Cinema

A avó real que inspirou a personagem de Anthony Hopkins no filme “O Pai”

O autor, Florian Zeller, cresceu com uma avó com demência, mas quis criar uma narrativa universal com que todos se pudessem identificar.
Anthony Hopkins é... Anthony.

Após quase duas décadas de carreira, que o consagraram como um dos dramaturgos mais conceituados da sua geração, o francês Florian Zeller decidiu levar a sua arte ao cinema. Para isso, adaptou uma das suas peças mais conhecidas, “Le Père”, para um filme falado em inglês. 

O resultado foi “O Pai”, que estreia nos cinemas em Portugal esta quinta-feira, 6 de maio — menos de duas semanas depois de ter vencido o Óscar de Melhor Argumento Adaptado e de ter dado a Anthony Hopkins o seu segundo Óscar de Melhor Ator. A produção estava ainda nomeada para mais quatro categorias.

“O Pai” faz um retrato sobre a demência. A partir da perspetiva de um pai idoso (Anthony Hopkins), e a relação que tem com a filha (Olivia Colman), vamos percebendo que a sua realidade já não faz sentido — o protagonista confunde espaço e tempo. Baralha pensamentos, intenções, emoções, raciocínios.

Por vezes não sabemos se estamos no casarão de Londres onde vive, numa casa próxima (com uma decoração diferente) onde vive a filha, ou se estamos, por exemplo, numa clínica. Os detalhes vão mudando ligeiramente, deixando os espectadores confusos. A realidade é-nos apresentada de forma turva de uma maneira muito subtil.

Além disso, o protagonista troca a cara das pessoas — literalmente há vários atores a interpretar as mesmas personagens — e deixa de as reconhecer. Além de nos colocar na pele de quem sofre de demência, Florian Zeller também nos dá a perspetiva muitas vezes ingrata de quem está do outro lado — neste caso, a filha interpretada por Olivia Colman. Muitas vezes todo o esforço e cuidado que se tem não é de todo reconhecido porque, lá está, a pessoa mais velha nem sequer se apercebe de (ou não aceita) que está naquela situação.

Em entrevista com a revista “Forbes”, Florian Zeller conta que teve a ideia para escrever esta peça — que estreou originalmente em 2012, em Paris — por ter sido criado pela avó, que começou a sofrer de demência quando ele tinha 15 anos.

“Por isso eu sabia um pouco sobre como é passar por este processo doloroso. Sei como é quando estás numa posição em que ficas impotente: podes amar a pessoa mas percebes que o amor não é suficiente.”

Contudo, como explica, o objetivo nunca foi contar uma história autobiográfica, mas sim criar uma narrativa universal com que todos se pudessem identificar.

Florian Zeller com Anthony Hopkins e Olivia Colman no set.

“‘Le Pere’ não era sobre tentar contar a minha história porque eu sabia que, infelizmente, toda a gente se consegue identificar com esta questão. Toda a gente tem uma avó ou um pai e vai ter de lidar com este dilema doloroso, que é o que vais fazer com as pessoas que amas quando elas começam a ficar perdidas. Por isso, tentei usar essa experiência para partilhar estas emoções.”

Florian Zeller diz que ficou surpreendido com o sucesso da peça — que foi interpretada em diversos países — e entusiasmado por o público estar tão recetivo a esta viagem emocional. “Percebi que havia algo catártico sobre isto. Obviamente, não mudava a situação, mas há um consolo em relembrar que não somos apenas indivíduos. Estamos no mesmo barco e temos os mesmos medos. Para mim, tem sido uma descoberta dessa fraternidade, ainda que seja uma fraternidade dolorosa. Foi por isso que decidi tornar isto num filme, porque queria mesmo partilhar estas emoções. Além disso, tinha a intuição de que o cinema, graças à sua linguagem, podia tornar esta experiência ainda mais imersiva, subjetiva e poderosa.”

Para criar o filme, trabalhou com Christopher Hampton — que já tinha traduzido muitas das suas peças para inglês — e adaptaram o texto. O protagonista mudou de nome de Andre para Anthony, precisamente porque Florian Zeller estava a pensar na figura de Anthony Hopkins enquanto escrevia o guião. “Quando comecei a pensar em escrever, a única cara que me aparecia era a do Anthony Hopkins.”

Através de Hampton, chegou ao ator galês que hoje tem 83 anos, que aceitou prontamente o desafio de interpretar esta personagem. “Queria que ele fosse o mais verdadeiro e simples possível. E ao usar o próprio nome, era uma forma de se ligar aos próprios medos, ao próprio sentimento de mortalidade, e pôde explorar isto comigo.”

Citado pelo jornal “Express”, Anthony Hopkins explicou que o tema também lhe era próximo. “Havia um conflito na personagem que me era muito próximo, porque o meu pai, que teve uma morte lenta de doença cardíaca, teve um ano em queda, depois de um grande ataque cardíaco e de uma depressão”, disse o ator veterano.

“Ele levantava a mão daquela maneira, e tinha um temperamento muito mau com a minha mãe, e ela chorava. E a fala de ‘eu não vou sair da minha casa’, o meu pai era um homem duro mas estava assustado, e dava-me um olhar que me conseguia arrepiar.”

E acrescentou ainda: “Foi fácil para mim lembrar-me disso, e interpretar o meu próprio pai de certa forma, quando ele de repente começava a chorar”.

À “BBC”, Olivia Colman — que esteve nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo papel — diz que também se relacionou pessoalmente com a narrativa porque a sua mãe foi uma enfermeira geriátrica durante 40 anos.

“Eu ia com ela no carro nas férias da escola ou quando estava doente. E via pessoas solitárias nas suas casas que não tinham famílias. A minha mãe é uma embaixadora pelos cuidados a ter com a demência, por isso isto sempre foi uma grande parte da minha vida”, contou a atriz de 47 anos.

Na mesma entrevista à “Forbes”, Florian Zeller revela que gostava muito de adaptar outra das suas peças — que se chama precisamente “O Filho” — ao cinema. Faz parte de uma trilogia, centrada em temas familiares, ao lado de “O Pai” e “A Mãe”. 

“Se fechar os olhos e pensar em algo que sinto que preciso de contar, é ‘O Filho’. É a história que quero contar e o filme que quero fazer. Por isso, se tiver outra oportunidade para fazer um filme, não há dúvidas de que será esse.”

Leia também a crítica da NiT a “O Pai”, filme que já pode descobrir nos cinemas.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT