Cinema

A história trágica de Gisberta Salce Júnior vai ser contada no cinema

A mulher brasileira trans foi assassinada por adolescentes no Porto. A NiT entrevistou Afonso Reis Cabral, autor do livro que será adaptado.
Foi assassinada em 2006.

O caso da morte de Gisberta Salce Júnior, em 2006, chocou Portugal. Mas, ao mesmo tempo, foi sintomático da transfobia que existia na nossa sociedade. Desde então, a mulher brasileira transgénero — que tinha trabalhado como prostituta no Porto e era seropositiva — tornou-se um verdadeiro ícone desta causa nacional.

Foi a partir da sua morte que nasceu a Marcha do Orgulho LGBT do Porto — e que foi aprovada legislação para proteger os transsexuais. Gisberta Salce Júnior foi ainda homenageada em diversas obras artísticas — no poema “Indulgência Plenária”, de Alberto Pimenta; na canção “Balada de Gisberta”, composta por Pedro Abrunhosa e depois interpretada por Maria Bethânia; na curta-metragem “A Gis”, de Thiago Carvalhaes; nas peças de teatro “Gisberta”, de Eduardo Gaspar e Luis Lobianco; ou no romance “Pão de Açúcar”, de Afonso Reis Cabral.

É esta última obra literária que vai agora ser adaptada ao cinema, por uma produtora brasileira chamada Glaz Entretenimento, que se está a implementar em Portugal e tenciona produzir este filme nos próximos anos. Ainda não são conhecidos quaisquer detalhes sobre o projeto, mas a Glaz Entretenimento tem experiência em trabalhar com a HBO e a Netflix, por exemplo.

A NiT entrevistou o autor Afonso Reis Cabral — que está a trabalhar num terceiro romance — sobre a adaptação da história que, através de elementos reais e fictícios, se centra nas últimas semanas de vida de Gisberta Salce Júnior. A conversa aconteceu na Brotéria, em Lisboa.

O que o fez querer escrever o livro “Pão de Açúcar”, sobre a história da Gisberta Salce Júnior, em 2018?
A génese do livro vem mais ou menos de um acaso. Porque estava à procura de um tema para o meu segundo livro, depois d’”O Meu Irmão”, e achava que seria literariamente muito interessante trabalhar um tema cuja realidade fosse muito distante da minha. Era um desafio literário de descobrir o outro — e até, inclusive, de o criar. Porque estamos a falar de um livro sobre um caso real, mas é apenas baseado. Ou seja, o que está no romance é uma ficção, é literatura, não é uma reportagem literária sobre o assunto. Portanto interessava-me descobrir e criar o outro, que é o lado um bocadinho mais pequeno da resposta. O lado maior é que a realidade do caso Gisberta me impressionou muitíssimo, como impressiona qualquer pessoa que eu conheça, de um caso de uma mulher trans que é submetida a uma espécie de via sacra durante uma semana. Esse impressionar e ficar absolutamente chocado com a ideia de que é possível tratarmos o semelhante desta maneira é quase um catalisador literário. Ao mesmo tempo, a ideia de que havia um caso com muitas ausências, muito espaços por onde trabalhar literariamente, os quais poderia preencher com ficção, nomeadamente a ideia de que há três rapazes que inicialmente encontram a Gisberta… Enceta-se qualquer coisa que poderia vir a ser uma amizade, vão lá à hora de almoço, dão-lhe de comer e conversam, e semanas depois os mesmos rapazes e tantos outros acabam por submeter a Gisberta às agressões. Tudo isto jogou na decisão quase intuitiva de vir a escrever o “Pão de Açúcar”.

O assassinato, que aconteceu em 2006, ficou consigo estes anos todos? Ou houve algo que o tenha feito voltar a refletir sobre ele?
Na altura tinha 16 anos, tinha a idade dos rapazes mais velhos envolvidos no caso, e vivia no Porto. Obviamente, como em todo o País, chocou-me e impressionou-me muitíssimo. Mas isto é mais ou menos uma opinião banal. Quer dizer, qualquer pessoa olha para o caso Gisberta e revolta-se. Mas para mim o interessante foi transformar uma opinião ou uma visão mais ou menos escorreita, que qualquer pessoa pode ter, num aprofundar de uma história e numa abordagem verdadeiramente literária a um caso real. Lembro-me de ficar impressionado, mas depois o caso entrou mais ou menos, enfim, no esquecimento, na rotina, como outros casos mediáticos que de uma maneira ou outra nos chegam aos telemóveis e nos confrontam durante uns dias e depois caem mais ou menos no esquecimento. Em 2016, quando fez dez anos, li uma reportagem muito boa a relembrar os acontecimentos e aí é que decidi escrever o “Pão de Açúcar”.

Foi o gatilho que o fez querer escrever?
Foi claramente o gatilho, senti uma espécie de instinto literário em relação ao caso real.

O desafio literário acabou por corresponder às expetativas?
Não há expetativas propriamente ditas. As expetativas parecem-me sempre algo que nos pode fugir ao controlo. Quer dizer, não há expetativas porque o que há é uma pulsão literária. E portanto o que pode haver depois de o livro ter sido escrito é maior ou menor satisfação com o que se escreveu — mas não uma certa correspondência às expetativas que se tinha. A única expetativa real que tinha era escrever um romance e ele está escrito [risos]. Mas a escrita é uma coisa à parte, vai evoluindo de tal maneira que se adapta ao momento, ao contexto e não depende de uma expetativa, depende mais de uma necessidade criativa.

Uma das coisas que o Afonso estava a comentar que lhe interessaram foi o facto de esta ser uma realidade bastante distante da sua. Como foi esse confronto de realidades?
Bem, como era justamente uma realidade muito distante da minha — não só a da Gisberta, mas também a do contexto social dos rapazes envolvidos — implicou investigação. Da vida da Gisberta, do contexto dela no Porto depois de ter saído de São Paulo, fiz entrevistas a amigas da Gisberta, fui ao Pão de Açúcar, o próprio prédio abandonado onde tudo se passou. Li teses de doutoramento sobre crianças institucionalizadas. Houve uma série de passos que tomei justamente porque não dominava aquela realidade. Bastante ao contrário do meu primeiro livro em que a realidade que retrato… O livro é ficcional também mas a realidade conhecia porque tenho um irmão com síndrome de Down. Na história do “Pão de Açúcar” foi preciso quase ter esta pré-escrita. Depois desse momento é como se os pressupostos necessários fossem interiorizados e é de tal maneira que a escrita acontece como se aquilo tivesse sido vivido, porque já estamos no campo da imaginação.

O livro foi publicado em 2018.

A ideia foi pegar nessa realidade, nos factos que são conhecidos, e preencher os vazios?
Claro que há balizas, realidades objetivas, que não podia fugir de alguns pressupostos do caso real, mas quando estou a escrever está de tal maneira interiorizado que é como se também fosse ficção. Não há distinção entre o que é real e o que é ficcional, porque tudo passa pelo crivo da escrita.

Estamos agora a falar sobre este livro porque foram comprados os direitos para adaptar a obra ao cinema. Alguma vez pensou que seria uma possibilidade?
Não é algo que esteja dentro do jogo quando se está a escrever [risos]. Claro que é uma coisa que me alegra e espero que o filme seja bom e que corra bem, mas ao mesmo tempo também me amedronta um bocado porque me foge ao controlo. A coisa funciona com os direitos vendidos e com a produtora a tratar de tudo o que é necessário para fazer um filme. Isso foge-me ao controlo, não é? Mas ao mesmo tempo tenho de ter uma posição de respeito em relação a outro tipo de criação, o cinema. Que nada tem que ver com a escrita de um livro, é uma outra coisa, é quase como se fosse uma leitura do livro.

É importante que a história da Gisberta Salce Júnior seja contada no cinema?
Acho que o que será contado é quase já uma segunda leitura, a partir do livro, que por sua vez é uma abordagem literária. É como se estivesse já vários círculos distantes da história real. O que me atraiu na proposta que me foi feita é que a leitura da produtora foi muito séria em relação ao livro. Queriam perceber o que era ficção, o que era literatura. Pareceu-me que têm um entendimento sério do que é aquela abordagem. Agora, o que vão fazer com isso… não faço ideia [risos].

O Afonso teve conversas com a produtora, portanto, também para explicar a obra?
Sim, porque obviamente quis perceber que tipo de leitores eram e que tipo de abordagem tinham à leitura. Pareceu-me muito claro que não queriam um filme que fosse bandeira disto ou daquilo. Queriam um filme que espelhasse o livro e a sua abordagem — nomeadamente o facto de o livro ser contado a partir de uma personagem ficcional, o Rafa, o narrador, que participa nos eventos. Ele é um agente ativo, não fiável e é agressor. Isso pareceu-me que lhes interessou muito também.

Obviamente é um tema bastante relevante para o Brasil. Sente que o livro teve impacto no país?
Está lá, mas parece-me que não está propriamente a correr muito bem. Vão-me chegando algumas notícias de lá, algumas novidades, mas não se compara com o impacto que o livro tem tido em Portugal. Penso que a produtora brasileira, além do próprio livro e da história, outro dos fatores que lhes interessou foi que eles estão a implementar-se em Portugal e a história é quase como se fosse uma ponte entre Portugal e Brasil.

Acima de tudo, o que é que deseja?
A minha posição é quase de lavar as mãos [risos]. Não propriamente, é a ideia de um enorme respeito por uma abordagem cinematográfica. Não tenciono participar em guião, em escolhas cinematográficas. Acho que não devo. Sei escrever um livro, não sei fazer um guião. O guião tem, além de tudo, uma parte técnica que não domino de maneira nenhuma. O que tenho é confiança na proposta que me foi feita e acho que devo, a partir daí, entregar a história e confiar que será bem adaptada. Isso gera uma certa expetativa e medo também. Apesar de dizer isto, tenho um sentido de responsabilidade em relação ao que fiz e à história, mas tenho alguma confiança que corra bem e que esta ideia do olhar enviesado que está no Rafa consiga ser transposto para o filme — e que não seja simplesmente uma coisa a preto e branco, que haja meandros psicológicos que tentei colocar no livro. Mas é uma incógnita, estou muito curioso também.

A ideia foi logo ter essa perspetiva distinta em vez de uma descrição mais fiel e distante dos factos?
Sim, acima de tudo queria criar personagens. E, sobretudo, além da Gisberta, personagem perante a qual as outras se definem — ela põe em causa todas as personagens —, um dos grandes interesses foi criar o Rafa e essa ideia de um narrador não fiável, que nos está a levar pela mão e a contar-nos uma história, que depois se percebe que ele é agente nela, é parte interessada, está a confessar-nos alguma coisa de uma determinada maneira. Tentei que o leitor sentisse isso, que tivesse empatia e ao mesmo tempo repulsa.

Afonso Reis Cabral tem 32 anos.

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