Cinema

“A Voz das Mulheres”: a história das violações que inspirou o filme nomeado para 2 Óscares

Estreia nos cinemas esta quinta-feira. Rooney Mara, Frances McDormand, Claire Foy e Jessie Buckley são algumas das protagonistas.
O elenco está recheado de atores de renome.

Não era um dos principais candidatos aos Óscares, mas quando os nomeados foram anunciados em janeiro, “A Voz das Mulheres” assegurou duas nomeações bastante importantes — a produção dirigida por Sarah Polley está a concorrer nas categorias de Melhor Filme e Melhor Argumento Adaptado.

Na madrugada de domingo para segunda-feira, 12 para 13 de março, decorre a cerimónia dos Óscares. Esta quinta-feira, dia 9, estreia nos cinemas “A Voz das Mulheres” — apropriadamente no dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher, que se celebra esta quarta-feira, 8 de março.

A narrativa baseia-se no livro homónimo de 2018, escrito por Miriam Toews — que por sua vez se baseia numa aterradora história real. O enredo desenrola-se na remota colónia de Manitoba, na Bolívia — uma comunidade de menonitas, congregações cristãs ultra conservadoras que rejeitam a sociedade moderna. 

Não usam eletricidade nem automóveis, vestem-se de forma sóbria e só falam um dialeto alemão da antiga Prússia. As mulheres não sabem ler nem escrever — e estão numa assumida posição de subserviência face aos homens. O que desencadeia toda a ação é uma série de violações, que na vida real aconteceram entre 2005 e 2009.

Mais de 100 mulheres e raparigas, entre os três e os 65 anos, foram violadas nesta comunidade durante este período de tempo. Os homens usavam um anestesiante destinado ao gado, que obtinham de um veterinário de uma comunidade vizinha, para sedarem as vítimas e fazer com que duvidassem do que tinha acontecido.

Inicialmente, os homens alegavam que não existiam quaisquer incidentes, que tudo se tratava de “imaginação selvagem feminina”. Mesmo que as vítimas acordassem com feridas e hematomas nos seus corpos. Depois, fizeram-nas acreditar que eram atos do Diabo.

Miriam Toews, autora canadiana do livro, cresceu numa comunidade menonita e usou essa experiência para pegar nesta história real e adaptá-la para uma obra com alguma ficção. Depois de vários ataques, as mulheres da pequena terra juntam-se às escondidas num celeiro para discutirem o que está a acontecer — daí que seja uma história centrada n’”A Voz das Mulheres”.

As perspetivas são diversas: há quem sinta uma raiva angustiante que alimenta uma sede de vingança; mas também quem tema as represálias de Deus e dos homens, e que defende que mais vale não agitar a comunidade. Existe até quem tente perdoar os atacantes — as discussões são morais e por vezes até filosóficas ou teológicas. As personagens são interpretadas por atrizes de renome, como Rooney Mara, Frances McDormand, Claire Foy, Jessie Buckley ou Judith Ivey.

No livro de Toews, há um homem que serve como aliado desta causa feminina e que funciona como narrador. August era um professor cuja família foi exilada da comunidade graças à curiosidade da mãe de saber mais sobre a vida moderna e exterior ao culto. Depois de um incidente que resultou na sua prisão, voltou à comunidade onde cresceu, o único local onde encontrou algum amparo — embora tenha uma noção mais alargada de tudo e compreenda como é a vida lá fora. No filme, August é interpretado por Ben Whishaw, mas não fica como narrador — esse papel cabe à personagem de Autje (Kate Hallett), que conta o que se passa ao embrião que está na barriga de Ona (Rooney Mara).

Na vida real, eventualmente as denúncias levaram a que o assunto fosse discutido abertamente dentro da comunidade. Quando os anciãos perceberam que era demasiado delicado e difícil para a sua jurisdição, chamaram a polícia boliviana, que conduziu uma investigação. Sete homens foram condenados pelas violações, um foi absolvido e outro fugiu à justiça. O médico que fornecia o anestesiante também foi condenado a uma pena de prisão.

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