Cinema

Ana Moreira: “Falei com mães de filhos que desapareceram, foi intenso”

A atriz é a protagonista de “Sombra”, filme português inspirado em casos reais de desaparecimento, como o de Rui Pedro.
Foto de Luís Sustelo

Chama-se simplesmente “Sombra” e é o filme que vai relatar a história de uma mãe à procura do filho desaparecido durante muitos anos. Isabel é uma mulher que em 1998 tinha a família perfeita. Até que certo dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos, Pedro, desapareceu sem deixar rasto. O seu mundo desmorona-se.

O caso é falado em todas as televisões e jornais, as autoridades têm um suspeito, mas a justiça nunca consegue encontrar respostas. Apenas Isabel vai conseguir manter viva a busca pelo seu filho, que acredita ainda estar vivo, ao contrário de todos os que a rodeiam.

Não tem data de estreia, tendo em conta a incerteza que se vive na indústria do cinema, ainda a recuperar do encerramento, mas está apontado para o último trimestre do ano. O poster oficial e a primeira imagem foram divulgados a 1 de junho. É a segunda longa-metragem realizada e escrita por Bruno Gascon, que se estreou há dois anos com “Carga”, depois de três curtas-metragens.

A história é fictícia, mas Bruno Gascon inspirou-se em casos reais e para o seu trabalho de pesquisa falou com mães que viveram (e continuam a viver) esta realidade perturbadora. Uma delas foi Filomena Teixeira, mãe de Rui Pedro, cujo desaparecimento aconteceu precisamente em 1998 quando tinha 11 anos, e se tornou um caso imensamente mediático em Portugal.

A atriz Ana Moreira interpreta a protagonista, Isabel, e conta à NiT que, apesar do tema, é uma história de amor e de esperança. O elenco inclui ainda nomes como Joana Ribeiro, Vítor Norte, Tomás Alves, Lúcia Moniz, Sara Sampaio, Miguel Borges, Ana Cristina Oliveira, Oksana Tkach, Miguel Monteiro, Ana Bustorff, Sara Norte e João Cabral, entre outros. Leia a entrevista com Ana Moreira.

Qual foi a primeira impressão que teve do filme e do seu papel?
Logo na primeira leitura do guião, percebi que ia ser uma personagem difícil de fazer, é complexa, com muitas camadas, e atravessa um grande período de tempo. Percebi que era um filme muito denso, muito intenso, que ia envolver muitas emoções, tudo muito à flor da pele. E que ia ser um longo processo para construir esta personagem. A minha personagem leva praticamente o filme todo às costas, está constantemente em todas as cenas. É uma grande responsabilidade, os desafios eram diários. Foi uma grande, grande viagem.

Podemos esperar um filme pesado, dramático e sombrio, tendo em conta o tema?
Podemos esperar principalmente um filme que retrata a esperança e o amor e a luta de uma mãe que procura pelo filho desaparecido. Isso vem sempre com alguma carga emocional um pouco mais próxima de uma tristeza, mas sobretudo é um filme que retrata a incapacidade desta mulher de desistir, e da sua coragem em estar constantemente em movimento e à procura do filho.

Portanto, esse lado mais luminoso da esperança está bem presente. Como foi preparar este papel?
Este papel foi preparado em conjunto com o realizador, foi através de uma leitura profunda do guião com os outros atores, descobrir cena a cena quais eram as emoções mais justas, e foi um processo de descoberta durante essas leituras. Eram partilhadas sugestões, ideias, o Bruno também é muito aberto às sugestões que vêm dos atores, ele é um ótimo diretor de atores, é muito sensível e dirige muito bem, é generoso. Então foi assim um momento de partilha. E uma vez descobertas as personagens, na altura da rodagem as coisas avançam muito rápido e já não há grandes espaços para dúvidas ou momentos para grandes hesitações. Já temos de lá chegar seguros daquilo que vamos fazer. No entanto há sempre espaço para alterações.

Nessa fase anterior, da descoberta, houve alguma coisa que tenha feito ou explorado para se aproximar da personagem?
Eu tive oportunidade de falar com algumas mães, de casos de filhos que desapareceram, e que não encontram uma conclusão para estes casos, não encontram uma resolução e portanto vivem num limbo constante de não encontrarem o filho. Mas a grande pesquisa foi feita pelo Bruno que, por sua vez, partilhou comigo as suas conversas com estas mães sobre estes casos, aquilo que ele descobriu. Ou seja, muita da informação que eu tive foi através da voz do Bruno. Também porque creio que ele não queria que eu me fixasse numa só história, numa só mãe ou num só caso. Queria que, sendo isto um objeto de ficção, de alguma maneira fosse maior do que isso, que se abrisse ao mundo e que não se tornasse uma coisa tão específica. E, lá está, isto trata de emoções como o amor, a saudade, a luta e acho que isto são tudo emoções com que o público se consegue relacionar facilmente.

Não sei com que mães é que teve a oportunidade de falar, além da Filomena Teixeira, mas como é que foi conhecer estas mães que sofreram — e continuam a sofrer — com o desaparecimento dos filhos ao longo de tantos anos?
É uma experiência intensa, uma realidade complicada e que nos deixa uma marca, ao estarmos na presença de uma pessoa que tem esta bagagem, que tem esta vivência. É uma realidade que nos é distante, para a maioria das pessoas, felizmente. Mas uma pessoa não sai da mesma maneira depois de conhecer uma pessoa que sofreu tal acontecimento na sua vida.

Ainda não tem data de estreia.

Para o papel foi realmente útil conhecer estas mães?
Claro, ajuda-te a construir a personagem. E ajuda-te a entrar um pouco neste universo. Além das diretrizes do realizador, tens estas referências.

E todas as mães estavam abertas a que as suas histórias servissem de base para uma narrativa fictícia no cinema? Sentem-se representadas por um filme destes?
Sim, também se sentem representadas, de alguma maneira é uma espécie de forma de continuarem à procura. Que não sejam esquecidos. É continuar.

O facto de a Ana não ser mãe…
…Já percebi que essa pergunta me vai calhar muitas vezes, por ser mulher e a questão da maternidade. É por isso que se chama representar, certo? Interpretar algo. Podia ser mãe, podia ser uma árvore, podia ser uma gaivota, podia ser uma enfermeira, uma advogada. Por isso acho um bocado redutor que liguem a experiência da maternidade como algo pessoal, como se para representar uma avó tivesse de ter netos. Mas também faço de uma mulher casada e não sou casada.

Certo, ia fazer a pergunta porque o filme é muito sobre esta mãe e o facto de ser mãe, e esses sentimentos de maternidade. Ia perguntar se tinha explorado algo nesse sentido, para se aproximar da personagem.
Sim, mas de alguma maneira estamos a trabalhar a questão da ausência. É uma mãe de um filho ausente, por isso também estamos a trabalhar pelo lado da perda, do que não está lá, do que já não existe.

E essa perda até pode ser parecida com outros tipos de perda.
Exatamente. 

Em geral, quais são as características que tem mais em comum com a personagem? E há alguma que seja muito diferente?
Creio que a perseverança, a resistência à dor, a esperança, a incapacidade que ela tem de desistir embora tudo à sua volta seja um obstáculo. Acho que é isso. Muito diferente… Não sei dizer. Talvez ela tenha a capacidade de adormecer a sua dor, e uma certa capacidade de fingir que está bem, que eu acho que não tenho [risos]. 

A Ana estava a dizer que uma das características deste filme é que se passa ao longo de vários anos. Como é que foi criar essas diferenças temporais?
Estas diferenças temporais foram discutidas e pensadas com o Bruno, foram criadas através de uma energia diferente que tento transmitir ou expressar. No início ela é mais dinâmica, mais inquieta, mais energética. E depois há um certo cansaço que vai tomando conta do corpo dela. E isso vai-se vendo ao longo do filme, que no espaço temporal são cerca de 10, 13 anos. Esta batalha, constante luta e procura incessante, apesar de ela não conseguir parar, começa-se a ver no corpo e no rosto dela. E foi também feito através do trabalho de caracterização da maquilhadora, a Olga F. José, de um processo de envelhecimento que fizemos durante quase metade do filme.

Foram cerca de dois ou três meses a filmar em Viana do Castelo. O facto de ser em Viana do Castelo, sei que houve um apoio da autarquia… Mas o facto de ser lá é relevante para a narrativa?
Sim, houve um apoio da câmara municipal, da Viana Film Comission, foram esses apoios que nos deram todas as condições para o bom funcionamento do projeto. E foram incansáveis nisso. Mas acho que o lugar não é importante. Esta história tanto podia passar-se em Portugal como noutro sítio qualquer do mundo, é algo maior do que isso, não está circunscrito a um sítio. E acho que também é essa a mensagem que se quer passar.

Ou seja, é uma história universal que podia acontecer a qualquer mãe ou pai.
Sim, exato, em qualquer parte do mundo, e acho que é essa mensagem que se quer passar também.

Acredita que pode ser um filme com muita ressonância, que chegue a muitos portugueses que estão familiarizados com o tema, porque por vezes tratam-se de casos tão mediáticos?
Eu acho que sim, que é um filme que fala de amor, esperança, famílias, da perda ou da ausência. Acho que são tudo temas com que o público se pode relacionar. E no fundo é uma história bonita de amor, com alguma tristeza, mas é um filme de luz, como disseste. No fim traz sempre alguma luz e eu acho que o público pode gostar.

Era importante ter essa luz para contrabalançar?
Sim, a realidade em si já é muito pesada.

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