“Vivi entre muita violência, álcool e drogas. As coisas eram loucas. As minhas notas não são um reflexo de quem sou. Se alguém me der uma oportunidade, não desiludirei”. Foi desta forma que Anthony Ramos se dirigiu aos responsáveis de uma bolsa de estudo capaz de mantê-lo no rumo certo para vir a ser ator.
Nascido no bairro de Bushwick, em Brooklyn, cresceu no seio de uma família porto-riquenha e viveu entre outros tantos que tentam ganhar a vida nas zonas mais pobres de Nova Iorque. Hoje, aos 31 anos, é uma das caras mais promissoras de Hollywood — e a estrela do novo filme ““Transformers: O Despertar das Feras”, que estreia esta quinta-feira, 8 de junho, nos cinemas portugueses.
A vida de Ramos não era para passar pelo cinema nem pelo teatro musical, onde ganhou notoriedade. Como recordou no podcast “WTF With Marc Maron”, o que queria mesmo era ser jogador de basebol. No entanto, desistiu da ideia ainda na escola e decidiu seguir a sua outra paixão: a música.
O facto de saber cantar abriu-lhe várias portas. Em primeiro lugar, só não chumbou no final do secundário porque cantou “Just My Imagination”, dos Temptations. “Se a cantares, eu passo-te”, disse-lhe em surdina a professora de ciências. Ramos, inspirado, lá convenceu a docente a dar-lhe a nota mínima de que precisava. Mais tarde, o facto de ter criado um grupo com dois amigos que cantavam clássicos da Motown voltou a ser uma mais-valia. Foi com uma versão de “Ain’t Too Proud to Beg” que conseguiu integrar o elenco de “Hamilton”, que lhe abriria as portas do mundo. Mas já lá vamos.
É que Anthony Ramos não tinha grande interesse em ser ator, mas sim cantor. “Eu participei em musicais no secundário, mas não era fã. Fi-lo porque assim podia cantar”, disse nessa mesma conversa com Marc Maron. A paixão no entanto, ficou. Depois de participar numa série de produções locais, teve a oportunidade de entrar na American Musical and Dramatic Academy, um conservatório sediado em Nova Iorque.
É neste período, porém, que surge a citação do início do texto. Ramos pensou em desistir porque estava sempre sem dinheiro, sentia-se a falhar, estava longe da mãe e o pai tinha abandonado a família. Valeu-lhe o pendor para o drama e a centelha de talento que os responsáveis da Seinfeld Scholarship — criada pelo comediante Jerry Seinfeld — viram nele. Ofereceram-se para pagar-lhe quatro anos de escolaridade. Ele fez dois e saiu para tentar fazer vida como ator.
Ramos participou em alguns espetáculos, mas os primeiros tempos foram tão difíceis que a semente da dúvida que sempre o acompanhou começou a crescer. Conseguiu alguns papéis pequenos, mas essas atuações não eram suficientes para finalmente largar o seu trabalho como funcionário de uma padaria. “Não disseste grande coisa…” foi o comentário que recebeu da senhoria do seu apartamento depois de aparecer como criminoso na popular série de televisão “Lei e Ordem”.

Mais tarde, o agente despediu-o, alegando que estava a “reduzir a carteira de clientes”, e teve de se aguentar sozinho. Sem apoio profissional, as portas começaram a fechar-se porque, como sublinha, “é praticamente impossível conseguires audições a filmes e séries sem um agente”.
A sua derradeira opção era continuar no teatro musical, mas também aí viu o futuro complicar-se. “Ao contrário do que acontece hoje, não havia papéis para homens latinos. Pensei em desistir. Era demasiado difícil. Estava super frustrado. Só pensava ‘porra, mas o que é que tenho de fazer?’” O desespero era tal que um amigo sugeriu que deixasse crescer o cabelo, “para parecer etnicamente mais ambíguo”.
Um musical que mudou tudo para sempre
Foi nessa altura que surgiu um homem que mudou a sua vida, Lin-Manuel Miranda, outro nome que tem crescido em Hollywood. Tal como Ramos, o ator e dramaturgo também começou por baixo. Para lutar contra a discriminação de que sofria a comunidade latina, criou uma produção que a celebrava essa condição. “Eu vi o ‘In The Heights’ na Broadway [em 2010] e foi aí que pensei: se calhar há espaço para mim”, afirma Ramos. A ironia é que quatro anos depois, seria ele a ter o papel principal dessa mesma peça — e, em 2021, entrou na adaptação para o cinema dessa mesma história, também como protagonista.
Antes, no entanto, aconteceu “Hamilton”, o fenómeno da Broadway que esgotou datas, bateu recordes e varreu prémios. Nessa peça baseada na vida de Alexander Hamilton, um dos fundadores dos EUA, Ramos foi um dos grandes destaques do elenco ao interpretar dois papéis. Ao sucesso juntou-se a notoriedade quando uma gravação da produção passou a estar disponível na Disney+ em 2020.
O mega sucesso de “Hamilton” fê-lo colocar um pé em Hollywood. Entrou no super êxito “Assim Nasce uma Estrela”, com Lady Gaga, e emprestou a voz aos filmes de animação “Trolls: Tour Mundial” e “Os Mauzões”. Foi através deste caminho que conseguiu chegar ao topo de Hollywood, pelo menos no que toca a produções bombásticas. Apesar de ser um dos atores principais do novo filme de uma das sagas mais lucrativas do mundo, considera-se ainda “um ator de série C”. “Depois do Shia LeBeouf e do Mark Wahlberg, sou o novo tipo do Transformers”, diz.
Em “Transformers: O Despertar das Feras”, Ramos interpreta Noah Diaz, um ex-militar especialista em eletrónica que toma contacto com um dos robôs gigantes ao tentar assaltar um carro. Na verdade, trata-se de Mirage, um dos Autobots que defendem os humanos de outros gigantes metálicos com intenções pouco nobres. Por coincidência, ou não, a personagem do ator vive com a família em Brooklyn em 1994. Ou seja, dificilmente teria um papel mais identificável com a sua experiência do que este.
O ator é acompanhado neste novo filme da saga Transformers por Dominique Fishback, Luna Lauren Vélez e Tobe Nwigwe no elenco de atores com presença física. Já no que toca ao rol de convidados para dar voz aos diferentes robôs, além de Peter Cullen (a imortal voz de Optimus Prime), entram Pete Davidson, Michelle Yeoh, Ron Pearlman e Peter Dinklage, entre outros.