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Cinema

Aclamado filme sobre a Síndrome de Tourette chega à Netflix

Baseado numa história real, “Mais Forte Que Eu” valeu um BAFTA ao ator Robert Aramayo.

Há histórias reais que parecem ter sido escritas para o cinema. A de John Davidson é uma delas. Depois de chegar às salas portuguesas em maio, “Mais Forte Que Eu” (“I Swear”, no original) ganhou agora uma segunda vida: o drama britânico está disponível na Netflix em Portugal desde 1 de agosto.

Realizado por Kirk Jones, responsável por “Nanny McPhee — A Ama Mágica”, o filme acompanha várias décadas da vida de John Davidson, o ativista escocês que ajudou a mudar a forma como a Síndrome de Tourette é encarada no Reino Unido. Robert Aramayo, conhecido por “Os Anéis do Poder”, assume o papel principal.

Diagnosticado aos 15 anos, John cresce numa pequena cidade escocesa durante os anos 80, numa época em que a condição neurológica era ainda pouco compreendida. Os tiques motores, movimentos involuntários e explosões verbais tornam rapidamente a adolescência num período marcado pela incompreensão, humilhação e isolamento.

O filme não tenta suavizar esse percurso. Na escola, John é alvo de provocações e violência. Em casa, a relação com a mãe torna-se mais complicada depois de o pai abandonar a família. Já na idade adulta, continua a enfrentar situações difíceis provocadas pelos tiques, desde entrevistas de emprego desastrosas a confrontos com desconhecidos que interpretam as suas palavras como insultos deliberados.

A história começa a mudar quando encontra pessoas dispostas a perceber aquilo que lhe acontece. John transforma então a própria experiência numa causa, dá palestras, visita escolas e colabora com associações para combater os preconceitos associados à Síndrome de Tourette.

Foi esse trabalho que acabou por torná-lo numa das figuras mais conhecidas no Reino Unido na sensibilização para esta condição. Em 2019, Davidson foi distinguido com a Medalha do Império Britânico pelo trabalho desenvolvido ao longo de vários anos.

O elenco conta ainda com Maxine Peake, Shirley Henderson e Peter Mullan, mas foi Robert Aramayo quem concentrou grande parte dos elogios. A interpretação valeu-lhe o BAFTA de Melhor Ator Principal em 2026, numa cerimónia que acabou também marcada por um episódio protagonizado pelo próprio John Davidson, produtor executivo do filme.

Durante a gala, realizada a 22 de fevereiro, no Royal Festival Hall, em Londres, Davidson sofreu um tique verbal involuntário quando Michael B. Jordan e Delroy Lindo estavam em palco para apresentar o prémio de Melhores Efeitos Visuais. O ativista gritou um insulto racial associado à coprolalia, uma manifestação da Síndrome de Tourette caracterizada pela vocalização involuntária de palavras socialmente inadequadas ou ofensivas.

O momento provocou surpresa na sala e tornou-se particularmente polémico depois de a BBC transmitir o insulto numa emissão em diferido. Tanto a estação britânica como a organização dos BAFTA acabaram por pedir desculpa pelo sucedido.

A noite, porém, ficaria igualmente marcada pelo reconhecimento do filme. Além de conquistar o prémio de Melhor Ator Principal, Aramayo tornou-se o primeiro intérprete a vencer também o BAFTA de Ator Revelação na mesma cerimónia.

A receção da crítica ajuda a explicar o entusiasmo. “Mais Forte Que Eu” soma 97 por cento de aprovação dos críticos e 98 por cento do público no Rotten Tomatoes.

O “The Guardian” descreve-o como uma obra “absorvente e compassiva”, destacando a capacidade de equilibrar os momentos dolorosos com humor sem reduzir Davidson a uma caricatura. A interpretação de Aramayo é igualmente elogiada pela “inteligência e charme” que leva à personagem.

Já a “Variety” destaca a forma “divertida, mas respeitosa” como o filme aborda uma condição capaz de provocar situações de grande desconforto social. A publicação sublinha também a imprevisibilidade da narrativa, que pode passar rapidamente de um momento cómico para outro potencialmente perigoso.

O “Screen Daily” considera que Kirk Jones faz “justiça calorosa a uma vida extraordinária”, enquanto a RTE descreve o projeto como “um filme belo” sustentado por uma interpretação “genial” de Aramayo. É, segundo o canal irlandês, uma história em que “se ri num momento e se sente vontade de chorar no seguinte”.

Apesar do tema pesado, “Mais Forte Que Eu” evita transformar a história numa sucessão de momentos de superação. É sobretudo um retrato sobre crescer e tentar encontrar um lugar numa sociedade que nem sempre compreende aquilo que não consegue controlar. Quem não teve oportunidade de o descobrir nos cinemas pode agora vê-lo na Netflix.

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