Cinema

“Another Round”: a história trágica por trás de um dos melhores filmes do ano

A produção dinamarquesa está nomeada para dois Óscares e foi dedicada à filha do realizador, que ia fazer uma das personagens.
Mads Mikkelsen é o protagonista.

Entre os muitos filmes que vão estar em destaque nos Óscares deste ano — muitos dos quais não estrearam ainda em Portugal, outros que já se encontram disponíveis — está o dinamarquês “Druk”, cujo título em inglês é “Another Round”.

Além de estar nomeado para Melhor Filme Estrangeiro, Thomas Vinterberg está nomeado para Melhor Realizador. É o primeiro filme que Vinterberg faz com o ator Mads Mikkelsen desde o aclamado “The Hunt – A Caça”, de 2012. Com a pandemia e os cinemas encerrados, ainda não estreou nos cinemas portugueses — o Cinemas Nimas foi o único que já anunciou que vai exibir o filme a partir de 29 de abril. Em Portugal o título traduzido ficou “Mais uma Rodada”.

Este é um filme original sobre quatro professores numa escola dinamarquesa que se veem embrenhados numa rotina cansativa — especialmente o protagonista, Martin, a personagem de Mikkelsen — que os deixa sem ânimo para viver a vida, tanto pessoal como profissional.

Depois de ouvirem falar de uma teoria de um psicólogo norueguês sobre o défice de álcool que os humanos têm no sangue — supostamente, um índice de 0,5 era o ideal para estarmos desinibidos e no nosso pico de produtividade e animação — os quatro começam a fazer essa experiência.

Ironicamente, a regra é que só podem beber no horário laboral. Têm de ir medindo o nível de álcool no sangue para saberem se estão com o grau certo ou se precisam de beber mais um copo. 

Esta premissa meio surrealista faz com que os quatro professores mudem os seus comportamentos nas salas de aula e na relação com as famílias em casa — obviamente, também vai levar a que o filme explore os problemas trágicos que o alcoolismo pode causar. 

Ainda assim, não se trata de todo de um filme anti-álcool. É sobretudo uma história sobre estarmos despertos para a vida e darmos o nosso melhor no dia a dia — neste caso, o método usado é que foi, por acaso, as bebidas alcoólicas.

O filme tem sido muito elogiado pela crítica e pelo público que já teve oportunidade de o ver. Na Dinamarca, foi mesmo um enorme sucesso de audiências. Mas por trás desta narrativa animada (embora com momentos profundamente dramáticos pelo meio) está uma verdadeira história de tragédia.

A ideia para “Another Round” nasceu quando Thomas Vinterberg recebeu na Dinamarca uma argumentista americana de Hollywood. A guionista conheceu a filha adolescente do realizador, Ida, e trocaram algumas palavras, numa conversa que seria marcante para o cineasta.

“Ela conheceu a minha filha e perguntou: então, o que vais fazer hoje?”, contou Thomas Vinterberg em entrevista à “Vulture”. “E ela respondeu: vou fazer a corrida do lago. E a argumentista perguntou: o que é isso? E ela respondeu: Ah, temos de correr à volta do lago e esvaziar uma grade de cervejas. E esta americana começa a olhar para mim e a perguntar: quando é que vais interferir? Ela tem só 17 anos. E eu começo-me a rir porque estou habituado a miúdos bêbedos nas ruas.”

“E aí ela diz: mas não vais ficar enjoada? E a minha filha: Bem, se vomitarmos, descontam-nos tempo. A argumentista começa a ficar agitada e questiona: então e a polícia? E a minha filha: ah, mas os professores estão lá! E de repente apercebi-me de que isto era um espelho em frente da minha sociedade. Tinha de olhar para isto”, continuou o realizador.

A Dinamarca, que muitas vezes é descrita como um dos países do mundo — ou como “o” país — com maiores índices de felicidade, também é um dos países em que é mais habitual que adolescentes consumam bebidas alcoólicas.

Assim, Thomas Vinterberg decidiu entrar neste imaginário, e mostrar como é a vida para os jovens nas escolas dinamarquesas — a corrida do lago é uma das cenas do filme — mas contar sobretudo a história do ponto de vista dos professores, quatro adultos maduros que já não estão habituados a beber regularmente mas que encontraram aí a possível chave para os seus problemas. E explora a relação geracional entre as várias personagens.

Quando leu o guião pela primeira vez, durante uma viagem a África, Ida escreveu ao pai como tinha adorado aquela história. O filme foi mesmo gravado na sua escola, na sala de aula da filha do realizador, e alguns dos seus amigos foram figurantes. E Ida ia aparecer na produção para interpretar a filha adolescente de Martin, o protagonista. 

Só que um trágico acidente de carro deixou-a sem vida, apenas quatro dias depois de terem começado as filmagens. Foi um choque. Vinterberg recebeu uma chamada da Bélgica, da sua ex-mulher. Ela estava a conduzir o carro na auto-estrada quando outro veículo, cujo condutor estava distraído ao telemóvel, provocou a colisão fatal. Ida Vinterberg tinha apenas 19 anos.

Ida Vinterberg com o pai numa antestreia.

“Quando ela morreu, eu estava rodeado de psiquiatras e eles disseram-me: se consegues comer e tomar banho, e se consegues olhar para as pessoas nos olhos sem chorar, então provavelmente devias voltar a trabalhar”, explicou o realizador na mesma entrevista à “Vulture”.

“E eu disse: eu não consigo. Porque eu estava sempre a chorar, e ainda estou. Depois falei com o Mads Mikkelsen e o editor e questionámo-nos: como é que podemos fazer um filme sobre quatro pessoas bêbadas quando isto aconteceu? Mas não podíamos recusar porque sabíamos que a Ida, a minha filha, iria odiar que desistíssemos do filme por causa dela. Por isso tornou-se muito importante para nós que este filme se tornasse uma afirmação da vida, que fosse muito mais do que simplesmente beber. Acabámos por o fazer para homenagear a memória dela. Acho que não me vou arrepender.”

O filme termina precisamente com uma dedicatória a Ida Vinterberg, que foi crucial para o desenvolvimento do guião, enquanto adolescente que levava uma vida comum na Dinamarca, com experiências como a tal corrida no lago. A personagem que ia interpretar foi excluída do enredo.

O psicólogo norueguês que falou publicamente desta teoria de que os humanos deveriam ter um nível mínimo de álcool no sangue — apesar de ele próprio descartar que seja uma teoria científica válida — adorou o filme e tem-no apresentado no seu país, referiu ainda o realizador. Na Dinamarca, foi um enorme sucesso. Há relatos de grupos de jovens que foram ver o filme durante várias semanas consecutivas antes de irem para mais uma noite de copos.

Thomas Vinterberg conta que não testou esta teoria do álcool no sangue, mas que conhece quem o tenha feito — inclusive o distribuidor francês de “Another Round”.

A relação da sociedade humana com o álcool já era um tema em que pensava há bastante tempo. “Há vários anos, eu olhava para a história do mundo e para as enormes conquistas e avanços e decisões que mudaram o mundo que foram tomadas e feitos por pessoas bêbedas. Pensei que isso era interessante, porque contrasta com o diálogo habitual que costumamos ter sobre o álcool. E quando mergulhei no tema, percebi que ainda era mais interessante — esta coisa que podia elevar as conversas e mudar a história do mundo também pode matar pessoas e destruir famílias.”

O elenco de “Another Round” inclui ainda nomes como Thomas Bo Larsen, Maria Bonnevie, Susse Wold, Albert Rudbeck Lindhardt, Lars Ranthe, Magnus Millang e Martin Greis-Rosenthal, entre outros.

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