Cinema

“Bros”: a nova comédia romântica gay tem coisas boas, mas acaba por reforçar estereótipos

Estreou esta quinta-feira, 24 de novembro. Apesar de falharem em alguns aspetos, mostram a complexidade dos relacionamentos LGBT.
Acaba por ser um bom passo em termos de representatividade.
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Todos os anos chegam várias comédias românticas às plataformas de streaming e salas de cinema. Em 2022, um dos grandes sucessos do género é “Bilhete Para o Paraíso”, com Julia Roberts e George Clooney. Na Netflix, podemos destacar “Caidinha pelo Natal”, que marcou o regresso de Lindsay Lohan ao cinema. O que é que ambas têm em comum? Contam a história de um amor heterossexual.

Na verdade, contam-se pelos dedos de uma mão as romcoms que destacam uma relação entre dois homens. Se olharmos só para os projetos dos grandes estúdios, existe apenas uma: “Bros — Uma História de Amor”. O filme da Universal Pictures estreou esta quinta-feira, 24 de novembro, nas salas portuguesas. O projeto prometia ser revolucionário, ficou aquém das expectativas de muitos membros da comunidade LGBTQIA+.

O comediante Billy Eichner interpreta Bobby Lieber, um solteirão com mais de 30 anos que nunca teve um namorado. A sua atenção está focada apenas numa coisa: a inauguração do primeiro museu dos Estados Unidos da América onde se ensina a história da comunidade gay, e onde se destacam as várias figuras emblemáticas da mesma.

“Bros” também é protagonizado por Luke Macfarlane, no papel de Aaron. Tal como Bobby, está fechado à possibilidade de se apaixonar. Também ele na casa dos 30, dedica muito do seu tempo ao ginásio, e evita falar de sentimentos ou de política com a família.

Se há algo que o filme realizado por  faz bem é mostrar a futilidade do sexo casual entre dois homens. Poucos homossexuais desconhecem a aplicação Grindr, que é muitas vezes mencionada no projeto. Por ali não se encontra amor, mas sim one night stands com pessoas com as quais nunca mais falaremos.

Muitos encontros baseiam-se num simples “olá” e “o teu apartamento é muito giro”, antes de passarem ao sexo muitas vezes desapontante. Bobby, contudo, começa a ficar farto deste estilo de vida — e com razão. Os homens heterossexuais podem ter relações superficiais, mas não se comparam aos relacionamentos gay.

“No fat” (“gordos não”) e “no femme” (“femininos não”) são expressões que acompanham muitos perfis no Grindr. Mesmo com todos os movimentos de body positivity que marcam a sociedade atual, existe um padrão predominante entre os utilizadores da app: apenas se procuram corpos fit de homens másculos.

Uma realidade que Bobby tenta combater. Não por ser afeminado, mas porque não tem aquele físico bombado tão desejado entre os homossexuais. A certa altura, vemo-lo a injetar esteroides antes de entrar em pânico por estar a perder a “janela ideal” para ir treinar no ginásio. Uma crítica óbvia, mas que acaba por perder impacto quando temos em consideração que o seu interesse amoroso é a representação de todos os ideais da comunidade, enquanto que Bobby também não está, de todo, fora de forma.

Aquando do lançamento do primeiro trailer nos Estados Unidos, foram feitas outras críticas ao filme, nomeadamente a falta de representatividade nos papéis principais. Tendo em conta o alcance que a produção poderá ter, a Universal acabou por falhar ao não apostar em ter, pelo menos, uma pessoa não branca em destaque.

No entanto, as restantes personagens acabam por refletir as diferentes personalidades que fazem parte da comunidade. A ajudar Bobby na abertura do museu temos uma mulher lésbica, uma transgénero e um bissexual. Infelizmente, são retratados de uma forma bastante unidimensional, espalhando alguns dos estereótipos, como o facto de serem barulhentos e estarem constantemente a discutir.

Apesar de falhar nalguns aspetos, acaba por acertar outros. Sexo casual é algo comum entre homens gay, o que está representado no filme, como já referimos. Outro dos temas abordados é a complexidade das relações que, com o tempo (e com sorte), acabam por se estabelecer. Muitos casais gays mantêm relacionamentos abertos — e bastam cinco minutos no Grindr para confirmar que não são raros. Em “Bros”, estas escolhas não são apresentadas com desdém, mas sim como amores naturais que acabam por fugir aos padrões da comunidade.

No que diz respeito à história de ambos os protagonistas, esta vai ao encontro daquilo que é típico de uma comédia romântica. Todos já sabemos o que vai acontecer mas, mesmo assim, esperamos ansiosamente para ver como se desenrola. O relacionamento começa de forma bastante casual e, o que era para ser apenas um one night stand, transforma-se em horas à frente do telemóvel a trocar mensagens.

Quando tudo parecia estar a correr bem, zangam-se e percebem que podem ter desejos e ambições incompatíveis. Felizmente para todos os românticos incorrigíveis, o filme termina com um gesto grandioso típico do género, e que faz com que ambos acabem juntos e, claro, felizes para sempre — e sem um terceiro membro na relação.

No geral, “Bros” é uma boa comédia romântica para quem pretende conhecer melhor a comunidade gay e as diferentes nuances das relações homossexuais. Para aqueles que já a conhecem bem, a produção poderá ser ligeiramente desapontante. Não obstante, é um passo importante em direção a uma maior representatividade da comunidade homossexual na indústria do entretenimento.

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