda tenho a gravação do teu primeiro “Levanta-te e Ri”. Não fazia ideia de que a minha admiração por ti iria ascender ao facto de me ajudares, sem saberes, a tornar esta missão mais fácil. Caraças, Bruno, fizeste Cancro com Humor. E foi tudo o que sempre quis.

É no cumprimento desta missão, tornar mais fácil a vida de quem é diagnosticado com uma doença grave, que escrevi o meu novo livro “Manual para Descomplicar o Cancro”. Porque finalmente começamos a perceber que descomplicar não é ser leviano e muito menos desinteressado. Porque, sabes, é tão mais fácil se estivermos todos juntos nisto.

Texto escrito por Marine Antunes

Marine Antunes celebra 32 anos em 2022.

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