Cinema

Bombas de farinha, gritos e batota. O concurso Miss Mundo mais louco de sempre

Este episódio nos loucos anos 70 inspirou o filme "Mulheres ao Poder", que já chegou aos cinemas portugueses.
"Mulheres ao Poder" inspira-se em história real.

Manda a tradição que elas têm de ficar bem de vestido e de fato de banho. Têm de estar maquilhadas, falar docemente, ter o desejo pela paz no mundo e ambições como casar, ter filhos e sorrir para os vizinhos. Estamos em 1970 e o concurso Miss Mundo é um evento anual na “BBC”, daqueles capazes de rivalizarem com o campeonato do mundo de futebol. Há milhões de olhares, de dezenas de países, focados numa festa em que tudo tem de ser perfeito.

Estamos, no entanto, nos tais anos 1970. E a perfeição está prestes a ser abalada. É o tempo dos primórdios da revolução sexual. Há protestos em que se queimam soutiens para lembrar (ou em certos casos para afirmar pela primeira vez) que a mulher não é objeto, nem tem de ser dama do lar. Que a feminilidade pode ser muita coisa mas não perfeição que não é coisa de humanos.

“Mulheres ao Poder” conta com um elenco liderado por Keira Knightley e chegou esta quinta-feira, 8 de outubro, aos cinemas portugueses para, com um pouco de comédia, nos contar um episódio inspirado em factos reais.

O concurso de 1970 de Miss Mundo foi histórico. No filme, Keira integra um grupo de mulheres, ativistas, que se prepara para estragar o evento. Há 50 anos, houve bombas de farinha (que fizeram sujidade mas não feridos) e apupos à porta da mítica sala de Royal Albert Hall, em Londres, tudo para estragar um evento que, até então, ainda era motivo de orgulho para a cadeia britânica de televisão. Mas os tempos estavam a mudar. E ainda bem.

O concurso nunca mais foi o mesmo.

Se nos acompanhou até aqui no texto, é possível que o que se segue contenha alguns spoilers. Nada que estrague por inteiro um filme que procura prestar atenção não apenas aos direitos das mulheres mas também à complexidade de outras formas de discriminação. Este foi um evento histórico que consagrou uma miss negra, algo impensável até então. O que quer dizer que ao mesmo tempo que havia mulheres a protestar contra a forma como o concurso retratava as mulheres, havia outras mulheres ainda com menos voz na sociedade, e que procuravam ter ali uma oportunidade de se poderem expressar.

O racismo estava patente na tradição das vencedoras mas noutros detalhes mais sórdidos. A África do Sul, por exemplo, que vivia em regime de apartheid, contou com duas representantes, uma branca (Jillian Jessup, que concorreu por “South Africa”) e uma negra (Pearl Jansen, que concorreu por “Africa South”). Mas esta não foi a única bizarria —  nem tão pouco a única coisa a correr mal.

O próprio apresentador, o histórico comediante Bob Hope, não teve humor de reserva para lidar com os protestos., como recorda o jornal britânico “The Guardian”. E na hora de escolher a vencedora, quatro dos nove jurados tinham uma candidata europeia entre as suas escolhas.

A vitória, porém, recaiu sobre outra candidata, uma que tinha o primeiro-ministro do seu país como membro do júri. Foi uma vitória histórica que ficou ao mesmo tempo manchada pelas circunstâncias. É que além dos protestos de quem era contra o evento, os fãs do concurso Miss Mundo acabaram por protestar, mas contra a escolha da vencedora. Foi um desastre completo, não há dúvida. Daqueles casos em que tudo correu tão mal que até dava um filme.

“Mulheres ao Poder” conta ainda no elenco com nomes como Gugu Mbatha-Raw, Jessie Buckley, Kajsa Mohammar, Ruby Bentall ou Rhys Ifans além de Greg Kinnear no papel de Bob Hope. A realização está a cargo de Philippa Lowthorpe

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