Cinema

A coach de sonhos que ajudou a criar o grande candidato aos Óscares deste ano

Kim Gillingham trabalhou nos bastidores com a realizadora Jane Campion e com Benedict Cumberbatch — e ajudou-os a darem as prestações da sua vida.
O filme teve 12 nomeações para os Óscares

O nome Kim Gillingham provavelmente não lhe dirá grande coisa. A norte-americana teve uma curta carreira como atriz, que incluiu aparições no papel de “loira”. Foi a loira que tentou seduzir George Costanza em “Seinfeld”; e a loira ex-namorada que Joey, de “Friends”, tenta reconquistar.

Aos 58 anos, há 16 que não aparece em frente à câmara. Isso não significa que não ande por detrás delas, a guiar pelas mãos (e pelos sonhos) realizadores e atores a prémios e consagrações. O mais recente caso é talvez o mais paradigmático.

Nos créditos de “O Poder do Cão”, Gillingham tem direito apenas a um agradecimento. O seu papel, como revelam os protagonistas e a realizadora, foi essencial para a conquista de dois BAFTA e para as 12 nomeações com que parte para a próxima cerimónia dos Óscares.

Jane Campion desfez-se em elogios sobre a mentora que a ajudou a “fazer o mais incrível trabalho da carreira”. “Ela é a única pessoa que me ajudou, como realizadora, a ir um sítio tão profundo.” Benedict Cumberbatch, o protagonista, descreveu-a com “uma mulher incrível”. Mas qual será o segredo?

Ao “The Guardian”, a própria remete para um episódio de Salvador Dalí. O artista, segundo Gillingham, dormia na sua cadeira, com um par de chaves nas mãos. Por baixo da sua mão deixava um prato de metal, para que quando adormecesse e, eventualmente, perdesse a força que as deixaria cair, o ruído o acordasse. Era a forma ideal para pintar imediatamente após viajar pelo seu inconsciente — pelos seus sonhos.

Gillingham é descrita como uma dream coach, isto é, alguém que usa os sonhos dos seus alunos para os inspirar, fortalecer, para os enquadrar e ajudar a dar-lhes um uso no dia a dia, na profissão. Uma técnica inspirada também nas teorias de psicanálise Carl Jung, que se cruzam com as técnicas de interpretação de método.

O objetivo? “Aceder aos recursos incríveis do nosso inconsciente através dos sonhos, de trabalho de corpo; usar esse material para despertar a autenticidade e a verdade, seja qual for a disciplina em que trabalha o artista.”

Gillingham tem 58 anos

Em “O Poder do Cão”, o trabalho foi feito em paralelo com vários elementos e, segundo Gillingham, isso pode até ajudar a alinhar os sonhos de cada um. “Começas a ouvir repetições de imagens ou de temas dentro dos sonhos”, conta à “GQ”. “Começas a ouvir o ADN único da obra.”

Num mundo inundado de coaches e mentores espirituais, é difícil separar o certo do incerto, as terapias eficazes da banha da cobra. “Um sonho dá cabo de ti como poucas coisas o fazem”, explica. “Um sonho acorda-te. É para isso que eles estão lá.”

Em 2009, já o “The New York Times” desvendava as curiosidades sobre este trabalho de bastidores de atores em particular e artistas no geral. No mundo do dream coaching, Gillingham já era uma referência. O diário americano relatava uma das aulas dadas no centro de Nova Iorque, recheada de incenso, velas e música clássica.

“Sussurrem para o tapete algo que não querem que mais ninguém saiba. Digam-lhe onde é que sentem medo, digam-lhe onde é que estão presos”, explicou a instrutora, antes de convencer os alunos a “expirarem como um cavalo velho”. “Viagem até ao local, à coisa, à energia com a qual não querem lidar”, aconselhou. O resto da aula envolveu lágrimas e um conselho para falarem com as pessoas nos seus sonhos. “Fingir será uma perda de tempo.”

Gillingham sonhava ser atriz quando estudou teatro em Los Angeles, algo que lhe valeu alguns papéis secundários em algumas séries de sucesso como “Seinfeld” ou “Friends”, mas também em “Quem Sai aos Seus” ou “Beverly Hills 90210”. Nunca conseguiu ultrapassar o rótulo de “miúda gira”.

Foi graças a uma mentora que, também ela, conseguiu evoluir. Sandra Seacat dava aulas a atores sob as regras do método e foi ela também que lançou a técnica de análise dos sonhos — e partir deles para criar melhores interpretações. Quando engravidou, Gillingham decidiu mudar de carreira e agarrou-se aos livros de Marion Woodman, autora que mergulhou nas teorias dos sonhos de Carl Jung.

Hoje, a sua lista de alunos incluem atores, mas também realizadores e argumentistas. Já chegou a trabalhar com cientistas. Mas é com Cumberbatch e Campion que parece ter atingido o seu maior êxito, mesmo que seja um sucesso em segunda-mão.

Todo o trabalho foi feito durante a pré-produção do filme e incidia sobretudo nos sonhos de cada um, na repetição, em voz alta, de cada detalhe. “O sonho começa a abrir-se, apenas ao ser revelado dessa forma”, conta ao “The Guardian”.

“Este trabalho feito nos sonhos ajuda a revelar material mais profundo do artista o que, de forma inevitável, revela algumas verdades pessoais”, explica. “Todos desenvolvemos personas onde escondemos alguns aspetos, por forma a navegarmos pelo mundo. Os sonhos são teimosos, persistem em relembrar-nos desses aspetos que talvez faça sentido tentarmos integrar [na nossa persona].”

É desta tal fusão de uma análise profunda dos sonhos com os métodos de imersão nas personagens — tão elogiados em atores como Daniel Day-Lewis ou Marlon Brando —, ao mesmo tempo que emprestam à ficção parte das suas vivências e emoções pessoais. Gillingham não quer apenas que os atores passem algumas das suas emoções para as personagens — ela quer que eles descubram novas emoções que escondem no seu subconsciente e, depois sim, espelhá-las no seu trabalho.

“Da mesma forma que temos sonhos que nos trazem de volta ao consciente, acredito que participamos nos sonhos culturais quando vamos aos filmes ou criamos filmes. Fico extremamente interessada nas histórias que estamos a contar e como é que essas histórias são percebidas.”

Confuso? Gillingham desenvolve: “Se só estou a repetir o que já todos vimos, estou a repetir uma narrativa dominante, vezes e vezes sem conta”, explica. “Mas se conseguir visitar o meu inconsciente e retirar dele algum material novo — mesmo que não o entenda completamente —, provavelmente terei uma nova narrativa. Creio que é esse o caso de ‘O Poder do Cão’.”

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