Cinema

“Sou do Tennessee. Mal nascemos, ficamos a conhecer duas figuras: Jesus e Elvis”

A NiT esteve à conversa com Cailee Spaeny, a atriz de 24 anos que encarna Priscilla Presley em "Priscilla", o novo filme de Sofia Coppola.
Uma história pouco conhecida.

Elvis e Priscilla Presley formaram, na década de 60, um dos casais mais mediáticos da história da indústria da música. Quando se conheceram, ela tinha apenas 14 anos. Ele, 24. Além da diferença de idade, o relacionamento ficou marcado pelas controvérsia e abusos. A história da mulher de Elvis é agora revisitada num filme que chegou aos cinemas portugueses esta quinta-feira, 7 de março.

“Priscilla” é a nova obra realizada por Sofia Coppola e baseia-se no livro de memórias escrito pela esposa de Presley e por Sandra Harmon, “Elvis and Me”, publicado em 1985. A produção acompanha a jovem Priscilla a partir do momento em que se cruza pela primeira vez com Elvis, aqui interpretado pela estrela em ascensão Jacob Elordi, conhecido pelos papéis em “Euphoria” e “Saltburn”. Foi esse primeiro enconro que fez despertar uma relação intensa que atirou Priscilla para o centro do furacão de um dos romances mais famosos da história da cultura pop.

“A história do relacionamento entre Priscilla Beaulieu e Elvis Presley desde que se conheceram numa festa na Alemanha enquanto ele cumpria o serviço militar e quando ela tinha apenas 14 anos, durante o prolongado namoro e, depois, ao longo do casamento turbulento que durou até ao divórcio em 1973”, lê-se na sinopse. O papel de protagonista ficou nas mãos de Cailee Spaeny, jovem atriz de 25 anos. Graças ao papel, recebeu uma nomeação aos Globos de Ouro, na categoria de Melhor Atriz em Filme Dramático, apesar de não ter vencido. Venceu, no entanto, o prémio de Melhor Atriz no Festival de Veneza.

Interpretar esta figura real foi, para Spaeny, um grande desafio, sobretudo porque Presley pôde assistir com vida ao seu retrato idealizado por Coppola. Um nervosismo que, confirma à NiT, esteve sempre presente mas que ficava em segundo plano durante as gravações. Muito graças à estratégia criada por Sofia Coppola, a realizadora, que se procurou certificar de que toda a gente se divertia — e chegou mesmo a criar um campo de pickleball nos estúdios. A NiT esteve à conversa sobre estes e outros temas com Cailee Spaeny.

Como se preparou para o papel?
Tentei fazer o máximo que pude para me preparar. Interpretar uma pessoa real, especialmente uma que ainda que cá está, acarreta uma grande responsabilidade. Além disso, senti muita pressão por trabalhar com a minha realizadora de sonho, a Sofia Coppola. Espero trabalhar sempre arduamente em todos os meus projetos, mas este estava noutro nível. Fizemos tudo o que podíamos. Tivemos o máximo de conversas possível com a realizadora. O filme também é baseado no livro que a Priscilla publicou em 1985 e eu li-o todo. Depois tive a honra de me encontrar com ela e isso deixou-me perceber a mulher que ela é. Vi o mundo através dos seus olhos. Durante a preparação para o papel também lhe fiz muitas perguntas. 

Porque é que a Sofia é uma inspiração tão grande?
Conheci o trabalho dela quando era muito nova. Tinha apenas 14 anos e estava a passar por muitas mudanças. Nunca tinha visto alguém a retratar raparigas adolescentes como a Sofia. Ela não as subestima, dá-lhes uma voz e abre as portas para terem lados mais obscuros, necessidades e desejos. Tudo o que estava fechado no meu cérebro foi desbloqueado e senti que tinha permissão para, às vezes, ser complexa. Dizem que não devemos conhecer os nossos heróis, mas ela ultrapassou todas as minhas expectativas.

A Cailee estava sentada ao pé da Priscilla quando apresentaram o filme no Festival de Veneza. Como foi estar mesmo ao lado da mulher que interpretou enquanto viam o filme juntas?
Já tinha tido oportunidades de ver o filme antes de Veneza, mas nunca o quis fazer porque achava que, caso o visse, ia começar a duvidar de tudo o que fiz. Quando chegou a altura de o exibirmos  no festival, perguntei à equipa se me podiam tirar do público quando começasse a ser transmitido. Não queria vê-lo. Mas depois ouvi uma voz na minha cabeça a dizer: “Cailee, o que é que estás a fazer? Estás no Festival de Veneza com a tua realizadora favorita, a Priscilla está aqui. Estás a celebrar este filme com pessoas que gostas. Isto é um sonho tornado realidade”. Era ridículo não ver o filme porque tinha medo. Depois sentaram-me ao pé da Priscilla Presley e comecei a entrar em pânico porque tinha de o ver ao lado da mulher que interpretei. Foi uma experiência bizarra e estranha. Às vezes fechava os olhos durante algumas cenas. Quando chegou ao fim, ela virou-se para mim e disse que retratei perfeitamente a vida dela. Ter este feedback dela foi tudo para mim.

Que semelhanças sente que tem com a própria Priscilla?
A Sofia queria encontrar uma atriz que conseguisse interpretar a Priscilla entre os 14 e os 27 anos. Quando fui escolhida tinha 24 anos, mas tinha um aspeto jovem e isso foi muito importante. Era imperativo que no início ela parecesse ter 14 anos. A Sofia deu-me um dos meus primeiros papéis quando eu tinha 16 anos. O diretor de casting dela já me conhecia. Este projeto apareceu e perguntaram-me se podia ir a Nova Iorque para me encontrar com a Sofia e beber café com ela. Não sabia qual era o filme e estava muito nervosa. Durante a conversa ela tirou um iPad e começou a mostrar-me fotos da Priscilla e perguntou se eu conhecia a história dela. Eu disse-lhe que não, o que era surpreendente porque eu era uma grande fã do Elvis. Depois comecei a gravar um filme com a Kirsten Dunst, que é uma grande amiga da Sofia, e acho que ela me recomendou e falou bem de mim. Não fizemos nenhum casting, mas começámos logo a gravar. Uma coisa que define bem a Sofia é o facto de ela ter sempre bem claro aquilo que quer.

Quando é que ouviu Elvis pela primeira vez?
Estava a tocar uma música dele quando eu nasci. A minha mãe também tinha uma espécie de santuário em casa em sua homenagem- Nós tínhamos os discos todos, ele sempre esteve muito presente na minha vida. Aqui nos EUA o Elvis é um grande ícone, especialmente no sul, e eu sou do Tennessee. Mal nascemos, conhecemos o Elvis. Jesus e Elvis.

Qual foi o maior desafio em interpretar esta personagem?
O maior desafio foi mesmo interpretar uma pessoa real que no final de tudo vai ver o filme. Passei algum tempo a sós com a Priscilla e as minhas prioridades mudaram. Estava focada em trabalhar nesta produção da Sofia Coppola, mas quando conheci a Priscilla tudo isso se tornou secundário. O meu objetivo passou a ser protegê-la e fazer com que ela se sentisse segura. Ela passou por tanto na vida e queria que isto fosse bem feito. Que fosse uma homenagem.

Trabalhar coma sua realizadora de sonho foi tudo o que imaginava que seria?
A Sofia criou um campo de pickleball no estúdio. Entre os takes e à hora do almoço, se tivéssemos tempo, toda a equipa juntava-se e jogávamos. Acabamos por criar um torneio muito sério. No final, toda a gente tinha nomes para as equipas e tínhamos rondas diferentes, com desqualificações. A certa altura tínhamos uma máquina de fumo e quando entrávamos no campo ligávamo-la e púnhamos música a tocar. É engraçado pensar nisso porque gravámos um filme que aborda uma história de muitos anos em apenas 30 dias, mas mesmo assim arranjámos tempo para nos divertirmos. Esse é um aspeto fantástico da Sofia. Ela sabe que há tempo para levarmos o trabalho a sério e tempo para nos divertirmos. Só assim é possível fazermos um bom trabalho. 

A Cailee esteve na última edição dos Globos de Ouro. Como é que foi essa experiência?
Conheci a Taylor Swift, por isso acho que já posso morrer feliz. Os Globos de Ouro foram tudo aquilo que eu imaginava quando eu era miúda e pensava na vida em Hollywood. Tento não levar estes eventos muito a sério, porque acho que trabalharmos apenas para os prémios pode prejudicar a nossa saúde mental. Em vez disso, pensei apenas que podia ser a última vez que ia experienciar algo assim. Queria apenas divertir-me, usar um vestido bonito, falar com as pessoas que admiro e aproveitar. Senti-me uma sortuda por lá estar e muito honrada por estar nomeada.

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