Cinema

A atriz Daniela Melchior é a Personalidade do Ano para a NiT

Aos 25 anos, brilhou em "Esquadrão Suicida" e foi eleita como uma das grandes jovens promessas da indústria. O futuro passa por Hollywood.
A atriz arrombou a porta de Hollywood

Aos 23 anos, a jovem nascida em Almada tinha no currículo umas quantas novelas e um par de filmes de produção nacional. O talento era palpável, mas nada fazia prever os dois furiosos anos que se seguiriam e que a levariam ate ao coração de Hollywood, um terreno virgem para os atores portugueses.

Os americanos deixaram-se encantar pela miúda a quem chamaram “a next big thing”. Poderiam ter usado outra expressão bem americana que encaixa na perfeição em Daniela Melchior, uma “trailblazer” ou, como quem diz, uma pioneira.

O ano de 2021 que agora termina foi o da consagração definitiva do talento da atriz na elite da indústria — e é também por isso que não surgiram grandes dúvidas no momento de escolher a Personalidade do Ano para a NiT.

A conquista do papel no novo blockbuster da DC Comics foi anunciada em 2019, entre algum secretismo, escancarado pelos sempre bem informados media americanos. Melchior seria uma das novas heroínas da sequela de “Esquadrão Suicida”, ao lado de nomes como a oscarizada Viola Davis, Margot Robbie ou Idris Elba.

Era um salto de gigante para a jovem que ainda rondava os bastidores da novela da TVI “Valor da Vida” e que faz parte do curto lote de atores nacionais que foram ganhando espaço em produções internacionais.

Alba Baptista foi escolhida para ser protagonista de “Warrior Nun”, uma produção da Netflix, que também incluiu Nuno Lopes no elenco de “White Lines”, série de Álex Pina, criador de “La Casa de Papel”. Mas nenhum quebrou barreiras como Melchior.

Para trás ficaram as participações em várias novelas como “Ouro Verde” ou “A Herdeira” ou em filmes como “O Caderno Negro” ou “Parque Mayer”, de António-Pedro Vasconcelos. Hoje, Melchior é como a filha pródiga que perdemos para o mundo: Hollywood apaixonou-se pela atriz e é agora onde pertence. Pelo caminho, leva o nome de Portugal até onde ele nunca foi em Los Angeles.

O momento decisivo

Foi depois de lançar o filme “Parque Mayer” que um curioso email caiu na caixa da agente de Daniela Melchior. Era um agente americano, deliciado com as cenas da atriz no filme de António-Pedro Vasconcelos. “Mesmo sem legendas e em português, não percebendo nada, viu qualquer coisa em mim que o fazia querer ver mais cenas do filme”, recordou Melchior em entrevista à NiT.

Hesitante, mas cheia de curiosidade, foi mantendo o contacto, gravando cassetes de promoção que foram atirando para o terreno da Netflix. Mas foi quando tentou o casting de “Esquadrão Suicida” que o feedback finalmente chegou. Ao fim de uma semana, tinha um convite para viajar até aos Estados Unidos e participar no casting.

Não era uma tarefa fácil. O realizador James Gunn já tinha dado resposta negativa a mais de 300 atrizes. “[O James Gunn] tinha uma ideia para a personagem e queria uma rapariga que fosse exatamente aquilo que ele estava a pensar e ponto”, conta.

Antes da audição, houve lugar a um encontro prévio com o realizador. O agente de Melchior convenceu-a a usar um casaco de cabedal, calças justas e maquilhagem, um look que não batia certo com a personagem de Ratcatcher, uma jovem vilã que controla ratazanas — e cujo passado foi adaptado para ter origem em Portugal, mais concretamente no Porto. Segundo a atriz revelou ao “The Hollywood Reporter”, Gunn e os responsáveis olharam entre si e decidiram logo ali num “não”.

Logo na estreia, juntou-se a nomes como Idris Elba

No dia seguinte, Melchior encarnou verdadeiramente na “miúda estranha e assustadora” e fez o que nenhuma das três centenas de atrizes que a antecederam conseguiram: arrancar um sim do realizador. O processo seguiu as etapas burocráticas, mas a confirmação de que o papel seria mesmo seu chegou dois dias depois. Começava aí a revolução na vida e na carreira da atriz.

Os nervos eram muitos. “Não sabia até que ponto é que tinha de ter um bom sotaque inglês, não sabia de que é que estavam à procura em concreto porque…eu não sei como é que os atores fazem, mas normalmente quando faço um casting, tento perceber mesmo em concreto de que é que estão à procura”, recordava à NiT em 2019. “Não tinha ideia do que era [a personagem], só tinha mesmo as cenas que me tinham enviado. E não era uma personagem que eu pudesse ir procurar ao Google, porque nunca ninguém a fez.”

As gravações começaram poucos meses depois. Era a sua primeira produção internacional. O choque foi imediato. “Quando entrei num dos sets, recriaram um elevado número de ambientes num estúdio… Em vez de irmos aos locais, eles recriaram vários locais, todos no set. E ao ver o número de sets diferentes é que eu percebi a dimensão. Coisas mesmo gigantes”, conta.

“O próprio James Gunn disse-nos que este filme é o que tem maior orçamento de sets de sempre da Warner Bros. Eles nunca investiram tanto até este “Esquadrão Suicida”. E foi aí que me caiu a ficha. Mesmo dentro de Hollywood, isto é a nata das natas.

O mundo aos pés de Daniela

Foi preciso esperar mais de um ano até que “Esquadrão Suicida” chegasse aos cinemas portugueses e de todo o mundo. A crítica estava reticente: apesar da boa performance nas bilheteiras, o primeiro “Esquadrão Suicida” tinha sido arrasado pelos críticos.

Todos suspiraram de alívio. A crítica recebeu bem o filme, o público nos cinemas também, mas o que ninguém esperava era que uma jovem portuguesa arrombasse quase todas as cenas, mesmo ao lado de veteraníssimos como Idris Elba, o seu companheiro de narrativa.

Entre os parágrafos escritos pelos críticos, havia quase sempre uma palavra dirigida a Ratcatcher e a Melchior. “Nunca sabes para onde a inocência dela te vai levar, e, interpretada pela portuguesa Daniela Melchior, ela rouba uma cena após a outra”, escreveu o crítico do “Evening Standard”. “Margot Robbie e Idris Elba claramente estão a divertir-se, mas Melchior é o verdadeiro destaque”, escreveu a “Paste Magazine”.

Melchior recebeu elogios dos colegas veteranos e da imprensa internacional

“Melchior é sem exageros suave e dura e doce, emotiva mas mundana, faz tão bem que se podia destacar em praticamente qualquer guião.”

Com “Esquadrão Suicida” a encher salas e a imprensa a carregar Melchior, o nome da atriz chegou a todos os cantos. Algo que se refletiu imediatamente naquele que é também o maior site de cinema do planeta, o IMDb, onde o seu nome se tornou no mais procurado em todo o mundo.

Pouco mais de uma semana após a estreia do filme, Daniela Melchior tornou-se no nome mais pesquisado, inclusivamente à frente de outros parceiros de elenco mais famosos como Margot Robbie e Joel Kinnaman. De lá para cá, dobrou o número de seguidores no Instagram e está próxima da marca de um milhão.

O futuro promissor

Hoje, Daniela Melchior não é a atriz desconhecida que em 2019 voou sozinha de Portugal para um casting. É a elogiada protagonista de um dos blockbusters mundiais de 2021. E apesar de ter também estreado uma produção nacional, a minissérie “Pecado” e o filme luso-francês “O Livro Negro do Padre Dinis, a jovem tem os olhos postos, naturalmente, em Hollywood.

“O meu foco essencialmente neste momento é solidificar uma possível carreira internacional, sendo que a minha agenda está sempre em aberto para se surgir algum projeto interessante em Portugal, claro. Mas, neste momento, não é propriedade. Acho que seria pouco inteligente da minha parte se priorizasse trabalhar em Portugal e não mostrar internacionalmente que vim para ficar e não por passagem”, revelou a atriz em setembro, numa conferência de imprensa sobre a nova minissérie da TVI, “Pecado“.

“Sinto que cada vez que vier a Portugal vou acabar por me adaptar sempre a cada projeto, a cada equipa e a cada produção. Aprendi imensas coisas a trabalhar nos Estados Unidos, mas para usar nos Estados Unidos.” E assim foi.

Com os pés bem assentes em Hollywood, tem já presença garantida em “Assassin Club” cujas gravações que tiveram lugar em Itália estão concluídas. Na produção que se encontra em fase de pós-produção — e com estreia prevista para 2022 —, Melchior vai juntar-se a Sam Neill, Noomi Rapace e Henri Golding.

O filme leva-nos ao mundo dos espiões e dos assassinos de elite, onde Morgan Gaines (Golding) é o melhor dos melhores. Contratado para eliminar seis nomes, descobre rapidamente que todos têm alvos a abater. À atriz portuguesa foi entregue o papel de Sophie, namorada de Gaines, que terá também que sobreviver ao perigoso mundo do filme realizado por Camille Delamarre.

O comboio não pára e Melchior está já a gravar outra produção internacional, onde irá contracena com Liam Neeson, Diana Kruger e Jessica Lange. O filme realizado por Neil Jordan acompanha a vida do detetive privado Philip Marlowe, contratado para encontrar o ex-amante de uma herdeira de uma fortuna. Trata-se de um thriller inspirado no livro “The Black-Eyed Blonde”, de John Banvile. Melchior será Lynn Peterson, no filme que ainda não tem data de estreia.

2021 foi, sem dúvida, o ano de Daniela Melchior. O ano em que todas as suas expectativas foram superadas e que conquistou, por direito próprio, um lugar no círculo restrito de Hollywood — um nível ao qual poucos ou nenhuns atores portugueses conseguiram ascender.

“Até [“Esquadrão Suicida”] acontecer, eu nunca tinha posto em hipótese [de chegar a Hollywood], era mesmo uma hipótese muito distante enquanto atriz. Eu nem queria porque nem colocava em hipótese”, recordou à NiT. “Há muitos atores que dizem que sempre tiveram esse sonho e de facto passam muitos anos a tentar ir para fora, sem ter garantias de nada.”

“Depois deste filme acontecer, claro que ponho a hipótese de trabalhar lá fora e construir uma carreira lá. E para mim já não é um sonho e passa a ser um objetivo.”

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