Cinema

Canções sobre pedofilia e incesto, sexo e drogas. A infância de Charlotte Gainsbourg

A filha de Serge e de Jane Birkin estreou-se na música com “Incesto Limão”. E tornou-se ela própria numa estrela do cinema.
Charlotte e o pai, o canro francês Serge Gainsbourg

Charlotte Gainsbourg não era uma criança normal. Nunca o poderia ter sido. Mas o seu 13.º aniversário ficou marcado por aquele que é, ainda hoje, um dos videoclipes mais controversos do mundo da música.

A jovem de 13 anos está deitada numa cama, apenas de cuecas e uma camisa azul. Ao seu lado, o pai em tronco nu, a lenda da música francesa Serge Gainsbourg. “Ingénua como uma pintura de Henry Rousseau, os teus beijos são tão doces”, canta o pai. “O amor que nunca faremos juntos, é o mais raro, o mais inquietante”, responde a filha. O nome do tema e que serve de refrão? “Incesto Limão”.

A canção teve tanto sucesso quanto controvérsia. Nada que surpreendesse os franceses. Serge era assim, subversivo, provocador, marginal. Mas poucos acreditavam que pudesse arrastar a jovem pré-adolescente para a loucura que era a sua vida pública.

“Felizmente, nessa altura fui para um colégio interno. Estava completamente alheada de todo o escândalo. Estava protegida”, revelou Charlotte, anos mais tarde. O videoclipe teve o condão de a atirar para a ribalta e, inevitavelmente, acabaria por se tornar, também ela, numa artista multifacetada, da moda à música, passando pelo cinema.

Quase quatro décadas depois, Charlotte é uma estrela bem estabelecida, ainda que num circuito secundário, longe das grandes estrelas de Hollywood e dos blockbusters, mas uma peça essencial para muitos cineastas de culto.

Esta quinta-feira, 29 de julho, chegou aos cinemas portugueses um dos seus filmes mais recentes, “Crepúsculo”, onde partilha o ecrã com Tim Roth, num filme de Michel Franco. Roth tem o papel de Neil, um homem abastado que deixa para trás a sua família durante as férias, após a morte inesperada da mãe. Gainsbourg é a mulher, Alice. Subitamente, o surgimento de um parente distante perturba a dinâmica familiar. “Crepúsculo” estreou no Festival de Cinema de Veneza, em 2021, mas só agora chega às salas nacionais.

Na verdade, a carreira cinematográfica de Charlotte começou ainda antes de “Incesto Limão”, quando no mesmo ano interpreta a filha de Catherine Deneuve em “Paroles et Musique”.

As câmaras não eram uma novidade, até porque cresceu na sombra de não um, mas de dois pais famosos. Serge era uma das figuras maiores da música francesa. A mãe era Jane Birkin, cantora, modelo e sex symbol. Juntos, formaram um dos casais mais cool dos anos 70, fotografados a cada passo que davam.

O talento era genético e Charlotte tinha apenas 15 anos quando conquistou o seu primeiro César, o Óscar francês, na categoria de Atriz Mais Promissora. Contudo, a polémica de “Incesto Limão” parecia não a largar. Mesmo com o pai sob pesadas críticas, Charlotte continua a defendê-lo, mesmo ao fim de várias décadas.

“Eu não era assim tão inocente. Sabia sobre o que é que estava a cantar”, recorda sobre o tema. “Mas, para mim, isso não era um problema. Diverti-me. Além de que havia uma certa pureza por detrás da letra. É sobre o amor entre pai e filha (…) Imagino que fui usada para espicaçar a excitação que ele tinha relativamente à provocação. Ele era bom nisso, a provocar.”

Tantos anos depois, não guarda qualquer vergonha desse videoclipe, mas recorda que foi outro episódio célebre do pai que, esse sim, a embaraçou: o dia em que queimou uma nota de 500 francos na televisão. “No dia seguinte, na escola, os miúdos queimaram os meus trabalhos. Era uma coisa parva de crianças, mas incomodou-me. Era tímida e tinha que criar uma espécie de carapaça. Mas nunca sofri. Nunca. Tive uma boa infância.”

A provocação fez parte da sua infância e da vida dos Gainsbourg. Tanto que, depois da polémica, Serge voltou à carga, dois anos depois, com o filme “Charlotte For Ever” — o mesmo título do primeiro disco da jovem, lançado precisamente no mesmo ano, em 1986.

A produção conta a história de um outrora guionista de sucesso, que se transforma num alcoólico depressivo após a morte trágica da mulher. Sozinho em casa com a filha, ela torna-se na sua confidente e, apesar da relação atribulada, o pai desenvolve desejos incestuosos. Sem surpresa, foi Gainsbourg quem escreveu a narrativa e assumiu o papel principal. Charlotte fez de filha. E a provocação continuou.

Desta vez, contudo, Charlotte não guardou boas memórias da produção. “Ele obrigou-me a ir demasiado longe, a fazer coisas que me incomodavam”, recordou anos mais tarde. “Era muito difícil. Ficava amuada por causa das notícias. Fazia questão de não me esforçar. Era uma forma que tinha de me preservar.”

Em 1991, os anos de excessos finalmente apanharam Serge Gainsbourg, que sofreu um ataque cardíaco fatal. Charlotte tinha apenas 19 anos. “A sua morte foi um choque do qual tive muita dificuldade em recuperar”, recordou. “Podia e devia estar a contar [com a morte dele], mas fiquei devastada.”

Nada até aí tinha sido fácil. Eram famosas as noitadas de Serge e Jane Birkin pelos clubes de Paris, por vezes apaixonados, noutras ocasiões em furiosas brigas. Charlotte ficava, recorrentemente, esquecida. Ao ponto de, ainda com 13 ou 14 anos, ser deixada em sets de gravações durante semanas a fio, sem um único contacto com os pais. Nem um telefonema.

Charlotte assume-o, mesmo que admita que isso não deixou marcas. “Claro que gostava de ter passado mais tempo com os meus pais, mas nessa altura, nós [a família], estava em segundo lugar”, contou ao “The Independent”. “Gosto de imaginá-los em Paris, a divertirem-se, sem terem que pensar muito. Era uma época diferente.”

Após a morte do pai, o cenário não mudou muito. Birkin voltou a casar, desta vez com o compositor John Barry, e Charlotte ganhou uma nova irmã, Kate. Os hábitos familiares é que pouco se alteraram. Foi a própria Birkin quem confessou a habitual negligência, sua e de Barry, provocada pelas noitadas. Chegavam a casa quando as jovens já se preparavam para irem para a escola. E isso levou a outro drama familiar.

Kate Barry sofreu durante vários anos com o vício do álcool e das drogas, que começou ainda durante a adolescência. Em 2013, foi encontrada morta nas ruas de Paris, numa aparente queda da varanda do seu apartamento no quarto piso. Nunca foi possível concluir se tudo não passou de um acidente, ou se foi mesmo um suicídio.

Apesar da infância atribulada, Charlotte Gainsbourg não guarda rancor. É ela, aliás, quem mantém o antigo apartamento do pai em Paris em perfeito estado de conservação. Tudo para que os fãs possam viver a experiência da Casa Gainsbourg.

Sobre o rasto de polémicas, a atriz admite ter saudades de um tempo em que tudo era mais livre. “Hoje em dia é tudo tão politicamente correto. Tudo tão aborrecido. Tão expectável. E toda a gente tem medo do que pode acontecer se vão demasiado longe. Um par de tweets e está feito. Tens a carreira acabada.”

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