Cinema

Balas reais e “complacência” terão conduzido ao disparo fatal de Alec Baldwin

A investigação ao incidente aponta para a inexperiência e descuido como causas do acidente que matou a diretora de fotografia.
Baldwin no set, antes do incidente

“Estava muito nervosa e cheguei mesmo a ponderar não aceitar o trabalho porque não sabia se estava preparada. Mas depois correu tudo muito bem”, revelou Hannah Gutierrez-Reed num podcast, cerca de dois meses antes de ser contratada para fazer a supervisão das armas no set de “Rust”.

Contrariamente ao que revelou a filha de um conhecido especialista e consultor de Hollywood, Thell Reed, novos testemunhos indicam que nem tudo correu assim tão bem nesse primeiro trabalho. Gutierrez-Reed fez a estreia noutro western, “The Old Way”, e terá mesmo provocado a fúria de um dos protagonistas, Nicolas Cage.

O episódio foi revelado por um dos membros da equipa de filmagem, Stu Brumbaugh, que disse ao “The Wrap” que Gutierrez-Reed terá disparado uma arma perto do local onde estava o elenco — o que, alegamente, irritou Cage.

“Avisa antes de o fazeres, acabaste de rebentar o caralho dos meus tímpanos”, terá gritado o ator. Não terá sido sequer o primeiro disparo não anunciado, facto que enfureceu o ator que ao ponto de o levar a abandonar o set.

Apesar destas alegações terem sido negadas por um produtor do filme, a verdade é que Hannah Gutierrez-Reid é a peça central da investigação que decorre aos acontecimentos de 21 de outubro. Alec Baldwin disparou acidentalmente uma arma no set que resultou num morto e num ferido. Uma semana depois do incidente, começaram a ser revelados mais pormenores que pintam o cenário vivido no Bonanza Creek, a quinta que é cenário habitual de diversos filmes, sobretudo westerns.

De acordo com detalhes obtidos pelo “The New York Times”, o dia de gravações começou sem grandes confusões mas bem cedo, pelas 6h30. Isto apesar de pelo menos seis membros da equipa de filmagem terem abandonado o trabalho em protesto pela falta de pagamento,  pelos turnos de quase 13 horas e pelas más condições de alojamento. Foram substituídos por outros membros da equipa e os trabalhos continuaram.

Depois de almoço, o protagonista, o produtor do filme e um pequeno grupo de pessoas deslocaram-se para a pequena igreja improvisada para retomarem os ensaios de uma das cenas do filme. Das cerca de 100 pessoas que estavam no local, apenas 16 se encontravam nas imediações da igreja.

À entrada do local, pousadas num pequeno tabuleiro, estariam três armas à responsabilidade de Gutierrez-Reed. Uma delas foi entregue a Baldwin, não sem antes passar pela mão de Dave Halls, assistente de realização, que achou que se tratava de uma réplica. De acordo com o protocolo, gritou “cold gun” para que todos pudessem ouvir — expressão que indica que nenhuma arma em uso está carregada —, antes de a colocar nas mãos do protagonista.

Halyna Hutchins foi a única vítima mortal do disparo.

Por se tratar de um ensaio, nenhuma das câmaras estava a gravar. Baldwin estaria sozinho num dos bancos da igreja e teria, com a mão direita, de tirar a arma do coldre do lado esquerdo antes de a apontar diretamente para a câmara.

Precisamente atrás da câmara estava o realizador Joel Souza e a diretora de fotografia Halyna Hutchins, a controlarem de perto toda a cena. Souza estava atento aos monitores quando ouviu “o que parecia um chicote e depois um estalido ruidoso”, explicou à polícia.

Hutchins terá sido projetada para trás e caiu no chão, agarrada ao estômago. O realizador reparou depois que tinha o ombro ensanguentado. O caos tomou conta do set.

A médica presente no local foi a primeira a chegar a Hutchins, enquanto outro membro da equipa pedia socorro urgente. “Estamos a ensaiar? Ninguém avisou que ia haver um disparo”, terá gritado a médica. Os avisos acontecem quando são usados efeitos especiais para simular disparos e explosões. Todos ouviram um disparo, mas ninguém ouviu qualquer aviso. Foi tudo inesperado.

A bala disparada terá atravessado Hutchins e ferido Souza no ombro, onde ficou alojada. O realizador de 48 anos sofreu apenas ferimentos ligeiros. A diretora de fotografia de 42 anos não resistiu ao disparo e foi declarada morta à chegada ao hospital, a mais de 80 quilómetros de distância.

Assim que os feridos foram retirados, as atenções viraram-se para a arma, um revólver Long Colt de fabrico italiano. De acordo com as autoridades, o projétil que matou Hutchins seria mesmo real. “Consideramos ter sido uma bala real porque foi efetivamente disparada pela arma e causou a morte de uma pessoa e feriu outra”, revelou o responsável pela investigação.

Durante as buscas foram recolhidas cerca de 500 munições e, entre balas de pólvora seca e de treino, foram encontradas balas reais. No caso das últimas, nunca deveriam estar presentes no set de gravações. Questionado sobre a existência de munições reais no local, o xerife foi peremptório: “Creio que houve alguma complacência.”

A arma passou pelas mãos de Gutierrez-Reed e Halls antes do disparo.

Apesar de terem sido encontradas no local, o grande mistério reside em esclarecer como é terão ido parar à câmara da arma entregue a Baldwin. Contudo, os relatos que chegam do Ministério Público é de que surgiram boatos de que, em dias anteriores ao acidente, alguns membros da equipa de produção terão usado armas para praticar tiro ao alvo com balas reais. Rumores que, sublinham as autoridades, “estão por confirmar”.

Ainda assim, o “The New York Times” cita três ex-membros da equipa de produção de “Rust”, que se recordam de dois tiros acidentais ocorridos cinco dias antes do incidente. Os disparos terão sido dentro de uma cabana usada como cenário.

Por enquanto, as autoridades ainda não efetuaram qualquer queixa crime, mas todas as hipóteses estão em cima da mesa. “Se os factos, as provas e a lei sustentarem uma acusação, daremos início ao processo”, revelou o representante do ministério público, que avisou que poderão ser necessárias várias semanas ou meses para que possam ser tiradas conclusões definitivas.

As atenções viram-se assim para duas figuras: Gutierrez-Reed, a responsável pela preparação das armas na produção; e Dave Halls, o assistente de realização que entregou a arma a Baldwin. Numa confissão entregue à polícia, explica que Reed lhe entregou a arma para uma segunda verificação. Halls confessou que “deveria ter verificado” cada uma das câmaras do tambor do revólver, para se certificar de que não havia qualquer projétil no interior da arma, mas que não o fez.

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