Cinema

Aos 91 anos, Clint Eastwood continua a fazer filmes — e não quer parar

É ator e realizador em “Cry Macho”, onde anda a cavalo e até dá socos. A lista de planos está cheia e só não inclui a palavra reforma.
Um durão será sempre um durão

A reforma de Clint Eastwood é como as dietas: começa sempre amanhã. Aos 91 anos, a lenda viva do cinema prepara-se para ver estrear mais um filme com o seu nome no centro do cartaz.

O nonagenário nem sequer achou que se devia poupar apesar da idade. Além de assumir o papel de protagonista, uma antiga estrela dos rodeos que embarca numa missão para salvar um jovem de uma mãe alcoólica, decidiu tomar para si as dores de cabeça que chegam com o cargo de realizador.

Há 66 anos, participava no seu primeiro filme, “Revenge of the Creature”, um papel que não lhe valeu sequer um crédito oficial. E precisamente há meio século estreava-se como realizador em “Play Misty for Me”.

O ator chega a 2021 ainda com energia e socos para dar, num filme onde também arrisca andar a cavalo, apesar das preocupações da restante equipa de filmagem. E “Cry Macho”, que estreia esta quinta-feira, 16 de setembro, é um eterno projeto adiado que Eastwood sentiu ser agora a altura certa para tirar da gaveta.

O guião chegou às mãos do ator em 1988. Então com 58 anos, o ator achava que ainda “era demasiado novo” para interpretar o papel de Mike Milo. “Deixa-me realizar o filme e contratamos o Robert Mitchum, um tipo mais velho”, terá dito.

O filme acabou por nunca ser gravado, apesar de ter passado pelas mãos de outros cineastas — e ter quase avançado com Arnold Schwarzenegger no papel principal. “Sempre pensei que um dia voltaria atrás e olharia para o guião. Era algo para o qual eu tinha que me ambientar”, revelou ao “The Los Angeles Times”.

“Um dia, senti que estava na altura de revisitar o filme”, nota. “É divertido quando encontrar algo perfeito para a tua idade, quando não tens que te esforçar para ser mais velho.”

Velho talvez não seja a palavra certa, apesar de ainda frisar que os seus socos no ecrã já não são o que eram. “Podem não ser tão bons como os que já dei, mas foi certamente divertido”, confessa.

Em 1991, Eastwood tinha 61 anos e um físico invejável para a idade. Bíceps seco e definidos, abdómen sem excessos, peitorais de fazer inveja a homens 30 anos mais novos. Foi, por isso mesmo, capa da “Muscle & Fitness”, que revelou alguns dos segredos da boa forma do ator — e, sem dúvida, responsáveis pela sua longevidade.

Começou a fazer musculação aos 19. “Naquela altura só usávamos halteres”, explicou. “Gostava de levantar pesos porque sempre me soube bem depois de um treino. Também bebia muita cerveja e achava que essa era uma boa solução para me manter em forma.”

A disciplina era militar. “Quando trabalho à noite, treino de dia. Quando trabalho de dia, treino à noite”, esclareceu em 1991. “Tenho uma rica vida social”, ironizou sobre a inflexibilidade dos seus horários.

A boa forma era, para si, inegociável. “É o que tens que fazer e pronto.”

A alimentação era regrada. “Nunca come gorduras, toma os seus antioxidantes religiosamente, treina como um demónio, dorme bem (…) Tornou-se quase num super-humano. Tem uma força incrível”, explicou à “Muscle & Fitness” o seu treinador.

Trinta anos depois, a genética e a natureza tornaram impossível a manutenção dessa forma física. Mas, em termos comparativos, está bastante mais em forma do que a maioria dos homens da sua idade. E continua a ter todos os cuidados.

De acordo com a “Closer”, Eastwood tem um chef pessoal que cuida da sua dieta, que consiste em comidas ricas em proteína e com baixo teor de gordura. E continua a “treinar todos os dias”, entre levantamento de pesos e flexões.

Claro que os 90 o obrigaram a adotar novos métodos. Hoje, por estranho que pareça, Eastwood é um adepto da meditação. “Medito duas vezes por dia e é perfeito porque me dá a possibilidade de reunir todos os meus pensamentos”, explicava em 2009 à “GQ”.

Continua a fazer exercício ao ar livre, embora tenha que evitar atividades “demasiado extenuantes”. E se o corpo já não é o que era, a mente está mais fresca do que nunca, apesar de ter sido obrigado a reduzir a carga de trabalho. Agora, opta por ter apenas um projeto de cada vez.
Não se pense que isso é pouca coisa. Eastwood poderia muito bem estar sentado no sofá a gozar os louros de uma longa e rica carreira. Mas prefere continuar a trabalhar.

“Por que raio é que ainda estou a trabalhar com 90 anos?”, admite questionar-se de vez em quando. “Cheguei ao ponto em que por vezes penso se já fiz o suficiente, mas não ao ponto em que decido que fico por aqui.”

Quando não está no set a dirigir e a interpretar cenas, Eastwood dá prioridade às pequenas coisas que o fazem feliz: uma boa refeição, ler guiões de novos projetos e jogar golfe.

No seu campo de golfe na Califórnia

E por falar em golfe, é no seu campo na Califórnia onde passa a maior parte do tempo. O Teháma Golf Club é o seu tesouro de mais de 800 hectares, um clube com uma área residencial privada que tem vindo a fazer crescer há quase seis décadas.

Eastwood conheceu a zona em 1951, quando ali fez a formação militar, depois de ter sido chamado pelo exército para a guerra Coreana. Foi lá também que gravou “Play Misty for Me”, o seu primeiro filme no cargo de realizador.

É no interior dos terrenos que comprou em 1979 que fica o seu rancho, o Mission Ranch. “A primeira vez que vi o sítio, achei que era incrível. Visualmente era do outro mundo e achei que seria o sítio ideal para criar um lar. Pode dizer-se que adotei Carmel [a cidade onde se instalou].”

A pequena localidade tornou-se muito mais do que um novo lar. “Gradualmente, tornei-me parte da comunidade. A cidade deu-me uma perspetiva diferente da indústria cinematográfica”, revela. Mas quando lhe foi negada uma autorização para renovar um edifício que tinha comprado, puxou do seu lado durão e prometeu ir à luta.

“Não havia ninguém que pudesse concorrer [à presidência da câmara]”, justifica. Quando percebeu que outros moradores viam os seus pedidos de obras negados pela autarquia, decidiu fazer justiça. “Ao fim de beber uns quantos copos, decidi que seria eu o candidato. Decidi que iria ganhar.” Em 1986, foi eleito presidente com uma votação esmagadora. Manteve-se no cargo durante dois anos.

Hoje, Eastwood continua a ser um ídolo na comunidade, onde continua a viver, longe da agitação de Los Angeles. E com “Cry Macho” arrumado, os guiões continuam a ser atentamente folheados no Mission Ranch.

“Não tenho nada a marinar neste momento”, confessa ao “LA Times”. “Mas…”, interrompe a linha de pensamento, “também não tinha nada a marinar antes deste projeto”. “Se eventualmente surgir algo cuja história em si seja divertida de contar, estou aberto a tudo.”

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