Cinema

Carta de amor a Tom Hanks: o ator mais querido de Hollywood

Uma repórter da NiT explica por que acha Tom uma das pessoas mais incríveis em todo o mundo — a sério, quem não acha?
Hanks em "Um Amigo Extraordinário”, sobre outro adorado ator.

Não vi os Globos de Ouro do passado domingo, 5 de janeiro — para minha surpresa, não deu em direto ou em diferido em nenhum dos canais da televisão portuguesa, e embora adore cinema ainda não tive tempo para procurar um vídeo completo e decente da cerimónia no YouTube — nem é bem a mesma coisa. Mas vi em diversos sites noticiosos os melhores momentos, compilados ou mais destacados, e entre o humor mordaz de Ricky Gervais e os comentários políticos, houve um que me chamou a atenção: o discurso de Tom Hanks ao receber o reputado prémio de carreira Cecil B. DeMille. 

No seu discurso de agradecimento tudo foi praticamente perfeito, mas houve um momento que se destacou e se tornou viral: aquele em que Hanks se emociona ao agradecer à família, primeiro com lágrimas contidas e depois mesmo com um soluço, dizendo basicamente à mulher e filhos que, sem eles, não seria a mesma pessoa.

Cheguei a passar o instante algumas vezes para trás, para o rever já quase em lágrimas e fiquei a pensar naquilo. Normalmente, ao assistirmos a um momento destes apanhado em câmara, tão intimo, sentimos um misto de empatia e carinho com um ligeiro e incómodo (não o queremos, mas está lá) constrangimento alheio. Talvez por sentirmos estar a ver um pouco demais, a vislumbrar emoções privadas e que não eram necessariamente para nós, que sendo registadas para o mundo inteiro ficam um pouco estranhas. Mas não ali; não com este momento.

A emoção de Tom Hanks é de tal forma espontânea, incontrolável e sentida que o instante é absolutamente marcante — como se subitamente, em segundos, confirmássemos tudo o que sempre achámos e sentimos que o ator norte-americano seria; e ficássemos incrivelmente reconfortados com essa confirmação.

No seu discurso, Hanks até conseguiu brincar com a situação, dizendo que estava constipado e que se assim não fosse não estaria tão emocional. Mas o mal, ou o bem, estava feito. Por todo o planeta começaram os memes, os gifs (muitos também das suas reações às piadas de Gervais), os tweets e as partilhas. E a unanimidade no acarinhamento, na compreensão, na adoração ao ator de 63 anos é absolutamente deslumbrante.

São aos milhares, os comentários em todo o mundo. Uma amostra: “o ator mais simpático de sempre”: “Tom Hanks a presidente, mas para sempre”; “eu amo o Tom Hanks mais do que a própria vida”; “é impossível ser humano e não adorar o Tom Hanks”; “não há ninguém no mundo melhor do que ele”.

Não me lembro de nada assim, ou pelo menos desde o movimento que começou em redor de Keanu Reeves em 2019 — também de forma espontânea e viral porém com motivos simples, como fotos naturais onde o ator mantinha a distância ao posar com fãs, respeitando o seu espaço. Um cavalheiro, um ator com uma conduta irrepreensível o que é raro nos tempos que correm, um ser humano peculiar, disse-se então sobre Reeves. E escreve-se agora, de forma tão ou ainda mais justa, sobre Hanks.

Curiosamente, nas entrevistas pós Globos aos jornalistas, o próprio Hanks também lembrou Keanu Reeves, com quem contracenou em “Toy Story 4”, dizendo que o colega tem uma resposta perfeita para a pergunta de como é ser tão adorado. “[Reeves diz que] é melhor do que a alternativa, que é ser odiado e é verdade”, disse o ator a rir. “Eu prefiro que gostem de mim do que me odeiem”, acrescentou.

Toda a entrevista pós gala foi em torno disso: compreenderá Hanks, e saberá ele explicar, porque é tão globalmente acarinhado?

Em ano de homenagem à sua já gigante e bem sucedida de carreira, os Globos de Ouro deram ao ator o Cecil B. DeMille, sendo curioso um detalhe: Hanks já tem dois Oscars e quatro Globos de Ouro (fora os Baftas, Emmys, dezenas de nomeações e afins), mas na altura em que já recebe prémios de carreira continua a ser lembrado por papéis atuais  — ainda esta terça-feira 7 de janeiro, recebeu mais uma nomeação para os Bafta, por “Um Amigo Extraordinário”.

Mas além de tudo disso, dos prémios e dos filmes, porque será o ator tão incrivelmente unânime e adorado, perguntavam os repórteres no final dos Globos. E nós perguntamos: Porque não?

Lembro-me de Tom Hanks desde praticamente sempre. O “Big” saiu em 1988, mas só o terei apanhado na televisão uns bons anos depois, teria uns oito ou 10 anos. É essa a minha primeira memória do ator: no papel da criança que queria ser adulta e depois já não queria (como eu, como todos). A cena do piano, o seu ar patusco e infantil (sendo que o ator já tinha 32 anos quando o fez), a graça e a mensagem de toda a história.

Mais tarde vi e adorei o “Splash“, que curiosamente foi lançado antes (em 1984) e depois foi a sucessão sem fim de incríveis filmes até à data: mais de 70, fora os papéis na televisão, as participações pontuais no teatro.

Tom Hanks é, para mim e para sempre, o eterno Big. E ao mesmo tempo o eterno Forrest Gump, a dizer-nos que a vida é como uma caixa de chocolates; o eterno viúvo Sam Baldwin do magnífico “Sleepless in Seattle“, o Joe Fox de “Você tem uma mensagem“, o Chuck Nolan de “Náufrago“. Tom Hanks é o Woody de “Toy Story“, o Andrew Beckett de “Filadélfia“, o capitão de “Apollo 13“, o homem sem pátria Viktor Navorski de “Terminal de Aeroporto“. E é, ironicamente, o muito adorado ícone da televisão norte-americana Fred Rogers, a sua última recriação no filme ainda por estrear por cá e que já está a recolher nomeações, “Um Amigo Extraordinário”.

É como se ele fosse uma mistura do melhor das suas personagens — sendo verdade que raramente protagonizou vilões, mas mesmo em papéis mais duros vislumbrava-se a sua humanidade.

E é isso que ele tem e que salta tanto à vista: humanidade. Relatividade com todos, como se fosse um de nós, a crescer e envelhecer perante os nossos olhos, sempre com graça, sempre com charme, sempre com imensa classe, caramba.

Tal como contou a atriz Charlize Theron ao apresentar o Cecil B. DeMille, lembrando que adorava “Splash” em criança e que por isso quando fez um dos primeiros testes da sua carreira para um filme do ator estava extremamente nervosa e à beira de um ataque de pânico — sendo que ele terá percebido.

Hanks acabou mesmo por pedir cinco minutos de pausa aos produtores, alegando que precisava de ir buscar algo à sua caravana, mas Theron percebeu que a pausa era para ela — não para ele.

São estas histórias. É o seu casamento de décadas com a incrível e hilariante Rita Wilson, que todos queremos que dure basicamente para sempre. São os elogios de todos os que contracenam com ele, de todos os que trabalham com ele. É o seu ar por vezes inseguro ou atrapalhado, como se não fosse preciso ser sempre uma super pessoa. A aparente humildade.

E são outras revelações, como esta: ao agradecer, no domingo, Hanks disse que “um homem é abençoado com uma família como a sentada à minha frente. Uma mulher que é fantástica em todos os sentidos, que me ensinou o que é o amor. Cinco filhos mais corajosos, mais fortes e mais sábios do que o seu velhote”.

Tom falou em cinco filhos, quando na verdade tem apenas quatro. Mas uma fonte disse à People que isto é algo comum no ator, já que gosta e faz questão de incluir a mulher do seu filho Colin, Samantha Bryant, como sua filha também. 

É tudo isto, combinado. No final da gala e perante a avassaladora resposta positiva ao seu discurso, Hanks garantiu que o próximo filme, com o realizador Baz Luhrmann sobre Elvis Presley, vai ser o seu primeiro grande papel de mau da fita e ai calará toda a gente, todas as perguntas de sobre se conseguirá ser o mau, ou de porque nunca faz de vilão.

Mas Tom, se me lês, vê se entendes: para nós, tu nunca serás o vilão. Serás a estrela de Hollywood que é quase família, serás o mesmo exemplo de humanidade de sempre. E para sempre — ou como diria Buzz Lightyear ao seu amigo Woody, “até ao infinito — e mais além”.

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