Cinema

“A Plataforma” é o novo filme “nojento” da Netflix que se está a tornar viral

O thriller distópico espanhol chegou à plataforma de streaming na sexta-feira, 20 de março.
A história é uma metáfora sobre o capitalismo.

Goreng (Ivan Massagué) está preso numa prisão vertical com um número de pisos desconhecido. Cada um desses pisos representa uma cela e cada cela tem dois ocupantes e um enorme buraco retangular no meio do chão, de onde se pode ver um precipício vertiginoso que desce desde o topo da torre até à base. É por lá que, todos os dias, desce uma mesa flutuante com um banquete cheio de lagosta, massas, pratos elaborados, bolos extravagantes e vinho.

Essa mesa — que dá ao filme o título “A Plataforma” — serve para que os prisioneiros esfomeados se alimentem, mas há uma questão principal que torna toda a trama interessante: a mesa parte cheia do piso de cima (ou piso zero, na história), onde os dois primeiros prisioneiros comem tudo o que lhes apetece, e todos os outros ficam apenas com os restos que vão sobrando após as múltiplas descidas ao longo do edifício. Se todos comessem apenas aquilo de que precisavam, a comida seria suficiente para chegar ao piso de baixo. O problema, claro, é que isso não acontece.

É este o conceito em que se baseia a história do novo thriller da Netflix, que chegou à plataforma de streaming na passada sexta-feira, 20 de março. “A Plataforma” é um trabalho conceptual, realizado pelo espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, que pretende ser uma metáfora para aquilo que o capitalismo representa no seu estado mais corrupto.

Neste mundo distópico há criminosos, mas também voluntários dentro da prisão, que entram em troca de alguma forma de pagamento — Goreng foi para lá porque quer receber um diploma, mas também deixar de fumar. A cada 30 dias, os pares de prisioneiros são trocados e mudam de piso, sem nunca saberem onde vão parar de seguida. Se os colocarem no topo estão com sorte, mas se forem parar lá abaixo as coisas tornam-se feias.

A personagem principal começa a história no 48.º piso a partilhar a cela com Trimagasi (Zorion Eguileor), um idoso que foi preso por atirar uma televisão pela janela e matar um peão inocente. É ele quem lhe explica como tudo funciona. Àquele nível, a plataforma de comida chega sempre com alguns estragos — marcas de dentes nas pernas de peru, ossos meio comidos, marcas de mãos e pés em cima dos restos dos outros.

Cada piso tem acesso à plataforma por apenas dois minutos, o que significa que os prisioneiros se atiram violentamente quando chega a sua vez, comem e bebem tudo o que lhes aparece à frente e não podem tirar nada para comer mais tarde na cela, sob pena de morte. De vez em quando há alguém que se atira do precipício para morrer. Ou será que foi empurrado?

“A Plataforma” recebeu o prémio do público no Festival de Cinema de Toronto, no Canadá, em 2019, fator que ajudou a fechar um contrato de streaming com a Netflix. É um filme de terror claustrofóbico, por vezes descrito como “sádico” e “nojento”.

A ideia de classes é explorada pela premissa do filme como um reflexo da sociedade capitalista e da forma como as classes superiores são beneficiadas em relação às que estão em baixo — o que já lhe valeu algumas comparações com “Parasitas“. Cedo se torna claro que a plataforma começa a descida com comida suficiente para todos, mas quem está no piso de cima come sempre mais do que necessita, deixando os da base, por vezes literalmente, a morrer à fome.

Todos os prisioneiros sabem que vão trocar de piso ao fim de 30 dias, podendo ir parar ao topo ou ao fim, onde lhes chegará uma mesa vazia, cheia de migalhas e pratos lambidos. É aqui que entra em foco o pensamento ético das personagens, que podem comer tudo o que lhes apetecer ou deixar algo para quem está abaixo, sabendo bem que em breve poderão ser colocados no seu lugar. No entanto, muitos prisioneiros dos pisos superiores escolhem consumir calorias em excesso como forma de armazenar gordura suficiente que lhes permita sobreviver se, de seguida, forem parar à base da cadeia.

O timing do filme não podia ser melhor: com o mundo a enfrentar a pandemia do novo coronavírus, multiplicam-se os episódios de açambarcamento de papel higiénico, prateleiras de supermercado vazias, pessoas que constroem verdadeiros armazéns em casa para sobreviver ao isolamento social, deixando as lojas com pouco (ou nada) para os que chegam a seguir.

Até agora, a crítica internacional tem sido unânime: vale a pena perder 94 minutos da sua quarentena a ver este filme — e refletir sobre a forma como a sociedade se comporta quando está a atravessar as situações mais difíceis.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT